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Burrocracia

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Rasta
5/16/2022
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Filas, regulamentações, burocracia, cartório, certidões, passar na maquininha, tirar sapato no aeroporto.

Os tempos modernos já vêm com cheiro de carimbo e acompanhado de alguma carteirinha ensebada de algum órgão fiscalizador que está aqui para proteger os nossos direitos… por uma módica soma.

No Deixa Rasta de hoje, trataremos deste misto calhorda de boas intenções, doses generosas de bigodagem, muita falcatrua e um tantinho de enrolação: Burrocracia.

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Quem nunca foi pagar uma multa eleitoral? A festa da democracia é assim, é tão boa que tem que pagar para não deixar de perder. Eu, mesmo, pago multa desde 2010, é aquela inconveniência semelhante a tirar ou renovar o passaporte.

Me lembro da primeira vez que eu fui ao tribunal pagar, era uma multa de 2,50. Eu tirei uma nota de cinco reais e a moça que estava me atendendo disse:

  • Atendente: você tem que emitir uma GRU
  • Rasta: é o que?
  • Atendente: sim, uma GRU.

GRU é um daqueles boletos cuja rima sugere o destino dos custos do governo. E a pessoa ainda tem que ir numa casa lotérica ou num Banco do Brasil para pagar.

Veja, o governo não consegue resolver um simples cascalho de 2,50 sem envolver múltiplas viagens à repartição e gerar um custo agregado maior que a multa, agora imagina essa múmia paralítica da perna quebrada resolvendo algo da educação ou da saúde.

Longe de ser um problema exclusivo do Brasil, é muito comum que os grandes governos do mundo criem problemas que não existiriam se eles não estivessem lá para criá-los.

É algo parecido com o casamento, só que sem a consensualidade e a possibilidade de redenção das almas.

Um exemplo clássico disso aconteceu em 1982 nos EUA. O governo americano conseguiu fazer com que a verdadeira Coca-Cola, aquela clássica, do Paul Newman boladão, acabasse de tal maneira que hoje a mais autêntica Coca Cola dos EUA é a mexicana.

O governo americano subsidia o plantio de milho, esse tipo de subsídio não é algo novo. Ele existe pelo menos desde o New Deal em 1933. Em 1972, esses subsídios foram substanciais para um grande acordo de venda de grãos dos EUA para a URSS.

Isso fez com que os fazendeiros continuassem plantando milho a dar de rodo mesmo após a venda. O resultado foi uma superprodução de milho barato nos anos seguintes, era milho que nem Recife conseguiria comer tanto cuscuz.

Entra em cena a figura de um empresário, o falecido Dwayne Andreas, que era chairman da Archer-Daniels-Midland, mega-empresa especialmente interessada no que fazer com tanto milho.

Em 1982, ele aprovou um tarifaço no açúcar. O açúcar era mais barato que o milho, mesmo subsidiado. Não havia competição entre eles.

O resultado da política foi um grande shift na produção de refrigerantes nos EUA, de açúcar para xarope de milho.

Foi assim que o governo americano conseguiu acabar com a Coca-Cola. Meu amigo, quando junta o empresário com o governo é um tal de ninguém solta a carteira de ninguém.

São os famosos lucros privados e prejuízos públicos. Mas vou falar o que? O governo tá certis, rapaz, esse negócio de refrigerante faz mal.

Vale a pena falar um pouquinho sobre Dwayne Andreas, porque ele é a personificação do tal teatro das tesouras.

Em 1972, Andreas foi a fonte dos 25 mil dólares usados pelos ladrões que invadiram o comitê do Partido Democrata, o escândalo que ficou conhecido como Watergate, que deu fim ao Nixon.

Mais tarde também ficou conhecido que o mesmo Dwayne Andreas tinha dado 100,000 dólares ilegalmente para a campanha do democrata Hubert Humphrey, em 1968, quando ele disputou a presidência contra o próprio Richard Nixon.

Dwayne Andreas, estilo little-finger, continuou a doar para Republicanos e Democratas durante muito tempo, é dele a frase: 

"O livre mercado é algo que só existe no discurso dos políticos".

Não tem nada que um empresário trapaceiro com um governo amigo possam fazer, que um governo Comunista não possa fazer muito pior e muito mais letal…

Os amantes do progresso têm aquele entendimento tarado da história de que as coisas vão evoluindo e melhorando e a pilha de cadáveres vai aumentando no tal progresso inexorável da história.

Cirão Serasa vai dizer: "este pensamento já não é moderno", aí vem a novidade… Pois bem, na China foi o tal do grande salto para frente.

Uma das políticas implementadas nesse maravilhoso salto foi a campanha das quatro pragas: Marx, Lenin, Stalin e Mao…

Não, errei, as pragas eram: ratos, mosquitos, moscas e pardais. O governo fez uma campanha massiva para que o povo exterminasse estas quatro pragas, os três primeiros transmitiam doenças e os pardais comiam grãos, cerca de 2 kg por pardal ao ano, dizem especialistas.

Estudiosos afirmavam e projetavam um grande aumento na produção agrícola caso os pardais fossem exterminados. Sim, pardais.

Para não dizer que eu não entendo o ódio aos pardais, meu pai era aqueles socialistas da velha guarda, ele se passava por fiscal do IBAMA e quem passasse pela área com um passarinho em gaiola ele dava uma carteirada que ele não tinha e mandava soltar.

Isso quando ele não dava a carteirada de médico e inventava uma doença que só o passarinho preso em gaiola transmitia, e que gente morria dela achando que era pneumonia.

Meu pai me ensinou a não gostar de pardal, e não foi difícil. Eu cresci num ambiente de mata atlântica, onde tinha muito daquele passarinho, a lavadeira. Ela é um bichinho lindo, fica sozinha, de boa, seu canto é uma semínima, discreta, redondinha, bem espaçada.

Mas tem o maldito pardal. Um pássaro invasivo, territorial, bate em mulher e abusa de crianças, leva violão para as festas e canta Legião Urbana.

Ele era o único passarinho no qual a gente podia atirar. A lavadeira estava ali tranquila, não querendo guerra com ninguém, aí chegava o pardal macho escroto fazendo barulho e um bando de rapariga barraqueira. Era uma barulheira naquele rendezvous, uma piadeira desafinada danada, tipo esses rappers juvenis famosos.

E o pardal espantava as lavadeiras, destruía seus ninhos, parecia um orc voador, ou um nazgul, o famoso rato-de-asa.

Só que eu era apenas um espantando os pardais localmente daquele hectare onde eu estava. Se eu matei mesmo uma meia-dúzia de pardal na minha vida, foi muito.

Agora imagina um monte de chinês comandado por um partido comunista, batendo panela para espantar os bichos, os pardais morriam de exaustão porque não tinha lugar para eles pousarem.

Assim que pousavam já chegava um caboclo lá e “peim peim peim”. Se vocês reclamam de um panelaço num prédio de classe média, imagina uma China rural inteira batendo panela. Deu pena do pardal.

Pois bem, Rastos e Rastas, acontece que até o pardal tem a sua função, ele come outras pestes, como lagartas, gafanhotos e outros tipos de insetos.

O resultado dessa ideia genial foi uma praga de larvas, lagartas e gafanhotos de proporções bíblicas, que associada à devastação do desmatamento e o excesso de pesticidas levaram a China à maior fome de toda a história da humanidade.

Tudo isto consequência de uma péssima política do governo maoísta.

Estamos falando de mais ou menos 30 milhões de mortos. Se a contagem for que nem a dos comunistas, ou seja, bebê na barriga da mãe não conta, o número ainda sobe bastante.

É assim que se conta em Cuba, né? Mortalidade infantil lá embaixo com 70 abortos pra cada 100 nascimentos, a galera combate a mortalidade infantil na raiz, que é a natalidade.

30 milhões de mortos de fome? É porque não aprenderam a fazer jejum, o governo tá certis.

Acontece que as pessoas costumam pensar no governo como um agente mágico que faz coisas, um conjurador de direitos, um manifestador de palavras. O governo vai lá e fala que as pessoas têm direito a flocos crocantes. Daí chove flocos crocantes.

Carlinhos Marcos lá na "ideologia das galega" era assim. Para o Carlinhos:

"Na minha sociedade ninguém vai ter apenas uma esfera exclusiva de atividade, todo mundo pode se realizar fazendo o que quiser, a sociedade é quem regula a produção geral, e aí possibilita que eu faça uma coisa hoje e outra amanhã, caçar pela manhã, pescar à tarde, cuidar do gado à noite e fazer crítica após o jantar sem jamais tomar qualquer um desses ofícios como o meu ofício".

Mas como é que eu vou fazer tudo isso, Carlinhos? É muito simples, meu jovem bourgeois, é só fazer tudo de qualquer jeito e nas coxas.

Tá bem, mas e aí, Carlinhos, quem vai produzir o rifle de caça para eu caçar de manhã, a vara de pescar à tarde, de onde veio esse gado, quem edita a revista na qual eu vou publicar a minha crítica e, acima de tudo, cadê a janta, Carlinhos?

Pois é, meu rasto, existe um trecho da famosa peça "As Tranças do Rei Careca" do dramaturgo grego Aristófanes que pode parecer profético, invejosos dirão que é mentira.

Esta profecia está sendo feita em retrospectiva, seja lá o que você ache, o importante é que ela contém uma verdade milenar, atemporal, sobre a chamada ação governamental, que é a seguinte: a substância da ação de qualquer governo é a força, é a ameaça física. E a substância de qualquer direito além do de ficar quieto e não encher o saco é taxar ou proibir.

Ao taxar e proibir, os homens que compõem um governo criam alguns obstáculos. Às vezes esses obstáculos:

  • previnem a exportação de custos, é o que acontece quando uma lei funciona;
  • às vezes o obstáculo cria uma oportunidade de negócios para algum peixe grande salafrário, é o que a gente chama de reserva de mercado, que é um gerador de corrupção, máfias e conchavos;
  • às vezes o obstáculo destrói a informação necessária para que algum bem essencial para a sobrevivência humana se forme, e aí a gente tem fome, desabastecimento e caos.

O mais impressionante é que nenhum desses obstáculos jamais vêm com um nome feio, ele sempre vem com algum nome bonito, alguma combinação de palavras legais, contra as quais só uma pessoa muito ruim se oporia:

  • Regulamentação da Mídia - essa mídia podre poderia ser um pouco mais regular, gostei;
  • Marco Civil da Internet - é um marco, é civil, é internet, gostei;
  • União Européia - rapaz, várias gatinhas unidas, isso aí dá um filme;
  • Redistribuição de Renda - que maravilha, benefício 300 reais, salário do chefe do ministério 30,000 reais… opa, tem algo errado;
  • Campo de Concentração - nada melhor para me concentrar que ir da cidade para o campo;
  • Código de Proteção ao Consumidor, Direito à Saúde, Direito à Educação, Direito à Cultura.

É cada coisa tão boa que eu mal sinto mais o meu dinheiro no meu bolso, nem a responsabilidade de minhas próprias decisões. Tudo feito com as melhores das intenções, com os fins mais elevados e excelsos.

  • Rasta - Mas e se der errado?
  • Burocrata - Mas como vai dar errado? [diz o burocrata já entrando no carro blindado] olhe, se acontecer qualquer coisa me liga, meu gabinete abre todo dia 32 de oitembro às 27 horas e 63 minutos;
  • Rasta - ah, ok qual é o número?
  • Burocrata - Obrigado.

Então o governo ajudando e protegendo o cidadão termina parecendo aquela cena do chaves em que o professor linguiça está "defendendo" o menino contra as pancadas do Seu Madruga.

Pois é, com uns defensores desse, é fácil entender a máxima: muito ajuda quem não atrapalha.

Sentiram o cheiro? É Bigodagem. É hora do Troféu Bigodagem.

O Troféu Bigodagem de hoje vai para o casal Néstor e Cristina Kirchner, um casal tão bigodeiro que fica até difícil dizer onde termina a cagada de um e começa a do outro.

Já que nenhum dos dois jamais se responsabilizarão por nada nessa vida, fica essa bigodagem compartilhada.

A nação Argentina, grande aos olhos do bom Deus, foi abençoada com vastas extensões de planícies repletas do pasto mais nutritivo deste planeta.

O movimento livre do gado em terrenos que não exigem muito esforço deu origem a uma lendária tradição de qualidade em carne, de fibra avermelhada, gordura levemente amarelada, com grande sabor e personalidade.

A nação Argentina chegou a produzir, em 2005, 3.1 milhões de toneladas de carne, atrás apenas de Brasil e Austrália, que nunca chegaram nem perto da qualidade dessa grande nação. Dessa produção, exportavam 745.000 toneladas.

O povo da nação regozijava com essa benção, consumindo uma média de 62 kg por pessoa ao ano. No mesmo ano, a média americana foi de míseros 42 kg por pessoa. Mas no meio do pasto tinha um Ciro, tinha um Ciro no meio do pasto.

Em março de 2006, preocupado com o preço da carne no mercado interno, o governo Argentino baniu as exportações por 180 dias, seguido de um tarifaço de 15%. Resultado?

Em 7 anos, a nação eleita caiu de 3º para 11º exportador de carne e o consumo interno caiu para 54 kg por pessoa.

Está ruim? Calma que piora.

O rancheiro Argentino, ao deparar-se com essas restrições, foi forçado a fazer contas e chegou à conclusão que era melhor reduzir o espaço de criação e usar parte do campo para plantar soja.

Isso mesmo, soja, aquela planta que libera estrogênio no homem.

Além disso, o gado que antes corria livre, agora termina sendo alimentado em feedlots, gerando uma carne excessivamente flácida, de fibra roxa e gordura pálida.

É macia, é verdade, mas a outra também era, só que agora ela falta sabor e personalidade.

O gaúcho chora no banho, desgostoso. Eita governinho sem vergonhis.

Nunca subestime o “candidato mais bem preparado”, cheio de marra, boas intenções e modelos de gestão. 

Está repreendido, está repreendido e deve deixar a nação.

Assim premiamos o casal Kirchner con el trofeu bigotaje.

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