Entenda a viagem de um homem pelo Inferno ao Paraíso e por que a obra atravessou mais de 700 anos.

No meio do caminho da vida, Dante se vê perdido em uma selva escura. Essa é a imagem que abre A Divina Comédia, obra-prima de Dante Alighieri e uma das maiores obras da literatura ocidental.
Não é apenas o começo de uma viagem pelo além. É o retrato de um homem que perdeu o caminho, não sabe mais como voltar à luz e precisa atravessar a verdade sobre si mesmo para reencontrar a ordem.
A obra foi escrita no início do século XIV e se passa durante a Semana Santa de 1300. Dante é autor, narrador e personagem. Ele participa da própria história como alguém que precisa ser salvo.
Antes de começar a subida, ele tenta escapar da selva por conta própria. Mas três feras bloqueiam seu caminho: uma pantera, um leão e uma loba. São tidas como imagens do pecado, da desordem interior e das forças que impedem o homem de seguir pela via reta.
Então surge o poeta Virgílio.
O autor da Eneida aparece como guia. Ele representa a razão, a grande sabedoria da Antiguidade, capaz de conduzir Dante por uma parte do caminho. Mas não por todo ele.
A Brasil Paralelo está adaptando a obra de Dante Alighieri em um filme. Assista ao trailer abaixo:
À porta do Inferno, Dante e Virgílio encontram a seguinte inscrição:
“Por mim se vai para a cidade da dor;
Por mim se vai para a dor eterna;
Por mim se vai para a raça perdida.
A justiça moveu o meu supremo Criador;
Fui feita pela divina potestade,
Pela suma sabedoria e pelo primeiro amor.
Antes de mim não foram criadas coisas eternas,
Senão eternas, e eu eternamente duro.
Deixai toda a esperança, vós que entrais”.
Dante e Virgílio descem por uma estrutura em forma de cone, dividida em nove círculos. Quanto mais fundo caminham, mais grave é a deformação da alma que encontram.
No início estão os pecados ligados à fraqueza dos desejos. Depois vêm os vícios mais conscientes, mais frios, mais escolhidos. A luxúria aparece como um vento desordenado.
A gula, como degradação. A avareza, como prisão aos bens. A ira, como fúria que afunda o homem no lodo.
O Inferno de Dante não é um amontoado de cenas terríveis. Cada pena revela algo do próprio pecado. A punição mostra, de forma visível, aquilo que a alma escolheu ser.
Dante encontra monstros, demônios e figuras mitológicas, mas também encontra personagens históricos, religiosos e políticos. Muitos viveram perto dele, disputaram poder em sua época ou marcaram sua cidade, Florença.
A viagem ao Inferno também é uma forma de julgamento da história.
Ali aparecem os violentos, os hereges, os fraudulentos e, no fundo de tudo, os traidores. O último círculo não é de fogo, mas de gelo. No centro da Terra, Dante vê Lúcifer preso, imóvel, devorando Judas, Bruto e Cássio.
Depois de ver o ponto mais baixo da criação, Dante e Virgílio passam pelo corpo de Lúcifer e saem do outro lado da Terra. A última imagem do Inferno é uma abertura: eles voltam a ver as estrelas.
A paisagem muda completamente. Já não se trata de uma queda, mas de uma subida. Dante chega a uma ilha e vê uma montanha. Ali estão as almas que se salvaram, mas ainda precisam ser purificadas.
O Purgatório é uma das grandes intuições da obra. No Inferno, as almas estão fixadas no pecado. No Purgatório, estão em movimento. Sofrem, mas sofrem com esperança. A dor sofrida é a cura.
A montanha é organizada em patamares ligados aos sete pecados capitais: orgulho, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria.
A cada etapa, Dante entende melhor que o problema humano não está apenas nas ações exteriores, mas na direção do amor.
O homem se perde quando ama mal: ama o que não deve, ama pouco o que deveria amar muito, ou ama de modo desordenado aquilo que é bom.
Virgílio acompanha Dante todo o tempo. Mas, ao fim do Purgatório, ele precisa desaparecer. A razão pode levar o homem até certo ponto. Pode mostrar a estrutura do pecado, ensinar a virtude, ordenar o pensamento.
Mas não pode abrir sozinha as portas do Paraíso.
Beatriz foi a grande figura feminina da vida e da imaginação de Dante. Na obra, ela não aparece apenas como uma lembrança amorosa. Ela representa uma beleza mais alta, capaz de chamar o homem para Deus.
Quando Dante a encontra, não recebe imediatamente consolo. Recebe repreensão. Beatriz o faz olhar para seus desvios, suas quedas e sua infidelidade ao bem que um dia reconheceu.
Antes de subir, Dante precisa ser purificado nas águas do Letes, que apagam a memória do pecado, e do Eunoé, que fortalece a memória do bem.
Agora a narrativa muda de natureza. Dante sobe pelos céus com Beatriz e encontra almas bem-aventuradas. A cada esfera, uma verdade é revelada: sobre a liberdade, os votos, a justiça, a fama, a contemplação, a fé, a esperança e a caridade.
No céu do Sol, ele encontra Santo Tomás de Aquino. No céu de Marte, encontra Cacciaguida, seu trisavô, que anuncia seu exílio e o exorta a contar fielmente tudo o que viu.
No céu das Estrelas Fixas, é interrogado sobre as virtudes teologais por São Pedro, São Tiago e São João.
Dante sobe, mas não foge da realidade. A política, a Igreja, Florença, o Império, os maus governantes e os falsos pastores continuam presentes.
O Paraíso mostra a medida pela qual a história deve ser julgada.
Na etapa final, Beatriz também se retira. Surge São Bernardo, último guia de Dante. Ele o conduz no Empíreo, onde o poeta contempla a Virgem Maria e, por fim, a visão de Deus.
A obra termina quando Dante vê um foco luminoso desdobrado em três círculos. No centro, percebe o mistério da Encarnação.
Depois de atravessar o Inferno, subir o Purgatório e contemplar o Paraíso, Dante entende que sua vida tem sentido. A selva escura foi superada.
A Divina Comédia é uma obra sobre como o homem se perde, como pode ser purificado e para onde deve dirigir o seu amor.
Por isso ela atravessou os séculos.
Dante escreveu uma espécie de catedral em versos. Cada parte tem seu lugar. Cada imagem aponta para algo maior.
Cada encontro obriga o leitor a perguntar em que ponto da jornada ele próprio está: perdido na selva, descendo ao fundo do erro, subindo com esforço ou aprendendo, enfim, a olhar para a luz.
E essa história não ficou presa aos livros.
A Brasil Paralelo está transformando a primeira parte de A Divina Comédia em uma nova animação original: Inferno, uma adaptação da descida de Dante pelos círculos do submundo.
Mais de 700 anos depois, uma das maiores obras da humanidade será cantada novamente, agora em português.
Assista ao trailer da nova produção da Brasil Paralelo.