O que a arte deve comunicar? Duas correntes principais tentam definir qual é o conceito de “Arte”

Redação Brasil Paralelo
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28/1/2022
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A arte esteve presente na história da humanidade desde sempre. Os primeiros registros remontam aos tempos das cavernas. O homem sempre buscou representar seu cotidiano e toda a realidade que está ao seu redor. Mas qual é o verdadeiro conceito de arte?

Com a modernidade, diferentes ideias e tendências foram surgindo. Como a arte passou de representações da realidade, do belo e do divino a formas abstratas e muitas vezes chocantes? Entenda o Conceito de Arte.

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O conceito de arte

Para se chegar a um conceito de arte, é necessário recorrer à filosofia. A sua definição não é tão simples como um verbete de dicionário, pois existem diferentes ideias. Neste artigo serão abordadas as duas principais:

  1. arte transgressora;
  2. arte do belo.

Arte transgressora

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Obra Comedian, do italiano Maurizio Cattelan.

A arte é feita para incomodar? As atuais expressões artísticas priorizam a polêmica, o espanto e por vezes incentivam um rompimento com padrões estéticos e de beleza. Para os defensores desta arte, o papel do artista é:

  • chocar;
  • transgredir;
  • confrontar.

Denunciar a sociedade, causar a ruptura, desvendar os seres humanos para a realidade concreta, empurrando seus próprios limites. Estes são os parâmetros das artes modernas.

Para os artistas desta corrente, tudo pode ser considerado arte. Qualquer expressão que promova tais sentimentos, pode ser uma peça artística.

Alguns artistas desse grupo chegam até a propor que não acreditam em arte. Outros exemplos que consideram artísticos são: latas empilhadas, pessoas despidas que se tocam em uma roda, pichações, etc.

As obras citadas são reais e, normalmente, chocam o espectador. Mas o desconforto é justamente o objetivo destes artistas que querem desconstruir conceitos e padrões.

  • Um dos grandes responsáveis por valorizar a arte transgressora foram as teorias da Escola de Frankfurt. Entenda a teoria crítica e o papel da indústria cultural.

Essas ideias representam um polo oposto à arte do belo.

Arte do belo

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O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli.

A arte enquanto representação do que é bom e belo foi o que conduziu a humanidade por séculos. Aos poucos, estes conceitos de beleza foram sendo abandonados.

Platão formulou o conceito de arte do belo. Ela serve para conectar o ser humano com o seu eu mais profundo, com sua alma. Nela, o artista deve:

  • retratar a realidade à luz do que ela seria idealmente;
  • consolar os anseios humanos com a representação do ideal;
  • buscar representar a beleza na técnica e na forma de sua mensagem;
  • conectar a humanidade com a transcendência.

De alguma forma, o transcendente e o sublime aparecem na vida das pessoas enquanto elas escutam determinadas músicas ou veem certas obras de arte.

  • A beleza das obras de arte pode ser tão chocantes que levam pessoas a desenvolver uma curiosa doença. Conheça a síndrome de Stendhal.

Para a corrente da arte do belo, a beleza é um valor real, concreto e indispensável. Quando na história perdeu-se este parâmetro?

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A arte na história da humanidade

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Arte Rupestre em parede de caverna.

A designação do termo “arte” vem do latim ars, que significa habilidade. O primeiro uso conhecido da palavra vem de manuscritos do século XIII. No entanto, a palavra e suas muitas variantes provavelmente existem desde a fundação de Roma (753 a.C).

O Conceito de Arte na antiguidade deriva das teorias platônicas. O filósofo, e boa parte dos teóricos da antiguidade, só concebiam a arte a partir da ideia de beleza.

  • Quem foi Platão? Conheça a biografia e o legado de um dos maiores filósofos da humanidade.

Segundo os filósofos clássicos a beleza é acompanhada da bondade e da verdade. Só é verdadeiramente belo o que é ao mesmo tempo bom e verdadeiro. Por isso a beleza atrai.

A ideia clássica de arte e beleza apóia-se na harmonia, no equilíbrio e na proporção. Todos estes conceitos eram aplicados na imitação da natureza.

Com o advento do cristianismo, a idade média introduziu novos elementos nos conceitos greco-romanos de arte.

A medida do belo, do bom e do verdadeiro é o próprio Deus. A natureza e o homem são vistos como reflexo da criação. Por isso são bons e belos e devem ser retratados na arte.

Na mentalidade medieval, o belo está nas coisas e não na mente das pessoas. 

Todos os símbolos, os traços, a luz e a proporção das obras refletem o contato do homem com o divino. São uma ponte entre o ser humano e o além.

A beleza e a arte servem como ponto de contato dos homens com o divino. O imanente com o transcendente.

Mas toda esta tradição clássica é rompida na modernidade. As novas ciências, o progresso material e as novas ideias políticas consolidaram uma visão crítica do passado. Em troca da tradição, ofereceram o desejo de criar uma nova sociedade e uma nova ordem.

A modernidade não é um conjunto de ideias fechadas. Ao longo dos últimos cinco séculos ela comportou diferentes tendências e ideias. Apesar desta dissonância, há um fator comum: a ideia de beleza e arte moderna comporta uma nova concepção.

O espírito revolucionário da modernidade envolveu também a arte. O desejo de descartar tradições e criar uma nova sociedade passou à arte e ao conceito de belo.

Desse modo, a transgressão, o desejo de romper moldes, formas, categorias, hierarquias, apossou-se das artes.

Por que a beleza importa?

A beleza conecta o ser humano com algo imaterial. É possível ter utilidade sem ter beleza, mas quando ela está presente, atos, ritos, símbolos, ações, enfim, as atividades humanas ganham todas um significado a mais.  Vinculada ao que é Bom e Verdadeiro, a Beleza é agradável aos olhos e se conecta ao transcendente.  

Há um ditado popular que diz o seguinte: “A beleza está nos olhos de quem vê”. Mas se ela realmente está nos olhos de quem vê, como a humanidade tem visto o mundo?

O conceito e as formas da beleza mudaram durante a história. Mas nada foi tão impactante e drástico como a mudança que ela sofreu na modernidade. O último século relativizou a ideia de beleza.

  • Um dos conceitos clássicos que foi derrubado pela modernidade é a ideia de poética na arte. Entenda este conceito aristotélico.

Nas artes, músicas, arquitetura, urbanismo, perdeu-se a preocupação com a beleza. O que ficou muitas vezes são formas utilitaristas ou chocantes.

Cidades que parecem verdadeiros mares de concreto. Sem forma, sem cor e, no fim, sem beleza. Intervenções artísticas que não comunicam uma mensagem bela e concreta, que chocam os espectadores.

Para o filósofo contemporâneo Sir Roger Scruton:

“Em qualquer tempo, entre 1750 e 1930, se se pedisse a qualquer pessoa educada para descrever o objetivo da poesia, da arte e da música, eles teriam respondido: a beleza. E se você perguntasse o motivo disto, aprenderia que a beleza é um valor tão importante quanto a verdade e a bondade.
Então, no século XX, a beleza deixou de ser importante. A arte, gradativamente, se focou em perturbar e quebrar tabus morais. Não era beleza, mas originalidade, atingida por quaisquer meios e a qualquer custo moral, que ganhava os prêmios.
Não somente a arte fez um culto à feiura, como a arquitetura se tornou desalmada e estéril. E não foi somente o nosso entorno físico que se tornou feio: nossa linguagem, música e maneiras, estão ficando cada vez mais rudes, auto centradas e ofensivas, como se a beleza e o bom gosto não tivessem lugar em nossas vidas.
Uma palavra é escrita em letras garrafais em todas estas coisas feias, e a palavra é: EGOÍSMO. ‘Meus lucros’, ‘meus desejos’, ‘meus prazeres’. E a arte não tem o que dizer em resposta, apenas: ‘Sim, faça isso’
Penso que estamos perdendo a beleza e existe o perigo de que, com isso, percamos o sentido da vida”.

Este trecho foi retirado de seu documentário “Por que a Beleza Importa”. Para Scruton, a beleza é objetiva, concreta e leva o espectador ao bem.

Aos poucos, o desafio e o desejo de revolucionar, produziu chocantes espetáculos. Diante de todo este cenário, uma pergunta perdura:

Para que serve a arte?

Para uns, a arte serve para chocar, escandalizar e romper todas as fronteiras do pensamento humano. Enquanto outros acreditam que a arte toca no íntimo da alma humana, servindo de ponte entre Deus e o homem.

E afinal, para que serve a arte?

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Dentro do conceito clássico de arte, há uma divisão em sete categorias.

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Os tipos de arte

Em 1923, Ricciotto Canudo, um intelectual italiano, publicou o “Manifesto das Sete Artes”. Este foi o ponto mais importante para definir quais são as sete artes clássicas: as principais artes do belo.

  • As artes do belo estão intimamente ligadas aos conceitos de tradição e cultura ocidental.

Antes da publicação do manifesto, diversos filósofos haviam já debatido sobre o tema, sem encontrar consenso.

A lista ainda é discutida, já que deixou de fora outras artes famosas e importantes. Alguns exemplos são: o teatro, a fotografia e o ilusionismo. 

Canudo defendeu o cinema como uma das artes mais importantes e adicionou-a na lista das artes antigas feita pelo filósofo Hegel.

O argumento em defesa da concepção de Ricciotto e da linha classicista alega que, as artes não inscritas na lista, são na verdade junções das sete artes clássicas. O teatro, por exemplo, seria a combinação entre literatura, gravura, dança, música e pintura. 

Embora o debate continue, a definição de Ricciotto é a mais famosa e a mais utilizada pelos intelectuais e artistas. Ele dividiu as artes do belo da seguinte maneira:

  1. Arquitetura;
  2. Escultura;
  3. Pintura;
  4. Música;
  5. Dança;
  6. Literatura;
  7. Cinema. 

Atualmente, a ordem que possui maior consenso entre os estudiosos é diferente. O documentário “A Primeira Arte”, da Brasil Paralelo, explica uma das razões.

Devido à descoberta de que o ser humano, desde antes do nascimento, possui conexão com sons, melodias, e até mesmo músicas, a música foi posta em primeiro lugar.

A audição é o primeiro dos sentidos a se desenvolver por completo.

Dessa maneira, a ordem mais utilizada para listar as sete artes nos dias de hoje é a seguinte:

  1. Música;
  2. Dança;
  3. Pintura;
  4. Escultura;
  5. Arquitetura;
  6. Literatura;
  7. Cinema.
“Se qualquer coisa pode ser considerada arte, então a arte deixa de ter relevância”. Roger Scruton

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