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Na corda bamba

Como podemos encarar o sofrimento como um aliado.

Por
Mariana Goelzer
Publicado em
Na corda bamba
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Como é difícil ao Homem olhar no espelho e reconhecer verdadeiramente quem é. Enquanto ser de linguagem, está habilitado a trocar a realidade por discursos persuasivos. Toma aquilo que afirma por sua identidade, e esquece de observar suas escolhas, as atitudes que adota nas diversas situações cotidianas. 

Naturalmente experimentando a vida a partir de sua perspectiva, conduzido por uma avalanche de emoções, recorre à razão para legitimar o ilegítimo, munindo-se de uma argumentação convincente em defesa de si mesmo e de suas ações, palavras e pensamentos. 

Fecha seus olhos para as circunstâncias para manter uma imagem imaculada sobre si, mas a cegueira cobra alto preço. Na penumbra que são os caminhos da vida, cada passo que dá é um bloco na construção do seu eu. Relutante em perceber com clareza o significado de seus atos, vai descendo a ladeira da imoralidade, da perda de seus valores, daquilo que almeja ser. Ruma inconscientemente para o destino que jura repudiar. 

Vem a queda. Tal como um equilibrista que já não consegue se manter no eixo, caí. E é dali, do chão, que por vezes finalmente é chamado a confrontar suas imperfeições, os vícios que o dominam e que não queria aceitar. 

A dádiva, ironicamente, ganha os contornos do sofrimento. Esse poderoso instrumento é a via que vem corrigir as distorções em sua visão, compelindo-o ao exercício da consciência e da análise. 

E, assim, quando se curva, torna-se maior, porque capaz de transcender os aspectos malignos que rondam sua existência, para se entregar à incessante busca de se manter comprometido em permanecer na reta linha que é a forja de um ser íntegro e ético. 

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