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Ex-aliado histórico de Lula acaba com eleições na Nicarágua

Enquanto 55 países condenaram o regime de Ortega na ONU, o Brasil foi um dos únicos a não assinar a declaração.

Por
Gabriel Costa
Publicado em
Daniel Ortega e Lula
Fonte da imagem: Agência Brasil

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Daniel Ortega declarou nesta segunda-feira (20) o fim definitivo das eleições no país que governa com mão de ferro desde 2007.

"Não haverá mais eleições aqui para que eles tentem tomar o governo e o poder", afirmou Ortega, em discurso que elevou ainda mais o tom autoritário de seu regime.

Ortega também classificou partidos de oposição como financiados pelos Estados Unidos e ligados à ditadura que governava o país antes da revolução sandinista, nos anos 1980.

A última vez em que o povo nicaraguense pôde votar foi em 2021, em um pleito marcado pela prisão dos principais opositores de Ortega antes da eleição.

No ano passado, o mandato dele foi estendido para seis anos, após reformas constitucionais que também colocaram sua esposa, Rosario Murillo, como "copresidente" do país.

Proximidade de Ortega com Lula

A declaração chega num momento em que a relação entre Ortega e Lula, antes marcada por décadas de proximidade, já está bastante desgastada.

Os dois se conheceram em 1979, quando Lula ainda era líder sindical, e mantiveram boas relações por anos, sobretudo durante a chamada primeira onda de governos de esquerda na América Latina.

Em 2022, chegou a defendê-lo publicamente, comparando sua permanência no poder à da ex-chanceler alemã Angela Merkel:

"Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não? Qual é a lógica?"

Mas o avanço autoritário de Ortega se tornou um incômodo crescente para Lula.

Mais recentemente, Lula revelou que os dois pararam de se falar depois que o papa Francisco lhe pediu para intervir pela libertação de um bispo preso na Nicarágua. Ortega simplesmente não atendeu ao telefone.

Lula também chegou a questionar se a revolução liderada por Ortega em 1979 "foi porque ele queria o poder ou porque queria melhorar a vida do seu povo", e disse ser a favor da "alternância no poder" em todos os países, por considerar isso "o mais saudável" para uma democracia.

Proximidade do partido de Ortega com o PT

Ortega não é apenas mais um autocrata isolado na região. Seu partido, a Frente Sandinista de Libertação Nacional, integrou historicamente o Foro de São Paulo, articulação que reúne partidos e governos de esquerda da América Latina da qual o PT também fez parte.

Essa proximidade política pode explicar por que o Brasil evitou, até agora, tratar o regime nicaraguense com o mesmo rigor de outros países.

Em 2021, quando Ortega foi reeleito, o PT celebrou mesmo com alertas internacionais sobre fraude.

“Um projeto político que tem como principal objetivo a construção de um país socialmente justo e igualitário”, disse o partido em nota.

A manifestação provocou críticas até entre apoiadores do partido. Dias depois, a nota foi retirada do ar, e Gleisi Hoffmann afirmou que o texto não havia sido submetido à direção nacional da legenda.

Naquele mesmo ano, Lula aconselhou Ortega a não abandonar a democracia e a preservar as liberdades de imprensa e de expressão. 

Na eleição anterior, em 2016, o PT também havia apoiado o ditador da Nicarágua:

“‘Nós, do Partido dos Trabalhadores, acompanhamos com especial atenção os acontecimentos políticos da Nossa América e ficamos extremamente satisfeitos ao saber dessa vitória’, diz o documento assinado pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, e pela secretária de Relações Internacionais, Monica Valente.”, material publicado no site do partido.

Brasil foi contra condenar regime da Nicarágua na ONU

Em março de 2024, 55 países, incluindo Estados Unidos, Alemanha, França, Canadá e Austrália, assinaram uma declaração conjunta no Conselho de Direitos Humanos da ONU condenando crimes contra a humanidade cometidos pelo regime de Ortega.

Segundo peritos da própria ONU, o governo nicaraguense é responsável por violações generalizadas de direitos humanos, incluindo execuções extrajudiciais, detenções arbitrárias, tortura e privação arbitrária de nacionalidade.

O Brasil optou por não assinar essa declaração.

Na ocasião, o governo Lula participou das negociações do texto final e chegou a propor uma versão alternativa, que abriria espaço para diálogo com o governo de Ortega, mas a proposta não foi aceita pelos demais países. 

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Líderes históricos próximos a Daniel Ortega

Ortega mantém, historicamente, relações próximas com líderes autoritários e regimes considerados violadores de direitos humanos.

Fidel Castro foi à posse do governo sandinista em 1970 e permaneceu apoiador de Ortega até sua morte, chegando a defini-lo, em 2014, como alguém que "ocupará um lugar de honra na história dos povos deste continente".

A União Soviética também firmou pacto diplomático com o governo nicaraguense em 1982, mantendo apoio econômico e militar até 1991.

Mais recentemente, o venezuelano Nicolás Maduro defendeu publicamente a reeleição de Ortega em 2021, mesmo pleito que teve seus principais opositores presos antes da votação.

O líder norte-coreano Kim Jong Un também parabenizou Ortega após aquela eleição, assim como o presidente chinês Xi Jinping, que mantém relações diplomáticas ativas com o governo nicaraguense.

A socióloga nicaraguense Elvira Cuadra descreveu, em entrevista ao documentário original da Brasil Paralelo "Nicarágua: Liberdade Exilada", como o governo de Ortega consolidou o controle sobre os meios de comunicação do país.

"Para conseguir o controle desses meios, utilizaram diferentes mecanismos como pressão, chantagem, o uso da publicidade estatal como castigo, extorsão. E isso começou a gerar nos meios nicaraguenses um processo muito rápido de autocensura".

O documentário ficará disponível no canal da Brasil Paralelo.

Assista gratuitamente hoje no canal da BP.

Assista ao trailer abaixo:

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