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Atualidades
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A seita dos podcasts

Anos atrás, sem perceber (é sempre sem percebermos) eu entrei numa seita.

Por
Raul Martins
Publicado em
6/1/2026 10:56
99Freelas
Artigo de opinião.

Não, não havia rituais em mansões com todo mundo usando máscaras brancas sinistras e longuíssimas capas de Drácula, à la Kubrick. Não houve sessões mediúnicas nem algum contato com um reptiliano (infelizmente).

Eu não subi ao pico de uma montanha escarpada, completamente apartada da civilização, para aguardar a chegada profetizada duma nave alienígena.

Não comecei a ler os pés de súditos (sim, isso existe) nem cooptar jovens para um guru tarado depois marcá-las como se fossem gado (sim, isso existe).

Mas eu entrei numa seita.

E o pior: sem sair de casa.

Começou com um sofrimento agudo. Não queria fazer aquilo. O ritual doía, mas eu não poderia fugir mais. Era inescapável, tão inexorável quanto o Sol surgir no dia seguinte.

Tudo começou… à pia.

Eu tinha que lavar uma pilha de louças.

À direita, equilibrando-se porcamente à margem das cubas, erguiam-se três ou quatro panelas sujas, ensebadas, maculadas em toda sua aluminosa extensão por uma crosta heterogênea de restos de comida: purê com bagaços retalhados de frango, grãos de arroz espalhados como cadáveres depois duma emboscada na guerra.

Na cuba, uma orgia satânica de copos, facas com requeijão, pratinhos sofrendo sob o peso de pratos gigantescos, subindo tão alto até tocar a ponta da torneira — torres de Babel.

Um vidro aleatório de geleia no topo, pairando sobre aquela desgraça como se fosse o Rei de algum feudo desgraçado pela peste.

Eu iria levar muito, muito tempo naquilo.

Então, sem saber, dei o primeiro passo iniciático e entrei numa seita.

Abri um aplicativo no celular. Digitei algumas palavrinhas mágicas, esotéricas. Conjurei um encanto a partir de uma palavra mágica, cuja primeira e fatídica letra não era outra senão o “P”.

Eu estava no YouTube e abri um podcast. Posicionei o celular deitado num canto da janela, coloquei um fone de ouvido sem fios e pronto.

Eu tinha entrado na seita do podcast.

Na academia, com o peito estufado e os bracinhos trêmulos sob a barra num supino, estava eu ouvindo um podcast.

Na rua, dirigindo porque tinha de pegar as crias na escola e fazer uma viagem de literalmente cinco minutos, estava eu ouvindo um podcast.

Neurociência, biologia comportamental, mercado de ações, liderança, teologia, história… eu era uma MÁQUINA.

Literalmente: acordava, saía da cama e antes de chegar até o banheiro eu já estava com algum vídeo ou podcast ligado.

Bafo de enxofre, ramela no olho, bexiga cheia de urina apertando a barriga estufada — e a voz sonora e máscula de Jocko Willink nos meus ouvidos atordoados, ensinando-me como ser um NAVY SEAL na sua empresa e na vida.

Só que o tempo foi passando e eu me dei conta de um pequeno problema.

Eu não estava me lembrando de porcaria nenhuma de tudo aquilo.

Na época, achei que fosse culpa do “ouvir”. Como seria possível aprender algo mais profundo ouvindo? Impossível! Hoje eu já sei que não.

Foi culpa do próprio formato dos podcasts.

Por que podcasts viciam tanto? Porque são informais. Como se você estivesse participando de uma rodinha de conversa dentro do seu crânio. Não foi à toa que as entrevistas de talk shows sofreram um baque tão violento.

Entrevistas são mais bem organizadas, com pautas estruturadas e um host que precisa ajustar-se às exigências (muitas vezes neuróticas) do canal ou rede de televisão. Plateia, tempo apertado, cenário… o entrevistado não poderia ficar realmente confortável.

E aí surge o podcast. Subitamente, astros de cinema que só davam o ar da graça em entrevistas com 20 minutos, duas vezes por ano, surgiam num podcast de três horas e meia numa quinta-feira aleatória

Sem o glamour dum cenário gigantesco, o apresentador usando uma camiseta qualquer em vez do smoking e mal penteando o cabelo.

A conversa vai e vem com naturalidade. De repente, Matthew McConaughey põe o pé descalço em cima da mesa e Mel Gibson, de olhos injetados e juba grisalha desgrenhada, sobe a voz rouca num alvoroço afobado para dizer que a indústria farmacêutica está escondendo a cura para o câncer.

Mike Tyson comendo cogumelos ao vivo, Elon Musk fumando um baseado. Do nada, Donald Trump num podcast. Lula. Bolsonaro. Mark Zuckerberg. Homens de Estado, líderes de nações, multibilionários.

Se antes era preciso close-ups da cara enorme do Abujamra, com aquele riso de Pinguim do Batman realçado pelas luzes teatrais que lhe encobriam partes estratégicas dos olhos, com aquele vocabulário ora douto e ora hermético, lançando fumos de filosofia profunda à conversa, agora podemos ter a luz fria e direta do PodPah — e a fumacinha preta subindo da cabeça de ambos os apresentadores enquanto os dois juntam todo seu QI para chegar a uma pergunta semiarticulada.

O ponto é: os podcasts exibem uma liberdade quase completa.

Eis toda sua força e seu gigantesco apelo. Eis, também, sua fraqueza fundamental.

Os estudiosos de mídias dizem que o podcast é uma mídia de intimidade. O aprendizado ali é intermediado mais pela personalidade dos falantes e menos pela clareza, organização e profundidade do conteúdo (daí a proliferação ululante de charlatões carismáticos: fala asneiras, mas é engraçado/polêmico/escroto/literal e genuinamente maluco).

Além disso, o que mantém sua atenção é a variação das vozes, as gaguejadas e atos falhos, as frases interrompidas no meio e largadas para trás, a anarquia bêbada dos assuntos — em suma, quanto mais imprevisível e caótico, melhor.

Sem contar, óbvio, toda a edição: músicas, efeitos, múltiplas vozes, cortes e direcionamentos estratégicos. O podcaster fará de tudo para prender sua atenção.

Isso quer dizer que eu nunca aprendi NADA com podcasts? Claro que não.

Mas o que aprendi foram coisas isoladas, pepitas de ouro que calhei de conseguir salvar do rio fragoroso da conversa. Pequenos insights, percepções súbitas a partir de uma intuição ou fatos novos.

Eu percebi que o podcast é ótimo e pode ser extremamente valioso — mas é limitado. Não porque eu o escuto. E sim porque a forma de melhor escutá-lo é com atenção fragmentada, no geral dividida entre várias tarefas.

O podcast é uma espécie de música de elevador para o seu cérebro, que fica tocando no fundo da cabeça de forma semiconsciente e de repente, do absoluto NADA, invade sua atenção e se impõe com alguma informação que preste (ou com algum barraco).

Porém, existe uma outra forma de aprender ouvindo.

Muito mais antiga que o podcast e, sob alguns aspectos, seu inverso. Os audiolivros.

Os audiolivros são, literalmente, livros lidos em voz alta.

Se o podcast ganha pela informalidade, o livro ganha pela qualidade inversa: é formal. E por “formal” quero dizer “tem forma mais bem definida”.

O bom escritor tem todo o tempo do mundo para escrever e revisar seus textos: escolher o vocabulário, resolver contradições, tapar buracos lógicos, criar metáforas e figuras de linguagem. A linguagem falada é dinâmica, rápida, corre e mal volta atrás.

A linguagem falada exige apoio dos gestos, expressões faciais, tons de voz. E por isso pode ser tão caótica. O livro exige o máximo apuro com a linguagem.

Se, no podcast, o ouvinte busca novidade e companhia, no audiolivro ele busca conclusão. Coesão. Lógica. Totalidade.

Se o podcast faz de tudo para prender-lhe a atenção e diminuir seu esforço, o livro exige que você faça esforço.

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