As origens da Bucha paulista
A organização surgiu no início da década de 1830 e foi fundada pelo alemão Johann Julius Gottfried Ludwig Frank, mais conhecido como Júlio Frank.
Ele nasceu na cidade de Gotha em 1808 e teve uma infância marcada por abandono e pobreza.
Para sobreviver e garantir seus estudos, Frank contou com a ajuda das confrarias estudantis alemãs, mais conhecidas como Burschenschaften.
Após ser expulso da Universidade de Göttingen, envolvido em dívidas e conflitos, Frank deixou a Alemanha e veio para o Brasil em 1828.
Depois de passar por dificuldades no Rio de Janeiro, foi morar em São Paulo, onde se tornou professor do Curso Anexo da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, um preparatório para entrar na USP.
Foi nesse ambiente que Frank teve a ideia de criar uma associação inspirada nas Burschenschaften alemãs no Brasil.
A proposta era criar uma sociedade secreta para ajudar estudantes pobres, financiar livros, roupas e despesas básicas, e reforçar a função social do advogado.
Em janeiro de 1830, começaram as reuniões informais, seis meses depois a sociedade foi oficialmente fundada.
O primeiro presidente da Bucha foi Diogo Antônio Feijó, que foi regente do Império antes de Dom Pedro II ser coroado.
Rituais, símbolos e hierarquia
Para se tornar um membro da Bucha era necessário ser indicado por outro associado, como é comum na maçonaria.
Os associados precisavam avaliar se o indicado contava com “firmeza de caráter, espírito filantrópico, amor à liberdade e aos estudos”.
A Bucha funcionava sob sigilo absoluto. Seus rituais, símbolos e hierarquia lembravam tanto as confrarias alemãs quanto a Maçonaria.
Durante as reuniões, seus membros costumavam se vestir com mantos e faixas bordadas.
Alguns tinham o desenho de um coração vermelho, representando a caridade, outros uma âncora verde, símbolo da esperança, e alguns possuíam uma cruz azul, que simbolizava a fé.
Seus membros seguiam uma hierarquia rigorosa. Dentro da faculdade, eles se organizavam em três níveis:
- Catecúmenos
- Crentes
- Doze Apóstolos
Além dos muros da academia, o comando era feito pelos Chefes Supremos, que respondiam ao Conselho dos Divinos, instância máxima da organização.
Da filantropia ao poder político
Conforme os estudantes se formaram e assumiram posições importantes dentro da sociedade, a Bucha ganhava mais espaço e influência no Estado brasileiro.
Ex-alunos que integravam a sociedade, ao alcançar cargos públicos favoreceriam outros membros nas escolhas de funções políticas e posições estratégicas.
Durante o Império, a Bucha contou com nomes famosos, como:
- Castro Alves,
- Álvares de Azevedo,
- Barão do Rio Branco e
- Visconde de Ouro Preto.
Quando o país se tornou uma República, a Bucha conseguiu aumentar ainda mais seu poder.
A ordem também teve papel central na criação do Partido Republicano Paulista, um dos mais importantes na República Velha.
Além disso, a ordem influenciou a elaboração do anteprojeto da Constituição de 1890, por meio da chamada Comissão dos Cinco, da qual três membros pertenciam à sociedade.
"Acredita-se que, durante a República Velha, período entre 1889 e 1930, não havia ministro, juiz ou candidato à Presidência da República que fosse indicado sem deliberação do Conselho dos Divinos", disse o historiador Paulo Rezzutti à BBC.
A degeneração da sociedade
Com o tempo, os ideais de filantropia e fraternidade deram lugar a conchavos políticos e cadeias de privilégios.
O jurista Miguel Reale conta em suas memórias que a Bucha perdeu seu caráter filantrópico e se tornou apenas uma rede de privilégios:
“Como toda sociedade secreta, [a Bucha] logo se degenerou em cadeia de privilégios, que começava na faculdade pela seleção dos catedráticos e terminava nos acordos ‘café com leite’ entre ex-alunos de São Paulo e Minas Gerais, sob a batuta do Senador [do Rio Grande do Sul] Pinheiro Machado, também diplomado pelas Arcadas, e que, sutilmente, preferia ser a eminência parda dos eventos republicanos”.
Em 1931, o diplomata José Carlos de Macedo Soares criou a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP.
Ele teria sido o último presidente da Bucha e a associação serviu como uma espécie de sucessor institucional, segundo o historiador Afonso Arinos de Melo e Franco em entrevista para o portal Aventuras na História.
Apesar de não haver mais informações sobre a Bucha após o período, rumores dizem que a organização continuou existindo ao longo das décadas seguintes.