De igrejas populares a cadeiras no Congresso, entenda como o crescimento evangélico no Brasil dividiu opiniões.

O Brasil já foi conhecido como a maior nação católica do mundo. Mas os dados do último censo do IBGE mostram uma mudança. O país tem hoje o menor número de católicos e o maior número de evangélicos já registrado.
Essa transição rápida também trouxe tensão. À medida que igrejas evangélicas se multiplicavam pelo país, cresceu junto uma onda de críticas e estereótipos na esfera pública.
Para entender a origem dessa resistência, é preciso olhar para a formação histórica do Brasil.
O catolicismo foi a religião oficial do país até 1889, quando a Proclamação da República separou formalmente Igreja e Estado.
Mesmo depois disso, os símbolos católicos continuaram moldando boa parte da cultura nacional, dos feriados à arquitetura das cidades.
As primeiras igrejas protestantes, como luteranas e batistas, chegaram ao Brasil ainda no século 19, ligadas à imigração europeia. Conviveram de forma discreta com o catolicismo.
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A mudança de escala veio depois, com a expansão do pentecostalismo em meados do século 20 e, nas décadas de 1970 e 1980, com o crescimento das igrejas neopentecostais.
Esse crescimento aconteceu principalmente entre as camadas mais populares, o que fez a imagem do "crente" ser associada a estereótipos, como pouca escolaridade e comportamento considerado exagerado.
A forma de expressar a fé, com cultos mais efusivos e maior presença na mídia, passou a ser vista por parte da sociedade como uma ruptura com a identidade cultural tradicional do país.
A tensão ganhou outra dimensão quando o movimento evangélico passou a ocupar cadeiras no Congresso. A chamada bancada evangélica começou a se organizar a partir da Assembleia Constituinte de 1987 e 1988, atuando em bloco em temas como família.
Em 2003, os parlamentares evangélicos formalizaram a Frente Parlamentar Evangélica na Câmara dos Deputados.
Desde então, o número de deputados e senadores evangélicos cresceu continuamente, acompanhando o crescimento demográfico do grupo, que hoje representa cerca de 30% da população brasileira, segundo o IBGE e pesquisas do Datafolha.
Isso fez da bancada evangélica um dos maiores blocos suprapartidários do Congresso, com peso relevante em votações sobre temas de costumes, como aborto e união homoafetiva.
Esse crescimento político tornou o grupo alvo de críticas de setores progressistas, que apontam a atuação parlamentar evangélica como uma tentativa de impor uma agenda religiosa sobre um Estado que deveria ser laico.
No início do ano, o historiador Eduardo Bueno, conhecido como Peninha, gerou repercussão no início do ano ao dizer que os evangélicos não deveriam votar.
Segundo ele, o fiel deveria se restringir à vida religiosa:
"Evangélico tem que ficar no culto, tem que ficar no templo, tem que ficar pastando junto com o pastor. Deveria ser proibido evangélico votar porque eles não votam para pastor."
Bueno também associou o voto evangélico à eleição de políticos que classificou como "escumalha perigosa e violenta", afirmando que o grupo os elegeria "maciçamente".
Do outro lado, lideranças e fiéis evangélicos costumam rejeitar rótulos como "intolerante".
Eles afirmam que a mídia e parte da produção acadêmica tratam o grupo de forma generalizada, ignorando sua diversidade interna, que vai de igrejas históricas mais moderadas a neopentecostais.
Argumentam ainda que sua participação política é tão legítima quanto a de qualquer outro grupo organizado, e que representa parlamentares que compartilham a origem social de boa parte da população evangélica.
O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça relatou em entrevista à Brasil Paralelo já ter enfrentado esse tipo de preconceito ao longo da carreira.
Ele contou que, ao assumir um cargo na Advocacia-Geral da União em 2008, foi chamado de “padreco” por sua fé.
"Às vezes há críticas na imprensa, até uma decisão minha, o que é legítimo, mas eles sempre colocam: o evangélico, o terrivelmente evangélico".
Segundo o ministro, embora esse preconceito tenha diminuído, ele ainda existe.
"Nós não podemos desconsiderar isso, mas quem sente como eu sabe que há esse preconceito. Por isso a minha responsabilidade: eu sou o único evangélico hoje no Supremo Tribunal Federal. Eu sou um representante de toda uma nação de evangélicos, de milhões e milhões de pessoas pelo Brasil."
Esse debate, que envolve religião, política e identidade nacional, é o tema do novo documentário original da Brasil Paralelo, "O Brasil Evangélico".
A estreia gratuitamente no YouTube no dia 8 de julho, em exibição única.
Clique aqui e saiba como assistir
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