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A Batalha dos Guararapes marcou o surgimento da nacionalidade brasileira, explica o historiador Flávio Lemos

Redação Brasil Paralelo

Nos Montes Guararapes, brancos, negros e índios, irmanados por um só ideal, a saber, de defender a pátria contra o invasor holandês, derrotaram por duas vezes a poderosa força do exército inimigo, que era muito superior em efetivo, armamento e equipamento.

Este evento marcou o surgimento do exército e da identidade brasileira. Conheça a Batalha dos Guararapes.

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Qual foi a causa da Batalha dos Guararapes?

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A Batalha dos Guararapes envolve dois grandes conflitos armados entre holandeses, portugueses, negros e indígenas, entre 1648 e 1649, nos Montes Guararapes, em Pernambuco. O evento se insere no conjunto dos acontecimentos relacionados à Insurreição Pernambucana, desencadeada entre os anos 1645 e 1654.

As motivações para a Insurreição e para a Batalha dos Guararapes foram: 

  • a expulsão dos holandeses;
  • a devolução do nordeste ao controle do Rei de Portugal;
  • a retomada do culto católico;
  • o fim dos impostos abusivos dos holandeses.

Para entender porque os holandeses invadiram o Brasil e desentenderam-se com os colonos e portugueses, é necessário voltar ao período da União Ibérica.

União Ibérica

Uma crise de sucessão do trono português gerou forte interferência em terras além-mar. Em 1578, o rei português Dom Sebastião desapareceu enquanto lutava contra muçulmanos no Norte da África.

Não havia herdeiro para sucedê-lo no trono português. Assim, em 1580 o rei de Castela (Espanha) foi declarado rei de Portugal, iniciando a União Ibérica

  • O que foi a União Ibérica? Como isso interferiu na colonização da América portuguesa? Entenda como foi a colonização do Brasil.

A partir daquele ano, começaram as décadas em que Portugal estava dissolvido na Espanha. Isso trouxe complicações.

A Holanda, por exemplo, tinha boas relações com os portugueses, mas estava em guerra contra a Espanha. Durante o período da União Ibérica, ela fechou os portos para as relações comerciais e atacou o nordeste brasileiro para ter controle sobre o açúcar.

O interesse dos holandeses era mercantil, escolheram o lugar mais rico do Brasil na época: Pernambuco. Além dele, escolheram Recife e Olinda, porque o processo civilizatório já se havia consolidado nesses lugares.

Foram os portugueses que civilizaram um Brasil que tinha características bárbaras e pré-históricas; e depois, os holandeses quiseram tirar proveito. Eles roubaram e bloquearam a produção de açúcar no Brasil e os pontos de comércio de escravos no continente africano.

  • Uma das estratégias de colonização do Brasil foi a implementação das chamadas capitanias hereditárias. Entenda o funcionamento deste sistema.

O domínio holandês pareceu algo positivo para alguns colonos passado o período da guerra de conquista, especialmente para os proprietários de terra que receberam empréstimos e outras facilidades.

Porém, aos poucos, a dominação holandesa foi cerceando a liberdade religiosa, impondo o calvinismo e aumentando os impostos de modo abusivo.

Era questão de tempo até que os colonos insurgissem.

Insurreição Pernambucana

Após a conquista de Pernambuco, entre 1630-1654, os holandeses passaram a dominar os territórios pertencentes, respectivamente, à capitania da Paraíba (1634-1654), ao Rio Grande do Norte (1634-1654), à Capitania Real do Ceará (1637-1644/1649-1654) e à capital do Estado do Maranhão, São Luís (1641-1644).

Sob a administração do Conde Maurício de Nassau, entre 1637-1644, a expansão holandesa no litoral atlântico norte alcançava projeções cada vez maiores, especialmente por conta da ajuda que receberam dos indígenas.

Transcorridos alguns anos sob o jugo holandês, muitos indígenas passaram a ter problemas com eles, porque, apesar dos acordos que firmaram, muitos nativos eram escravizados.

  • A escravidão no Brasil atingiu indígenas e negros, e durou até o final do século XIX. Entenda o regime escravocrata desde sua origem até a abolição.

Disso decorreram uma série de movimentos indígenas de caráter militar que passaram a atentar contra o domínio holandês em seus territórios.

A partir de 1644, tais reações iniciaram um processo de enfraquecimento do poderio holandês.

Em São Luís, eclodiram revoltas, envolvendo portugueses e indígenas Tupis, que levaram à expulsão dos holandeses. Os indígenas do Ceará, percebendo o enfraquecimento holandês, também iniciaram um levante que terminou com a reconquista daquela capitania.

Foi iniciada a Insurreição Pernambucana, que ocorreu no XVII, entre 1645 e 1649.

Os portugueses enfrentaram o exército da Holanda na tentativa de expulsá-los do território brasileiro. 

Grande parte dos holandeses era protestante, mas os portugueses professavam o catolicismo. 

A luta pela libertação do Brasil uniu os indígenas do grupo potiguar e negros recém-libertos aos luso-brasileiros.

O principal enfrentamento aconteceu no Monte Tabocas, atual cidade de Vitória de Santo Antão, em Pernambuco. Os luso-brasileiros saíram vitoriosos desse conflito, mas as disputas territoriais entre brasileiros e holandeses estavam apenas começando.

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Quem lutou na Batalha dos Guararapes?

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A Batalha dos Guararapes foi um confronto entre holandeses e brasileiros; estes eram representados pela união das três raças: o branco português, o negro africano e o indígena nativo.

As tropas holandesas eram comandadas pelo comandante Von Schkoppe. E as tropas brasileiras, ou tropas patrióticas, eram comandadas por Francisco Barreto de Menezes.

Além de Francisco Barreto, havia os contingentes indígenas e negros: o primeiro liderado por Filipe Camarão, e o segundo por Henrique Dias.

  • Até os dias de hoje diversos povos indígenas preservam suas tradições e cultos. Para isso, recebem apoio do Governo Federal que é responsável por demarcar suas terras. Entenda o que é terra indígena.

Na segunda Batalha dos Guararapes, as tropas brasileiras mantiveram seus comandos e organizações, enquanto as tropas holandesas passaram a ser lideradas pelo Coronel Van den Brinck.

Entenda como foram as etapas do conflito.

Resumo da Batalha dos Guararapes

“O que aconteceu em Guararapes foi a reunião de portugueses instalados no Brasil, indígenas, como Filipe Camarão, e negros como Henrique Dias, em torno de um projeto: expulsar os calvinistas, permitir a prática da religião católica e devolver o Brasil ao rei de Portugal”. Flávio Alencar
  • O historiador Flávio Alencar explica as motivações da Batalha dos Guararapes. Veja esse trecho retirado de nossa série “Brasil — A Última Cruzada”:

Primeira Batalha dos Guararapes

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No ano de 1648, já iniciados os conflitos da Insurreição Pernambucana, os holandeses queriam bloquear a vinda de reforços da Bahia. A única maneira que os holandeses conheciam para chegar até a região do Cabo, vindo do Recife, era através da Estrada da Batalha, que passava pelos Montes Guararapes. 

Se esses montes fossem ocupados pelos invasores, os patriotas não teriam como receber suprimentos e reforços.

Pensando nisso, o objetivo estratégico dos holandeses era ocupar os Montes Guararapes para cortar esse acesso. O general Von Schkoppe, comandante das tropas holandesas, desenhou a estratégia e estava seguro de seu plano.

Os patriotas, ao perceberem as intenções dos holandeses, anteciparam-se. Realizaram uma marcha noturna forçada e chegaram primeiro nos Montes Guararapes.

As forças brasileiras, comandadas por Francisco Barreto de Menezes, organizaram-se da seguinte forma: 

  • o flanco direito era protegido por um agrupamento liderado pelo índio Felipe Camarão, cujos soldados se ocultaram no mato existente perto da região alagada; 
  • o flanco esquerdo era protegido pelo agrupamento do negro Henrique Dias, que ocupava a parte central do Morro do Oitizeiro; 
  • no centro, ocupando a parte baixa junto ao córrego da Batalha, entre o Oitizeiro e o Outeiro, o agrupamento dos brancos comandados por Fernandes Vieira; 
  • em reserva, mais à retaguarda, o destacamento de Vidal de Negreiros.

Antônio Dias Cardoso lançou um destacamento avançado pela Estrada da Batalha, composto de 200 a 300 homens e estabeleceu o contato com os holandeses. 

O objetivo era retardá-los e atraí-los para o Boqueirão, fazendo-os pensar que estavam em contato com a principal força dos patriotas. Mas a movimentação era uma isca para atrair os holandeses.

O comando holandês, desconhecendo o real número dos exércitos brasileiro, perseguiu o contingente.

As forças holandesas foram atraídas para o Boqueirão, ali se debateram com as forças de Henrique Dias. Assim, no flanco esquerdo das forças holandesas, um regimento os surpreendeu. 

As tropas holandesas foram então cercadas e prensadas, tudo isso somado à surpresa de se defrontar com uma tropa dez vezes maior que a esperada.

Desorganizados, os holandeses debandaram para a retaguarda, sob forte pressão das tropas brasileiras, sendo acolhidos pela reserva. O flanco esquerdo holandês, atolado nas regiões alagadas, foi totalmente destruído pelos índios de Felipe Camarão.

No flanco direito, os holandeses conseguiram afastar o regimento de Henrique Dias, obrigando-os a recuar até o atual Morro da Igreja.

O Coronel Van Der Branden já se organizava para prosseguir, quando recebeu a mensagem do General Schkoppe, informando que se encontrava ferido e determinando-lhe a assumir o comando, reorganizar a tropa e retirar-se para o Recife.

Ao término da batalha, os holandeses haviam perdido 1.038 dos 4.500 combatentes, sendo 515 mortos e os brasileiros insurgentes perderam 480 dos 2.200, dos quais 80 mortos.

Assim foi a vitória dos brasileiros na primeira Batalha dos Guararapes.

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Segunda Batalha dos Guararapes

No dia 18 de fevereiro de 1649, um ano após a primeira vitória brasileira na Batalha dos Guararapes, o exército holandês parte do Recife para uma revanche, com mais de cinco mil soldados experientes, incluindo centenas de índios, negros e marinheiros voluntários.

Mais uma vez, os luso-brasileiros destroem as forças holandesas no Boqueirão. Acreditando que as forças do comandante João Fernandes Vieira, que contava com 800 soldados, era tudo o que havia restado da resistência, os holandeses atacam com força total e ficam vulneráveis pelos flancos. 

Usando estratégias de guerrilha, os brasileiros surpreenderam os holandeses mais uma vez com 2.600 homens de infantaria e 50 cavaleiros, resultando em um número impressionante de baixas para os invasores.

Foram 2.000 mortos, incluindo seu melhor comandante Van den Brinck, e 90 feridos, enquanto as forças da coalizão luso-brasileira permaneciam quase intactas, com apenas 47 mortos e 200 feridos.

Sem esperança de vitória, as tropas holandesas fogem para o Recife, onde ficam sendo sitiadas por anos, até que se rendem, em 1654, e partem do Brasil, abandonando todas as suas possessões na colônia portuguesa.

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