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Lula vai devolver canhão histórico? Um dos maiores especialistas na Guerra do Paraguai fala com a Brasil Paralelo

Francisco Doratioto explica que o presidente não é responsável pela crise diplomática.

Por
Rafael Lorenzo M. Barretti
Publicado em
Canhão El Cristiano
Fonte da imagem: Reprodução

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Ao longo da semana, saiu a notícia de que Lula concordou em devolver o canhão El Cristiano para o Paraguai em meio a uma crise diplomática.

O canhão é da Guerra do Paraguai e recebeu o nome porque foi construído a partir do bronze de sinos de igrejas derretidos.

A peça foi capturada quando as tropas da Tríplice Aliança tomaram a fortaleza de Humaitá, em julho de 1868. O artefato foi integrado ao Museu Histórico Nacional em 1922 e segue em exibição.

Há mais de 15 anos o Paraguai pede pela restituição do canhão, mas os pedidos ganharam força em meio a uma crise diplomática após uma fala de Lula:

Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina. E essa guerra, que parecia que não ia dar em nada, durou cinco anos”, afirmou. 

Para discutir melhor o caso, a Brasil Paralelo entrevistou o professor Francisco Doratioto, autor de Maldita Guerra, uma das maiores referências sobre o conflito.

Leia a conversa na íntegra abaixo:

Na visão do senhor, o Brasil deveria devolver o canhão? Por que?

Creio que não se deve tratar dessa devolução isoladamente. O Paraguai também tem um troféu de guerra que é a canhoneira brasileira Anhambaí, capturada em janeiro de 1865 por ocasião da invasão paraguaia do atual Mato Grosso do Sul. 

O canhão faz parte da História paraguaia e da brasileira, pois ele matou soldados brasileiros. A Anhambaí também faz parte da História de ambos os países, pois depois de capturada foi utilizada pela Marinha paraguaia. 

Me parece justo, por exemplo, que se faça um intercâmbio dos dois troféus de guerra. Mais do que isso, considerando o espírito de integração regional e a construção de um presente e futuro solidário no Mercosul, dever-se-ia promover uma ampla devolução de troféus de todas as guerras travadas no século XIX.”

Qual a importância do canhão para a memória histórica brasileira e o impacto simbólico de devolvê-lo ao Paraguai?

Ele faz parte de algo mais amplo, que é a disputa criada pelos nacionalistas paraguaios  durante o século XX e transformada em ideologia oficial de Estado pelo ditador Alfredo Stroessner. 

Nela é ignorado o fato de que as forças paraguaias invadiram primeiro o Brasil, sem haver ameaça militar brasileira ou argentina a território paraguaio. 

O Brasil ou Argentina nem tinham exércitos para reagir à invasão paraguaia, tendo de organizá-los de modo que o território paraguaio fosse invadido por forças aliadas (argentinas, brasileiras e paraguaias) somente em abril de 1866 e, ainda assim, o Mato Grosso continuou sob ocupação paraguaia até abril de 1868. 

Como, então, o Império do Brasil ou a Argentina podem ser acusados de iniciarem a guerra? Ela foi iniciada pelo ditador paraguaio Francisco Solano López, que decidiu intervir na guerra civil uruguaia, na qual a Argentina e Brasil tinham, sim, intervindo, intervenção esta, porém, que não representava ameaça militar ao Paraguai. 

Devido a essa tentativa no Paraguai, de alguns políticos e alguns personagens da vida pública, com diferentes interesses, responsabilizarem o Brasil pelo início da guerra é que houve uma reação por parte deles contra a declaração do Presidente Lula de que o Brasil foi invadido pelo Paraguai. 

O único equívoco do Presidente Lula é de afirmar que o Uruguai foi invadido, pois os invasores paraguaios do Rio Grande do Sul foram derrotados na batalha da Yatay, em Paso de Los Libres, na Argentina, em 17 de agosto de 1865 e a tropa paraguaia que ocupava Uruguaiana se rendeu em 18 de setembro de 1865. Essas tropas invasoras tinham como objetivo entrar no Uruguai, o que não ocorreu devido a essas derrotas. 

O Presidente Lula estava certo e, ao contrário do que alguns o acusaram no Paraguai, em nenhum momento ele fez declaração em relação à dor da população paraguaia com a guerra, pois também no Brasil se vivenciou essa dor, ainda que em menor extensão, pois houve  parte da população civil de Corumbá foi aprisionada e levada para Assunção e abandonada nas ruas, sem meios de subsistência e Uruguaiana foi saqueada. 

A Guerra do Paraguai teve consequências terríveis e o presidente Lula não fez qualquer outra declaração sobre o assunto além de constatar um fato: o Brasil foi invadido pelo Paraguai e não estava preparado para defender-se da invasão.  

Repito que sou a favor de devolver o canhão em um contexto de devolução de troféus de guerra, com o caráter simbólico da reconciliação. Sou contra devolver sem esse simbolismo de reconciliação, o que significará reforçar uma interpretação intencionalmente deturpada do processo histórico da Guerra do Paraguai, porque vai contra a realidade e a lógica dos fatos, que ignora conhecidos trabalhos de pesquisa não somente de historiadores dos países envolvidos nessa guerra, mas também de outras nacionalidades, como franceses, britânicos, alemães e estadunidenses.”

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Qual a mensagem que o governo brasileiro passa ao devolver esse armamento em meio a uma crise diplomática envolvendo a memória do conflito?

Francamente, eu não sei se o governo brasileiro decidiu essa devolução nos termos que vejo noticiado na imprensa. Até o momento em que respondo a essa pergunta não vi nenhuma declaração nesse sentido. 

A crise diplomática foi criada artificialmente, a partir de uma falsidade a de que o presidente Lula ignorou  o sofrimento do povo paraguaio. Os falsificadores da fala do Presidente Lula e da história da guerra seriam recompensados pelo governo brasileiro?  

Esse tema do El Cristiano deve ser tratado com todo o respeito e responsabilidade pois ele é uma das peças que representa o heroísmo do soldado paraguaio, que lutou bravamente contra as forças aliadas e foi vítima também das ordens militarmente ilógicas. 

E o El Cristiano também representa o sacrifício daqueles que o conquistaram. El Cristiano é mais do que um troféu de guerra.”

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