Enquanto 55 países condenaram o regime de Ortega na ONU, o Brasil foi um dos únicos a não assinar a declaração.

Daniel Ortega declarou nesta segunda-feira (20) o fim definitivo das eleições no país que governa com mão de ferro desde 2007.
"Não haverá mais eleições aqui para que eles tentem tomar o governo e o poder", afirmou Ortega, em discurso que elevou ainda mais o tom autoritário de seu regime.
Ortega também classificou partidos de oposição como financiados pelos Estados Unidos e ligados à ditadura que governava o país antes da revolução sandinista, nos anos 1980.
A última vez em que o povo nicaraguense pôde votar foi em 2021, em um pleito marcado pela prisão dos principais opositores de Ortega antes da eleição.
No ano passado, o mandato dele foi estendido para seis anos, após reformas constitucionais que também colocaram sua esposa, Rosario Murillo, como "copresidente" do país.
A declaração chega num momento em que a relação entre Ortega e Lula, antes marcada por décadas de proximidade, já está bastante desgastada.
Os dois se conheceram em 1979, quando Lula ainda era líder sindical, e mantiveram boas relações por anos, sobretudo durante a chamada primeira onda de governos de esquerda na América Latina.
Em 2022, chegou a defendê-lo publicamente, comparando sua permanência no poder à da ex-chanceler alemã Angela Merkel:
"Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não? Qual é a lógica?"
Mas o avanço autoritário de Ortega se tornou um incômodo crescente para Lula.
Mais recentemente, Lula revelou que os dois pararam de se falar depois que o papa Francisco lhe pediu para intervir pela libertação de um bispo preso na Nicarágua. Ortega simplesmente não atendeu ao telefone.
Lula também chegou a questionar se a revolução liderada por Ortega em 1979 "foi porque ele queria o poder ou porque queria melhorar a vida do seu povo", e disse ser a favor da "alternância no poder" em todos os países, por considerar isso "o mais saudável" para uma democracia.
Ortega não é apenas mais um autocrata isolado na região. Seu partido, a Frente Sandinista de Libertação Nacional, integrou historicamente o Foro de São Paulo, articulação que reúne partidos e governos de esquerda da América Latina da qual o PT também fez parte.
Essa proximidade política pode explicar por que o Brasil evitou, até agora, tratar o regime nicaraguense com o mesmo rigor de outros países.
Em 2021, quando Ortega foi reeleito, o PT celebrou mesmo com alertas internacionais sobre fraude.
“Um projeto político que tem como principal objetivo a construção de um país socialmente justo e igualitário”, disse o partido em nota.
A manifestação provocou críticas até entre apoiadores do partido. Dias depois, a nota foi retirada do ar, e Gleisi Hoffmann afirmou que o texto não havia sido submetido à direção nacional da legenda.
Naquele mesmo ano, Lula aconselhou Ortega a não abandonar a democracia e a preservar as liberdades de imprensa e de expressão.
Na eleição anterior, em 2016, o PT também havia apoiado o ditador da Nicarágua:
“‘Nós, do Partido dos Trabalhadores, acompanhamos com especial atenção os acontecimentos políticos da Nossa América e ficamos extremamente satisfeitos ao saber dessa vitória’, diz o documento assinado pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, e pela secretária de Relações Internacionais, Monica Valente.”, material publicado no site do partido.
Em março de 2024, 55 países, incluindo Estados Unidos, Alemanha, França, Canadá e Austrália, assinaram uma declaração conjunta no Conselho de Direitos Humanos da ONU condenando crimes contra a humanidade cometidos pelo regime de Ortega.
Segundo peritos da própria ONU, o governo nicaraguense é responsável por violações generalizadas de direitos humanos, incluindo execuções extrajudiciais, detenções arbitrárias, tortura e privação arbitrária de nacionalidade.
O Brasil optou por não assinar essa declaração.
Na ocasião, o governo Lula participou das negociações do texto final e chegou a propor uma versão alternativa, que abriria espaço para diálogo com o governo de Ortega, mas a proposta não foi aceita pelos demais países.
Ortega mantém, historicamente, relações próximas com líderes autoritários e regimes considerados violadores de direitos humanos.
Fidel Castro foi à posse do governo sandinista em 1970 e permaneceu apoiador de Ortega até sua morte, chegando a defini-lo, em 2014, como alguém que "ocupará um lugar de honra na história dos povos deste continente".
A União Soviética também firmou pacto diplomático com o governo nicaraguense em 1982, mantendo apoio econômico e militar até 1991.
Mais recentemente, o venezuelano Nicolás Maduro defendeu publicamente a reeleição de Ortega em 2021, mesmo pleito que teve seus principais opositores presos antes da votação.
O líder norte-coreano Kim Jong Un também parabenizou Ortega após aquela eleição, assim como o presidente chinês Xi Jinping, que mantém relações diplomáticas ativas com o governo nicaraguense.
A socióloga nicaraguense Elvira Cuadra descreveu, em entrevista ao documentário original da Brasil Paralelo "Nicarágua: Liberdade Exilada", como o governo de Ortega consolidou o controle sobre os meios de comunicação do país.
"Para conseguir o controle desses meios, utilizaram diferentes mecanismos como pressão, chantagem, o uso da publicidade estatal como castigo, extorsão. E isso começou a gerar nos meios nicaraguenses um processo muito rápido de autocensura".
O documentário ficará disponível no canal da Brasil Paralelo.
Assista gratuitamente hoje no canal da BP.
Assista ao trailer abaixo: