Casos de “justiça com as próprias mãos” disparam no Rio de Janeiro.

Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, pegou a bicicleta de sua irmã e saiu de casa em uma tarde normal no Rio de Janeiro.
Ele parou a bicicleta em frente a uma loja. Tudo parecia bem, até que pessoas da região suspeitaram que o veículo havia sido roubado.
Mesmo tentando escapar, Cláudio acabou capturado por populares e virou alvo de um licnchamento.
Segundo a polícia, ele recebeu pelo menos 30 pauladas, além de socos e chutes. O Corpo de Bombeiros levou o ciclista ao Hospital, mas ele não resistiu.
Esse não é um caso isolado, mas parte de um crime que tem se tornado cada vez mais comum.
Apenas no primeiro trimestre de 2026, foram registrados 501 casos classificados oficialmente como "exercício arbitrário das próprias razões", segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP).
O número representa um aumento de cerca de 25,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando foram contabilizadas 399 ocorrências.
Ao longo de 2025, o estado registrou 1.598 ocorrências desse tipo de crime, uma média de 4,3 casos por dia.
No Código Penal, o crime está previsto no artigo 345 e ocorre quando alguém tenta fazer valer um suposto direito por conta própria, em vez de recorrer aos meios previstos pela lei.
Embora muitos associem esse tipo de ocorrência a linchamentos e agressões, a classificação é mais ampla e abrange diferentes situações em que pessoas decidem agir fora dos mecanismos legais.
A escalada desses casos pode ser compreendida a partir das ideias do sociólogo francês Émile Durkheim, um dos fundadores da Sociologia.
Para Durkheim, toda sociedade depende da existência de normas capazes de orientar o comportamento dos indivíduos e de instituições que garantam o cumprimento dessas regras.
A capacidade do Estado de garantir que a vida gire em torno desse conjunto de leis, costumes e valores mantém a ordem social.
Quando essa estrutura deixa de funcionar, instala-se o que o sociólogo chamou de anomia.
Esse é um estado em que as regras perdem sua capacidade de orientar a vida coletiva e cresce a sensação de que a ordem deixou de existir.
No campo da segurança pública, esse fenômeno pode surgir quando parte da população passa a acreditar que o Estado não consegue investigar crimes, punir culpados e proteger inocentes.
Quando isso acontece, surge espaço para respostas de indivíduos àquilo que antes era atribuição exclusiva do Estado.
É nesse contexto que surgem os linchamentos como uma forma de reação paralela ao estado de anomia.
No Rio de Janeiro, a sensação de que o Estado não é capaz de garantir a segurança é completa.
Regiões inteiras estão sob controle de facções, que criam mecanismos como tribunais do crime para resolver problemas sem a presença do Estado.
A Brasil Paralelo investigou como a cidade mais famosa do país foi dominada pelo crime organizado com o documentário Rio de Janeiro: Paraíso em Chamas.
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