O evento ocorrido em 1906 é um dos motivos pelos quais o movimento evangélico nunca parou de crescer, e hoje alcança a política de diversos países.

Um jovem pregador negro conseguiu reunir brancos e negros sob um mesmo teto em Los Angeles. O evento já chamava a atenção por si só, já que corria o ano de 1906, quando as leis de segregação racial ainda proibiam esse tipo de convivência.
O episódio foi batizado de Avivamento da Rua Azusa e é considerado o marco fundador do pentecostalismo moderno.
Isso aconteceu em um antigo templo metodista abandonado, na Rua Azusa. O pregador William J. Seymour começou a liderar reuniões de oração.
As reuniões se estenderam por cerca de três anos. Relatos da época falam em curas, profecias, transes e o que ficou conhecido como "falar em línguas estranhas", fenômeno chamado de glossolalia.
Trata-se do ato de falar em uma língua considerada divina, algo comum em estados de transe religioso, e que muitos evangélicos interpretam como manifestação do Espírito Santo.
O que tornou o episódio único, porém, não foram apenas as manifestações espirituais relatadas. Foi o fato de reunir, num mesmo ambiente, brancos, negros, latinos, homens e mulheres, orando juntos, num país onde isso era socialmente proibido.
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Essa mistura, somada à experiência emocional e direta do sagrado, atraiu visitantes de todo o país e do exterior. Muitos deles voltaram para suas cidades de origem e fundaram novas igrejas.
É por isso que praticamente todas as grandes denominações pentecostais do mundo, como as Assembleias de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular, remontam, direta ou indiretamente, àquele avivamento.
Segundo o teólogo britânico Allan Anderson, especialista em pentecostalismo, o episódio teve um efeito estrutural: descentralizou a liderança religiosa.
Qualquer pessoa, sem formação institucional, podia se tornar um agente de difusão da fé. Essa característica deu ao movimento uma capacidade de expansão sem precedentes.
O termo "evangélico" vem do grego euangelion, que significa boa notícia. Martinho Lutero recuperou essa palavra no século XVI para designar os cristãos que rompiam com a autoridade da Igreja Católica, no episódio que ficou conhecido como Reforma Protestante.
Na época, evangélico era quase sinônimo de protestante. E ainda hoje, na Alemanha, o termo é usado para designar as igrejas luteranas.
A diferença entre protestantismo histórico e evangelicalismo, como conhecemos hoje, surge só mais tarde, com movimentos como o Pietismo alemão e o Metodismo de John Wesley, nos séculos XVII e XVIII.
Esses grupos consideravam o protestantismo frio e institucional demais. Para eles, não bastava pertencer a uma igreja: era preciso viver uma experiência pessoal, um novo nascimento na fé.
Essa ideia se espalhou pelos Estados Unidos através dos chamados Grandes Despertamentos, movimentos de pregação itinerante e conversões em massa que moldaram a cultura evangélica americana.
Foi nesse ambiente que surgiu, no fim do século 19, o movimento de santidade, que pregava uma segunda experiência espiritual depois da conversão. Foi dessa tradição que nasceu o avivamento de 1906.
O crescimento evangélico combina alguns fatores:
Um deles é organizacional: diferente do modelo católico, mais centralizado, o modelo evangélico permite que qualquer pequena comunidade vire uma nova igreja, sem depender de processos institucionais longos.
Outro fator, segundo o professor Andrew Chesnut, da Virginia Commonwealth University, é a experiência vivida dentro da igreja.
O pentecostalismo oferece cultos emocionais e participativos, com cânticos e testemunhos, que conversam bem com a cultura popular na América Latina, na África e na Ásia.
Em lugares marcados pela pobreza e pela violência urbana, igrejas evangélicas costumam funcionar como redes de apoio, oferecendo ajuda material e suporte contra o vício em drogas, muitas vezes suprindo a ausência do próprio Estado.
Com o tempo, esse crescimento deixou de ser só religioso. Hoje, bancadas evangélicas influenciam eleições e leis no Brasil, nos Estados Unidos e em partes da África e da América Latina, mudando a composição de parlamentos inteiros.
É justamente esse fenômeno, da rua abandonada em Los Angeles à força política que o movimento evangélico se tornou, que a Brasil Paralelo investiga no documentário original "O Brasil Evangélico".
A produção estreia gratuitamente no YouTube no dia 8 de julho, em exibição única.
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