Atualidades5 min de leitura

Como uma rua abandonada mudou a fé de milhões?

O evento ocorrido em 1906 é um dos motivos pelos quais o movimento evangélico nunca parou de crescer, e hoje alcança a política de diversos países.

Por
Gabriel Costa
Publicado em
Pessoas louvando em um culto evangélico
Fonte da imagem: Reprodução

Receba notícias gratuitamente em seu email

Um jovem pregador negro conseguiu reunir brancos e negros sob um mesmo teto em Los Angeles. O evento já chamava a atenção por si só, já que corria o ano de 1906, quando as leis de segregação racial ainda proibiam esse tipo de convivência.

O episódio foi batizado de Avivamento da Rua Azusa e é considerado o marco fundador do pentecostalismo moderno.

Isso aconteceu em um antigo templo metodista abandonado, na Rua Azusa. O pregador William J. Seymour começou a liderar reuniões de oração.

As reuniões se estenderam por cerca de três anos. Relatos da época falam em curas, profecias, transes e o que ficou conhecido como "falar em línguas estranhas", fenômeno chamado de glossolalia.

Trata-se do ato de falar em uma língua considerada divina, algo comum em estados de transe religioso, e que muitos evangélicos interpretam como manifestação do Espírito Santo.

O que tornou o episódio único, porém, não foram apenas as manifestações espirituais relatadas. Foi o fato de reunir, num mesmo ambiente, brancos, negros, latinos, homens e mulheres, orando juntos, num país onde isso era socialmente proibido.

  • Que tal receber notícias todos os dias em seu WhatsApp? Clique aqui e entre para o canal oficial da Brasil Paralelo. 

Qualquer pessoa poderia difundir a fé

Essa mistura, somada à experiência emocional e direta do sagrado, atraiu visitantes de todo o país e do exterior. Muitos deles voltaram para suas cidades de origem e fundaram novas igrejas.

É por isso que praticamente todas as grandes denominações pentecostais do mundo, como as Assembleias de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular, remontam, direta ou indiretamente, àquele avivamento.

Segundo o teólogo britânico Allan Anderson, especialista em pentecostalismo, o episódio teve um efeito estrutural: descentralizou a liderança religiosa.

Qualquer pessoa, sem formação institucional, podia se tornar um agente de difusão da fé. Essa característica deu ao movimento uma capacidade de expansão sem precedentes.

A Rua Azusa é só um capítulo de uma história mais longa

O termo "evangélico" vem do grego euangelion, que significa boa notícia. Martinho Lutero recuperou essa palavra no século XVI para designar os cristãos que rompiam com a autoridade da Igreja Católica, no episódio que ficou conhecido como Reforma Protestante.

Na época, evangélico era quase sinônimo de protestante. E ainda hoje, na Alemanha, o termo é usado para designar as igrejas luteranas.

A diferença entre protestantismo histórico e evangelicalismo, como conhecemos hoje, surge só mais tarde, com movimentos como o Pietismo alemão e o Metodismo de John Wesley, nos séculos XVII e XVIII.

Esses grupos consideravam o protestantismo frio e institucional demais. Para eles, não bastava pertencer a uma igreja: era preciso viver uma experiência pessoal, um novo nascimento na fé.

Movimentos itinerantes levaram a fé pelos EUA

Essa ideia se espalhou pelos Estados Unidos através dos chamados Grandes Despertamentos, movimentos de pregação itinerante e conversões em massa que moldaram a cultura evangélica americana.

Foi nesse ambiente que surgiu, no fim do século 19, o movimento de santidade, que pregava uma segunda experiência espiritual depois da conversão. Foi dessa tradição que nasceu o avivamento de 1906.

O crescimento evangélico combina alguns fatores:

Um deles é organizacional: diferente do modelo católico, mais centralizado, o modelo evangélico permite que qualquer pequena comunidade vire uma nova igreja, sem depender de processos institucionais longos.

Outro fator, segundo o professor Andrew Chesnut, da Virginia Commonwealth University, é a experiência vivida dentro da igreja.

O pentecostalismo oferece cultos emocionais e participativos, com cânticos e testemunhos, que conversam bem com a cultura popular na América Latina, na África e na Ásia.

[LEADS] Brasil Evangélico

O movimento evangélico afetou diretamente o trabalho social

Em lugares marcados pela pobreza e pela violência urbana, igrejas evangélicas costumam funcionar como redes de apoio, oferecendo ajuda material e suporte contra o vício em drogas, muitas vezes suprindo a ausência do próprio Estado.

Com o tempo, esse crescimento deixou de ser só religioso. Hoje, bancadas evangélicas influenciam eleições e leis no Brasil, nos Estados Unidos e em partes da África e da América Latina, mudando a composição de parlamentos inteiros.

É justamente esse fenômeno, da rua abandonada em Los Angeles à força política que o movimento evangélico se tornou, que a Brasil Paralelo investiga no documentário original "O Brasil Evangélico".

A produção estreia gratuitamente no YouTube no dia 8 de julho, em exibição única.

Clique aqui e garanta seu lugar.

O jornalismo da Brasil Paralelo existe graças aos nossos membros

Como um veículo independente, não aceitamos dinheiro público. O que financia nossa estrutura são as assinaturas de cada pessoa que acredita em nossa causa. 

Quanto mais pessoas tivermos conosco nesta missão, mais longe iremos. Por isso, agradecemos o apoio de todos. 

Seja também um membro da Brasil Paralelo e nos ajude a expandir nosso jornalismo. 

Clique aqui.

[LEADS] Brasil Evangélico
[LEADS] Brasil Evangélico