Prática comum há mais de um século, o jogo do bicho é proibido por lei. Entenda o motivo.

O sucesso da série Os Donos do Jogo reacendeu o interesse pelo universo do jogo do bicho, tradição carioca com mais de um século de história e que moldou bairros, escolas de samba, fortunas, guerras familiares e até a política do Rio de Janeiro.
A dúvida que sempre volta à tona também reapareceu: afinal, o jogo do bicho é crime no Brasil?
Juridicamente, o jogo do bicho é uma contravenção penal, uma infração mais leve do que um crime comum, mas ainda assim proibida. Ele está previsto no artigo 58 da Lei de Contravenções Penais (Decreto-Lei nº 3.688/41):
“Explorar ou realizar a loteria denominada jogo do bicho… Pena: prisão simples de 4 meses a 1 ano, e multa.”
Desde 1895, o Estado questiona a integridade dos sorteios e a facilidade para manipular resultados. Além disso, o sistema clandestino envolvia riscos de extorsão, corrupção, violência e lavagem de dinheiro.
Mesmo sendo tão difundido, o costume não revoga a lei. A regra continua em vigor até que outra a substitua, segundo o artigo 2º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro.
Na prática, dificilmente. Como é uma contravenção de menor potencial ofensivo, a lei permite uma solução negociada chamada transação penal, pagamento de multa ou participação em atividades educativas sem registro criminal.
No entanto, para organizadores e financiadores, o cenário é bem diferente. Eles podem responder por associação criminosa, corrupção, homicídios ligados a disputas territoriais e lavagem de dinheiro.
O jogo do bicho sobreviveu por mais de 130 anos por três motivos principais:
Essa combinação transformou algo criado para salvar um zoológico em um dos sistemas ilegais mais longevos e estruturados do país.
O jogo nasceu em 1892, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro. O responsável foi João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond, monarquista convicto, amigo de Dom Pedro II e fundador do primeiro zoológico da cidade.
Com a queda da monarquia, Drummond perdeu apoios e o zoológico entrou em crise. Para evitar o fechamento, criou uma rifa simples:
A ideia deu certo, até demais. O jogo rapidamente ultrapassou os portões do zoológico. Camelôs, comerciantes e pequenos donos de armazéns passaram a replicar o modelo por conta própria. Em 1895, o governo proibiu a prática.
Mas já era tarde: o bicho havia virado hábito cotidiano entre trabalhadores que viam nas apostas uma chance rápida de ganhar algum dinheiro.
No início do século XX, o jogo assumiu uma estrutura empresarial:
Por trás dessa estrutura havia regras claras: nunca deixar de pagar, publicar resultados para gerar confiança, usar a Loteria Federal como referência, financiar atividades “sociais” e formar redes de proteção política e policial.
Esses elementos permitiram que o jogo sobrevivesse por décadas, apesar da proibição.
Como explica o sociólogo Daniel Hirata, coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF:
“O jogo do bicho é a organização criminal com maior penetração na economia formal do Rio de Janeiro.”
Ele afirma que os clãs acumulam negócios que vão muito além da contravenção, alcançando setores inteiros da economia.
A ligação entre o jogo do bicho e o Carnaval é uma das mais profundas. Castor Gonçalves de Andrade e Silva, o maior bicheiro da história do Rio, colocou a Mocidade Independente de Padre Miguel no centro da cultura carioca.
Financiou desfiles, patrocinou atletas, investiu no Bangu Atlético Clube e se tornou figura pública respeitada e temida.
Esse modelo se espalhou. O envolvimento de bicheiros com escolas de samba se tornaria marca registrada. Para muitos pesquisadores, esse movimento foi uma forma de “lavar a reputação”: gerar emprego, financiar cultura popular e criar prestígio social.
A série da Netflix mostra outro exemplo: o envolvimento de Galego Fernandez com o Carnaval e com patrocínios esportivos. É a combinação entre ilegalidade, cultura e economia que tornou o jogo do bicho uma “cultura à parte”, como diz Daniel Hirata.
Com o lançamento de Os Donos do Jogo, o público começou a procurar explicações históricas e jurídicas sobre o universo retratado na série.
De onde veio o jogo? Por que dura tanto? Qual é a relação com escolas de samba? É crime?
As buscas sobre o tema cresceram e reacenderam a discussão sobre a força cultural, social e econômica dessa prática.
Afinal, entender o jogo do bicho é entender uma parte importante, e contraditória, da história do Brasil urbano: mistura de tradição popular, contravenção, cultura, violência e poder.
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