Rasta
Deixa Rasta
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Nem piada conseguem fazer mais

Por 
Rasta
5/23/2022
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Engraçadinhos, irreverentes, astutos, ou apenas uma trupe de fanfarrões em busca de atenção, fazendo piadinhas para se esquivar da labuta e levar uma vida de cigarra na flauta?

Sim.

No Deixa Rasta de hoje, uma das formas artísticas que, descontraidamente, mais alegram o cotidiano do nosso povo aguerrido, esfolado e sofrido e que com as suas piadas; bordões; motes e idiossincrasias, influenciam o imaginário e a linguagem de milhões de brasileiros e atraem a ira espumante de outros tantos: os comediantes.

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É um desafio tratar de comédia pela mesma razão que uma piada perde a graça quando explicada. Mas ela é uma das atividades mais humanamente humanas do ser humano sapiens, homo ou mulher.

O riso, a galhofa, o ridículo, é típico daquele que não apenas age, mas que tem consciência de que age.

Através da razão, o ser humano é capaz de contemplar os fins de suas ações e julgar seus atos como sucessos ou insucessos, sua compreensão como correta ou equivocada, sua postura como rocheda ou fuleira.

Quem irá esquecer das peripécias de Pistetairo e Euelpides, os dois peralvilhos que fugiram do pomadismo sicofante dos atenienses e que convenceram, na base desse mesmo pomadismo sicofante, Tereu e as aves a fundar uma grande cidade, tomando a soberania do Olimpo com o auxílio da crocodilagem de Prometeu, trapaceando um Hércules com bócio.

Da velha comédia até aqui muita coisa aconteceu:

  • as sátiras romanas;
  • o martírio de São Genésio de Roma, que se converteu em pleno palco durante uma peça que zoava o batismo, apontou o dedo na cara das autoridades e morreu como mártir;
  • a cristandade medieval incorporando a salvação humana à estrutura cômica com a Divina Comédia de Dante, prova de que Deus tem senso de humor;
  • os clowns de Shakespeare;
  • os bocas do inferno como Voltaire que, ao tentar ridicularizar a bondade do criador e o melhor dos mundos possíveis, deixa seus personagens reconciliados a esse mesmo melhor dos mundos através da introdução da estrovenga e a milenar terapia do Capinar um lote. Então Pangloss realmente não foi tão tolo quanto o supôs Voltaire.

O termo Comédia, com certeza tem mais significados que aqueles dois tracinhos de visualizado e não respondido em mensagem de Whatsapp.

Não é nosso objetivo aqui fazer uma anatomia de crítica literária e explorar esses diversos significados e desenvolvimentos, mas é importante dizer duas coisas a respeito da comédia como a encontramos hoje.

A comédia no Brasil

  1. a gente vive a época da comédia de baixa mimese, onde usar a palavra herói para designar o protagonista é apenas uma ironia, porque são pessoas representadas como mais baixas e torpes e até mesmo mais burras que nós mesmos agindo em situações mundanas;
  2. o Brasil se tornou uma de suas maiores residências.

Gregório de Matos olha para a Bahia e vê:

“A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha
E podem governar o mundo inteiro.”

Machado olha para a sociedade do Rio e vê seminaristas que morrem devendo milhares de Ave-Marias e Pais Nossos ao grande banco salvífico, e moças ligeiras que amam homens canalhas por 15 meses e onze contos de réis.  

O engano do engano.

Personagens que não são o que aparentam, aparentando agir de uma maneira que não agem, mas que também não agiriam se o fossem.

Na comédia nacional, a frustração da expectativa é tão errada quanto a expectativa, mas nunca tão errada a ponto de transformar a realização da frustração da expectativa errada em um acerto.

Se assim o fosse, nossos políticos estariam, ao buscar satisfazer as promessas de direitos que não podemos ter, ao menos realizando aqueles direitos que podemos ter.

Sim, a nossa vida política é, nesse sentido, irônica e cômica, mas longe de ter o final feliz que se supõe no velho gênero literário.

A minha geração foi marcada por 2 grandes referências: Os Trapalhões, na Globo, que povoou a minha infância, e Hermes e Renato na MTV, que foi presente durante a minha adolescência.

Quem vai esquecer do lendário samba contra a burocracia do velho Hélio Beltrão que os originais do samba gravaram e fizeram aquele vídeo maravilhoso numa repartição, cheia de papel, formulário e carimbo.

Ou de Mussum e Tião Macalé tentando armar uma pindureta no bar do Didi, e arcando com o provérbio? Vejo que são embaixadores, dipromatas.

"Nós viemos de uma árvore ginecológica finíssimis".

O Sargento Pincel, aquele bigodão frondoso estilo Renatão do Faustão, Leôncio do Pica-pau, ou aquele tiozão camarão daquele vídeo ridículo da galera da cloroquina.

E Vera Verão, quase-mulher de beleza núbia que dava os melhores escândalos, muito melhor que Fernando Holiday.

Então vocês ficam aí, no Ovomaltine, na geladeira, achando que estão lacrando com essa fada madrinha nova dessa nova Cinderela que sonha em ser moderna, dinâmica, dinheiro na carteira...

Mais uma branquela americana com aquela atitude enjoada de que um mundo é um Starbucks que deveria ser dela, porque nesse aqui todos estão fazendo um péssimo trabalho.

Vera Verão, muito mais bonita, garbosa, uma careca lustrosa, sucesso total, até o Edmundo teria se apaixonado, dizem estudos.

O que dizer do Mussum de neve, então? E Hollywood achando que tá abalando com a nova Branca de Neve.

Os anos 2000 chegaram com a MTV Brasil atingindo mais estados na TV aberta. Eu lembro de vários programas com aquelas modeletes de sotaque paulista falando um monte de coisa chata, e eu tendo que esperar um monte de clipe de Nando Reis ou Titãs pra poder assistir um Nirvana ou um Nine Inch Nails.

Era o que tinha, e tinha algo interessante em você não ter tanto da gratificação instantânea que a gente tem com o Youtube hoje.

Daí eu lembro que em um belo dia, eu vi uma propaganda muito curtinha, mas muito engraçada, de dois caras de peruca em Petrópolis, falando no orelhão sobre grã finos degenerados. Era Hermes e Renato.

Eu fui no jornal. Logo depois dos classificados tinha a grade de programação da TV aberta e vi o horário, era sempre tarde da noite, tarde para um adolescente que ia pro colégio e acordava às 5 da manhã para não pegar o trânsito da avenida Caxangá.

Às vezes, era por volta das 11h da noite; às vezes, tinha reprise na madrugada. Quando eu conseguia ficar acordado ou acordava durante a noite, eu ligava a televisão na MTV baixinho para ver.

Foi aí que eu conheci os personagens lendários interpretados por Fausto Fanti, Marcos Alves, Adriano Pereira, Felipe Fagundes, Bruno Sutter e uma das figuras mais emblemáticas da comédia brasileira: Gil Brother, o Away de Petrópolis.

Era óbvio que aquilo era muito melhor que a MTV Brasil, e o tempo mostrou isso, quem é que entra no youtube para ficar vendo Pearl Jam no Disk MTV?

Agora Joselito o sem noção, Padre Quemedo e o filho do capeta, jornal jornal, documento trololó, boça espetacular, palhaço gozo, e os lendários Drops Away News, botando os cabrito pra mamar, tudo feito de uma maneira completamente despretensiosa e verdadeira.

Se você pegar quadros como ritmos transudos, com neném vasconcelos, ou o "a voz do Away" sobre índios, eles estão completamente fora de fase com as sensibilidades de hoje.

Mas eu não acho que isso termine dando algum problema, porque tem algo no Hermes e Renato que eles não são pretensiosos para simplesmente fazer algo por ser politicamente incorreto.

Em nenhum lugar das obras completas existe qualquer coisa que aponte para algo além de puro deboche e aquela possessão sincera.

A razão pela qual eu menciono isso é porque eu sinto que existe uma distinção que está sendo perdida nesse negócio todo de politicamente correto.

E eu não estou falando aqui daquele lugar comum "ah, o mundo tá muito chato, na minha época era melhor". Eu acho que a nostalgia é um elemento humano interessante, talvez tanto quanto ao humor, mas eu me refiro a algo diferente.

Comédia e o cancelamento

Nos últimos 15 anos, a comédia se tornou ponto central de polêmicas e cancelamentos. Hoje já se pode dizer que nenhum humorista irá passar sua vida ileso de ataques das turbas raivosas que permeiam a internet.

É também verdade que essa dialética pomadista é uma rapariga saturnina, que devora seus meninos e meninas e, sendo muitos destes comediantes propagadores dos mesmos comportamentos chiliquentos que terminam voltando contra eles mesmos, podemos afirmar que:

“Quem com cancelamento cancela, com cancelamento será cancelado”.

No final, a regra é clara: nem quem cancelar, nem quem não cancelar, vai cancelar ou não cancelar, vai todo mundo ser cancelado.

É o que aconteceu com Louis CK, com o movimento me too e tem acontecido com o Dave Chappelle, por razões distintas, ambos grandes comediantes, mas ambos cresceram com um público que, naquela hora, os viam como revolucionários na crista da onda, e agora já são julgados por outro público mais jovem, que olha para eles como representantes do ancien regime.

É mais ou menos como a arquitetura de Brasília ou o tal museu do amanhã, quando a sua razão de ser é ser o cajuzinho do verão, surfando na crista da onda, chega uma hora que o amanhã vira ontem e você fica parecendo um banheirão ou um ar-condicionado.

E a pilha de carcaças do progresso cultural fica algo parecido com um ferro-velho com um novo pavão profeta em cima.

Mas existe uma outra verdade, que é o lado negativo da história da luta contra o politicamente correto. Quando tudo está sendo condenado, cancelado, e queimado, alguns humoristas passam a viver somente de fazer piadas ruins que sejam politicamente incorretas.

Os populares já estão tão incomodados com essa história, que passam a aceitar qualquer piada ruim, desde que seja politicamente incorreta.

Se você tem uma piada ruim, basta acionar a palavra "gorda" e muita gente vai acreditar que melhorou a qualidade do serviço. Aí não. Aí eu me retiro educadamente…

Meu irmão, você precisa parar com isso, e aqui eu vou fazer a minha parábase, e dirigir-me aos juízes e respeitável público.

Um fanfarrão de primeira deve executar a sua arte da fanfarronice com maior valor, e nobreza, isso significa que piadas de efeito como:

  • gordas;
  • morte;
  • puns;
  • fezes;
  • orifícios;
  • reentrâncias;
  • saliências…

podem entrar como um adorno incidental, aquele lick familiar na hora do solo, mas elas não podem ser a base de tudo como é comum ver em certos stand ups do que eu chamo de "humor paulista".

Aquele humor de colégio Dante, onde a falta de alguém realmente abençoado pela graça da musa faz com que quem assuma esse papel seja o playboy com atributo para barbarian no D&D, 18 de força e constituição, 7 de inteligência e sabedoria e o carisma de uma samambaia de plástico.

Aqui estabeleço uma distinção e defendo o aposentado da direita e grão-mestre varonil da arte do deboche, Joaquin Teixeira. Só neste ano, o idoso teve 7 contas de instagram deletadas.

Como um estudioso do material Teixeiriano eu atesto que seu humor contém recursos clássicos da escola do pavê ou pacumê, é verdade, mas é sempre movido de algo que existe de mais nobre na comédia desde os seus tempos mais primórdios, quando a catarse estava aí: a simpatia e o ridículo.

A verdadeira comédia

Senhoras e senhores, é provável que alguns de vocês que leem até aqui, acusem-me de ser injusto. Acusação que eu não negarei, mas também não aceitarei como menos do que ela realmente é, um despautério, um desconchavo, um parangolé.

O filósofo, em sua poética, já descrevia a comédia como um modo em que o personagem representado é pior do que somos.

Não é minha função aqui entrar em uma discussão sobre o poder de ação de um personagem que entra nessa questão de bom ou ruim, o spoudaios e o phaulos.

O que eu falei no início já é o suficiente para a gente entender que, principalmente na nossa época da comédia, qualquer personagem representado será representado com injustiça.

Ele será tomado, colocado perante uma luz, sob um certo ângulo e este ângulo vai projetar uma sombra que é engraçada. Vai sempre existir aquele tiquinho de verdade sem o qual a sombra não existe, mas o retrato será injusto. É o Sócrates das nuvens x o Sócrates da apologia. 

Eu já falei aqui sobre como as expectativas estão horrivelmente posicionadas na questão do jornalismo, e é imprescindível mostrar como as expectativas também estão horrivelmente posicionadas na questão do humor.

Grande parte do problema dramático no nosso mundo é que as pessoas desaprenderam essa noção e exigem de um gênero algo que ele não pode oferecer.

Minha gente, isso aqui é comédia, isso aqui não é justo, isso aqui não pode ser justo, você já pensou eu pegar todas as nuances de uma questão ou de um personagem e considerá-lo em sua totalidade? Engraçado não vai ser, eu te garanto.

Olhar e expressar as coisas como são na realidade na medida em que se apresentam para a consciência é filosofia, não comédia.

A filosofia é o que vai se ocupar da tal justiça, aquilo que vocês acham que falta aqui, de dar a cada qual aquilo que lhe corresponde.

A filosofia vai buscar fazer a justiça surgir na alma, através do cultivo das virtudes, e no Estado, através de homens públicos virtuosos.

Desejo toda a sorte do mundo para esse empreendimento, desde que eu não pague a conta, mas o que vocês estão fazendo é coisa de louco.

O Estado é composto dos piores homens que a espécie pode produzir, aqueles que têm tesão em governar os outros. Ou seja, são material de comédia, incapazes de ministrar justiça porque não a possuem na alma, em primeiro lugar, e vocês reclamam do comediante por ser injusto.

Isso aí é que é uma palhaçada, vocês estão de PALHAÇADA, comigo e com vocês mesmos e essa palhaçada sempre desemboca em bigodagem.

Falando em Bigodagem, é hora do…

Troféu Bigodagem

troféu-bigodagem

O troféu Bigodagem de hoje vai para uma piada de mau gosto e que tem custado muito caro: A União Européia, uma promessa daquela integração típica da comédia com aquele cheiro de final trágico.

Em 1950, depois da Europa ter sido varrida por um tsunami de bigodagens, parecia justo e necessário que as nações se unissem de alguma maneira que pudessem prevenir guerras como as duas que mataram muito mais que Jeremias Muito Louco. 

Essa união foi estabelecida na forma de um grande plano, um plano que eliminaria as fontes de conflito e instituíram a cooperação no lugar da rivalidade.

Os arquitetos desse projeto pensavam que a melhor forma de criar essa unidade era através de um processo de padronização imposto por uma autoridade central com o objetivo de unificação a longo prazo.

Ou seja, vamos pegar o bigode de Hitler e de Stalin, juntar os dois, parcelar a longo prazo e impor na Europa inteira.

O bigodeiro toma no parreco hoje, e amanhã ele toma no parreco de novo, ele não sabe o que ele fez.

Bom, esse objetivo está em todas as políticas adotadas, como se ele fosse um avanço inexorável.

A tal união está cada vez mais próxima, e é a desculpa perfeita para justificar passar toda e qualquer lei e regulamentação.

O resultado é um monte de nações presas numa teia de burocracia que reduziu os países menores a meros protetorados onde o povo dos países maiores, que pagam a conta do projeto, vão passar férias porque é mais barato.

Esse regime de padronização é acompanhado pelo surgimento de uma forma de quase-governo desprovido de qualquer responsabilidade.

São decisões importantíssimas sendo tomadas por uma minoria de líderes nacionais, e que depois são traduzidas em regras por uma autoridade central cheia de poder, dentro da qual as pessoas estão preocupadas em seguir carreira, independentemente do grande plano.

É assim a comissão europeia, um monte de carreirista cagando regra lá de Bruxelas, e quem tem que se virar para aplicar a regra é o tiozinho que tava ali plantando seu repolho na Romênia, ou o fazendeiro lá no interior da Inglaterra, que agora tem que colocar as vacas tudo num caminhão para uma viagem de 4h para um veterinário vaciná-las contra um parasita que nem existe onde ele mora.

O resultado é o grande agribusiness, que é quem consegue absorver esses custos, tomando conta da paisagem rural. Crises migratórias nos países membros e o acquis communautaire, a qualidade irreversível dessas regulamentações, faz com que a quantidade de regras já seja o suficiente para preencher umas 170.000 páginas.

Isso aí nem a legislação tributária do Brasil, que aquele advogado lá o Leôncio reuniu num livro que pesava 2 hipopótamos, pois esses dois Behemoth não dão um terço do Leviatã europeu.

Então eu gostaria de finalizar esse troféu bigodagem com uma performance do grande comediante Nigel Farage, dirigindo-se ao então presidente do European Council Herman von Rompuy.

Fale o que quiser do Nigel, mas essa performance foi grande dia. À União Europeia, o troféu bigodagem.

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