Quem foi Sócrates? Vida, obra e filosofia do andarilho de Atenas

Redação Brasil Paralelo
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Quem foi Sócrates? Neste artigo explicamos a vida e as ideias do filósofo ateniense fundador de uma tradição que permanece viva até os dias de hoje. Seu método e seu exemplo inspiraram gerações.

Sócrates era também uma figura misteriosa. Um andarilho simples que conversava com as pessoas em busca um conhecimento solidamente embasado na verdade.

Falaremos de suas principais ideias, biografia, estilo e método.

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O que você vai encontrar neste artigo?

  1. Em que contexto Sócrates está inserido?
  2. Biografia de Sócrates – Vida e obra;
  3. A maiêutica socrática;
  4. Sócrates realmente existiu?
  5. Missão;
  6. Resumo da filosofia socrática;
  7. Principais ideias de Sócrates;
  8. Apologia de Sócrates e sua condenação à morte;
  9. Principais frases de Sócrates;
  10. Influência de Sócrates na Filosofia ocidental;
  11. Diálogos;
  12. O legado de Sócrates.

Em que contexto Sócrates está inserido?

Acropole-de-Atenas

No Período Clássico, o auge da civilização grega.

Nessa época, a filosofia era feita em praça pública, de forma clara e aberta. Tinha um elemento democrático, era para quem podia e queria entender, participando do questionamento e usando a razão, sem segredos ou provas iniciáticas.

Em Atenas, após a vitória contra os persas, viu-se a grandiosidade. Ali estava o coração da civilização e os atenienses viam-se como os mais cultos do mundo.

Sócrates vivia em um cenário de soberba, de autoestima elevada. Na cidade de Atenas, muitas pessoas consideravam-se sábias no ofício que exerciam. Sócrates questionava essas pessoas e normalmente chegava a um ponto em que elas não conseguiam mais responder.

Ele viveu a filosofia que ensinava aos outros. Sua história de vida é a história do seu pensamento.

Biografia de Sócrates – Vida e Obra

Rosto-de-Socrates

Sócrates viveu no Período Clássico, no auge da civilização grega. Foi mestre de vários alunos, dos quais Platão foi o mais destacado. Além de ser conhecido por sua filosofia e seus diálogos filosóficos, seu método lhe rendeu muito destaque.

Estima-se que ele tenha nascido em 470 a.C. na cidade de Alópece, em Atenas, Grécia. Como já vimos, tratava-se da melhor fase da civilização grega. Ele foi condenado à morte por razões que ainda veremos e por isso sua sentença foi de morrer envenenado. Isto deu-se em 399 a.C.

Seus pais eram Sophroniscus e Phaenarete. Seu pai era escultor e sua mãe parteira. Durante sua juventude trabalhou no mesmo ofício de artesão que seu pai.

Em sua educação, também contou com os ensinamentos de Anaxágoras, outro grande filósofo. Apesar disso, Anaxágoras é conhecido hoje como um dos filósofos pré-socráticos, ou seja, aqueles que vieram antes de Sócrates.

Os filósofos pré-socráticos não são chamados assim apenas porque vieram antes de Sócrates. Outra característica que os agrupa é o fato de suas filosofias terem se voltado mais para a natureza, para a origem do mundo e para as coisas físicas. Aqui já notamos uma diferença na filosofia socrática.

Sócrates se dedicou mais a uma filosofia que buscava a essência das coisas, da natureza, do ser humano, da alma, etc. Exemplos de perguntas comuns foram:

  • O que é a verdade?
  • O que é o bem?
  • O que é a justiça?
  • O que é o amor?

Esta busca teve origem no entendimento de que a verdadeira descoberta estava no interior do homem. Ele queria encontrar os conceitos, isto é, as definições das coisas, mais do que com a origem do universo.

Para entender quem foi Sócrates, é preciso também saber que ele era um cidadão ativo em uma Atenas que passou por diversas mudanças nos modelos políticos. Passou por uma tirania com Basileu, um modelo de democracia com Sólon, e outro modelo de democracia com Clístenes.

Estas foram mudanças constantes do modelo democrático ateniense, e Sócrates havia ingressado em um momento de rotatividade de cargos entre os cidadãos.

Vale mencionar que em Atenas, os cidadãos eram homens maiores de 18 anos, filhos de pai e mãe atenienses. Além disso, era necessário possuir alguma propriedade.

Sócrates era chamado para eventos públicos, como assembleias, por exemplo. Integrou o conselho legislativo de Atenas entre 406 e 405 a.C. Em uma de suas participações, identificou um projeto corrupto arquitetado pela dinastia dos Trinta Tiranos, tentou denunciar o desvio de fundos e quase foi morto por isso.

A única vez que deixou Atenas foi pra lutar em sua defesa, pois serviu como militar nas Guerras Pérsicas e na Guerra do Peloponeso.

O herói mais premiado de Atenas, Alcibíades, elogiou Sócrates como melhor do que ele, narrando como ele o havia salvado várias vezes.

Sócrates demonstrava ser um homem sábio e inteligente. No entanto, dedicou-se à Filosofia e ao ensino quando já era mais velho, aposentado. Estudando quem foi Sócrates, percebemos também uma figura enigmática, afinal ele é retratado como um mendigo que andava maltrapilho e sujo pela pólis (cidade grega).

Em sua caracterização mais comum, ele é descrito como uma pessoa baixa e corpulenta. O próprio Platão afirmou que seu mestre não era belo.

Ele não deixou um legado filosófico escrito, não há obras literárias assinadas por ele. Toda sua filosofia foi feita em conversas com diferentes pessoas pelas ruas de Atenas. Os registros que se tem são de seus alunos.

Sócrates não era solteiro, era casado com Xantipa, com quem teve três filhos: Lamprocles, Sophroniscus e Menexenus.

Não sendo bem visto pela aristocracia grega, foi levado a julgamento em praça pública e condenado à morte. Ainda veremos as razões e como foi sua defesa, mas primeiro vamos apresentar seu famoso método, que não deixou de existir mesmo no presente.

A maiêutica socrática

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Para responder quem era Sócrates é imprescindível compreender seu método, pois isso o define. Afinal, ele era o andarilho que questionava a todos na cidade.

Tão importante quanto o conteúdo da filosofia de Sócrates é seu método pautado no diálogo. Ele servia-se do debate, pois acreditava que com o questionamento seria possível conhecer mais sobre si mesmo e sobre o mundo ao nosso redor.

Chamamos de dialética esta troca de ideias que acontece em um diálogo. Assim, a condução do aluno ao conhecimento se dá através de perguntas e não de uma exposição direta.

Com perguntas e respostas, as contradições são melhor evitadas ou percebidas. Este método foi dividido em duas partes:

IRONIA ou REFUTAÇÃO

São as perguntas que preparam o diálogo para a descoberta de que não se sabe o que se pensa. Sócrates conversava com pessoas que diziam saber sobre determinado assunto ou serviço, mas que não sabiam. Era preciso ironia para que eles percebessem que não sabiam.

A ele é atribuída esta figura de linguagem. O interlocutor é questionado com perguntas até que surja uma contradição que invalide sua posição inicial.

MAIÊUTICA (Arte de parturejar)

Nesta etapa, as perguntas estavam mais voltadas para a construção do saber do que para a percepção da própria ignorância. Com o diálogo acontecendo, poderia chegar-se a uma definição ou conceito e o resultado seria uma ideia nova.

Neste aspecto, vemos uma referência a sua mãe, que era parteira. Sócrates considerava-se um parteiro de ideias. Por isso, a maiêutica foi também considerada a técnica de trazer à luz.

Porém, algo que permanece obscuro para alguns, envolve a real existência de Sócrates. Poderia ele ter sido apenas um personagem literário?

Sócrates realmente existiu?

Como ele não deixou nada escrito e era conhecido principalmente pelos 35 Diálogos de Platão, poderíamos pensar na possibilidade de que ele era apenas um personagem.

Contudo, não foi apenas Platão que escreveu sobre sua vida. Outro aluno de Sócrates também escreveu: Xenofontes. Por último, Aristóteles também menciona Sócrates.

Assim, aumenta a fonte que serve de registro para atestar que ele era real e vivia em Atenas.

Cresce mais ainda com Aristófanes, que escrevia comédias para o teatro. Neste caso, ele escreveu sobre Sócrates para zombar dele.

Com esta múltipla atestação, ao pensar quem foi Sócrates, é seguro acreditar que ele existiu de fato, que realmente filosofou em Atenas. Contudo, não é incorreto pensar em um Sócrates platônico, pintado pelos olhos do discípulo e por sua intenção filosófica e literária.

Tanto Platão como Aristófanes escreveram sobre o momento mais decisivo da vida de Sócrates: seu julgamento e sua defesa.

A obra de ambos se chama “Apologia de Sócrates”. Outra que é muito importante para compreender quais são as principais ideias de Sócrates é “O Banquete”.

Nos diálogos platônicos em que seu mestre é o principal interlocutor, conversando com pessoas da pólis sobre diferentes temas, notamos que os mais recorrentes eram sobre a essência das coisas: ser, ética, política e moral.

Em todos os diálogos Platônicos, Sócrates é constante em sua missão, não importando o tema. Como resumir o principal núcleo de sua intenção?

Missão

O questionador de Atenas queria mais do que simplesmente mostrar as contradições dos supostos sábios. Sua intenção era ser mais do que um mestre que apenas passa um conteúdo. Ele queria ser um benfeitor, levar as pessoas a viver uma vida virtuosa, como ainda veremos.

Ele entendia que o bem, a virtude e o conhecimento andam juntos, enquanto a maldade está aliada à ignorância. Uma de suas frases mais conhecidas é:

“Ninguém faz o mal voluntariamente”.

Ele acreditava que ao tirar as pessoas da ignorância, elas não fariam o mal, porque conheceriam o bem. Assim, ele ensinava e fazia mais perguntas do que as respondia, conduzindo os jovens ao conhecimento.

Sócrates queria mais do que compartilhar, não apenas trocar ideias. Queria descobrir algo novo no diálogo. Curioso foi o fato que o despertou para isso: um oráculo.

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O Oráculo de Delfos

A missão filosófica de Sócrates estava ligada à Pítia, sacerdotisa do Templo de Apolo em Delfos, porta-voz da divindade, que disse que ele era o homem mais sábio que existia. Nem mesmo se podia dizer que não acreditava, afinal era dito pelo Oráculo.

Mas o próprio Sócrates tinha certeza de que não sabia. Assim sendo, procurou conversar com aqueles que eram considerados os melhores naquilo que faziam, para descobrir onde estava sua sabedoria.

Mas o cenário em Atenas era de soberba, de muito orgulho. Um questionador que desconcertava aqueles que se pensavam grandes não era bem visto.

Ele foi a debates e questionou pessoas representando publicamente suas ideias. Uma vez estabelecido o diálogo, ele fazia perguntas pelas origens, princípios, conceitos, definições. No final, o suposto especialista já não sabia responder e precisava retirar-se da presença de Sócrates para não sentir-se mais humilhado diante de sua ignorância.

Mesmo dizendo que não sabia, podemos aprender muitas coisas com ele.

Resumo da filosofia de Sócrates

Como já focamos em quem foi Sócrates, falaremos agora com mais ênfase sobre sua filosofia. Mencionamos que seus antecessores, hoje chamados de pré-socráticos, preocupavam-se mais com a origem do universo e com o elemento principal presente em todas as coisas.

Diferentemente, Sócrates se perguntava sobre a essência das coisas, sobre a consciência humana, sobre a ética e sobre a moral. Além disso, usava de seu método dialético e combatia os chamados sofistas.

Ele se perguntava, por exemplo:

  • “O que é a essência do homem?”
  • “O que é a sua alma?”
  • “O que é a beleza?”

Principais ideias de Sócrates

No Templo de Apolo, em Delfos, havia a seguinte inscrição:

“Conhece-te a ti mesmo”.

Vemos nisto o núcleo da filosofia socrática. Antes de buscar conhecer as coisas exteriores, o homem precisa conhecer a si mesmo, autoanalisar-se e reconhecer sua ignorância.

Neste pequeno resumo da filosofia socrática, é preciso assinalar que não é uma tarefa simples ou rápida separar o que é uma ideia de Sócrates de uma ideia de Platão. Foi este último que escreveu as falas de seu mestre.

Mesmo assim, alguns temas estão mais presentes nos Diálogos Platônicos com Sócrates na condição de principal mediador:

  • A imortalidade da alma;
  • A busca da virtude como mais valiosa do que a busca por dinheiro;
  • O problema dos sofistas;
  • O papel do filósofo na democracia;
  • A ética do senso comum.

A imortalidade da alma

Foi Sócrates quem definiu o homem como um animal racional e como um animal político. Seu pensamento sobre a alma iniciou o período antropológico da Filosofia.

Refletindo sobre os tipos de pensamento, Sócrates percebeu que alguns pensamentos só poderiam existir se a alma fosse imortal e que não fazia sentido que a alma humana fosse finita.

Ele chamou este tipo de pensamento de universal. Aqui enfatizamos este aspecto de sua filosofia, mas para explicar o que é um pensamento universal, precisaremos de um outro artigo, dedicado apenas a isto.

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A vivência das virtudes para Sócrates

Sócrates tomou veneno para não deixar Atenas como exilado, preferiu morrer a negar o que fazia e ensinava. Para ele, a vivência das virtudes impede que uma alma se corrompa.

Vimos que ele acreditava na imortalidade da alma. Este pensamento está diretamente ligado à ideia de uma vida virtuosa; afinal, as virtudes permanecem na alma após a morte e são mais importantes do que o conforto do corpo.

A realidade do mundo passa, mas a verdade, o amor, a honra, e todas as virtudes não passam.

Ele também sustentava que a ignorância era a fonte do erro, do mal. Muitos agiam de forma errada por ignorarem o que é o bem.

Sócrates contra os sofistas

Você se lembra de quem eram os sofistas?

Duas razões principais levaram Sócrates a detestá-los.

Primeiro, eles cobravam para ensinar e Sócrates reprovava isso, porque ele ensinava gratuitamente. Dois dos principais oponentes de Sócrates eram Protágoras e Górgias, que prestavam seus serviços aos jovens atenienses.

Segundo, eles não se preocupavam com o ensino da verdade. Ensinavam o uso da retórica para defender qualquer tipo de posição. Seus discursos poderiam argumentar em defesa de qualquer opinião, sem o compromisso com as virtudes. Parte do ofício sofista era ensinar o uso da retórica nas assembleias a fim de obter vantagens.

Por mais esta razão, Sócrates os combatia, porque ensinava que pelo conhecimento se alcança o que é bom e justo. Defender opiniões não verdadeiras usando a retórica com a finalidade de simplesmente ganhar o debate, não se alinha com a vida virtuosa.

O papel do filósofo na democracia

Esta foi uma das ideias de Sócrates que Platão melhor adotou e nós a vemos principalmente em seu livro “A República”.

Para eles, uma vez que o filósofo dedica-se à verdade e tem uma vida virtuosa, é de se esperar que ele governe melhor, pois é mais sábio.

Claro, ele sempre defendeu a democracia. Todos os cidadãos virtuosos poderiam participar das assembleias, segundo ele. Mas o filósofo era o mais indicado para a função de governante, pois saberia o que é melhor depois uma vida inteira de reflexões em busca do bem.

A ética e o senso comum

Para Sócrates, todos os homens são capazes de olhar para sua própria consciência e perceber como é correto agir. Não é o saber muito que faz alguém ser honesto.

Uma vez que a vida intelectual está ligada às virtudes como a humildade, a honestidade e a honradez, até mesmo o homem comum consegue alcançar o entendimento que conduz ao bem.

Pensando sobre a justiça, por exemplo, ele ensinou que é preferível sofrer uma injustiça do que praticá-la e que nunca deve-se usar do mal para responder ao mal. A retribuição deve ser sempre com o bem.

Defendeu também a unidade das virtudes e que ela é um conhecimento. Fez isso até o fim dos seus dias.

Apologia de Sócrates e sua condenação à morte

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Sócrates tinha 71 anos de idade quando foi sentenciado a beber o veneno chamado cicuta. Isto aconteceu no Tribunal de Heliastas, onde foi julgado, não por um juiz, como fazemos hoje, mas por todos na assembleia, que contava com 500 homens.

Uma das penas era o exílio. Se aceitasse, sairia e nunca mais retornaria à Atenas, mas você já percebeu quem era Sócrates. Ele quis ir até o fim e não deixou sua cidade, preferindo a morte ao exílio.

Mas por que Sócrates foi condenado?

Ele foi denunciado pelos seguintes crimes:

  1. Corrupção da juventude;
  2. Ateísmo;
  3. Introdução de novos deuses;
  4. Subversão da ordem social.

Corrupção da juventude

A acusação consistia em dizer que Sócrates ensinava os jovens a serem desrespeitosos. Por que isso aconteceu?

Quando ele estava debatendo em praça pública, conseguia levar alguém que dizia saber muito a reconhecer que não sabia realmente. Fazia isso com os jovens assistindo. Com o decorrer do tempo, começaram a acompanhá-lo para ver quem seria o próximo.

Mais do que isso, estes jovens começaram a imitar Sócrates e as pessoas não conseguiam conceituar, definir.

Em resumo, podia-se ver um velho cercado de jovens “humilhando” pessoas bem posicionadas na sociedade ateniense. Por esta razão, ele foi acusado e denunciado judicialmente por corromper a juventude.

Ateísmo

Como ele questionava a teologia e a religião foi denunciado por ateísmo. Foi também acusado de negar as antigas divindades e de duvidar do Oráculo. Um exemplo disso ficará mais claro em um comentário a um diálogo de Sócrates no final deste artigo.

Introdução de novos deuses

Sócrates foi culpado de introduzir novos deuses em Atenas. De onde surgiu esta acusação?

Ele falava dos daemons (a tradução não é demônio), ou seja, dos deuses menores que participam da vida das pessoas. Daemon é um tipo de divindade abaixo da hierarquia do Olimpo.

Ele dizia que era impelido pelo daemon a questionar, a buscar pelo conhecimento. A menção a este daemon foi mal interpretada.

Subversão da ordem social

Por que um filósofo como ele que questionava em busca da verdade foi acusado de subverter a ordem?

Atenas vivia um problema político grave e qualquer pessoa que não fosse religiosamente ateniense poderia ser considerada traidora e sofrer processo.

Sócrates foi considerado antipatriota porque fazia questionamentos sobre a política, sobre as melhores formas de condução, sobre a justiça e isto foi interpretado como traição. Além do mais, ele abordava outros assuntos em um ambiente de guerra contra Esparta, onde apenas se falava de política.

Parecia um espião atormentando para atrapalhar as preparações militares.

A morte de Sócrates

Quando foi perguntado sobre qual deveria ser sua punição, respondeu:

“Pelo que fiz por vós e pela vossa cidade, mereço ser sustentado até o fim de minha vida a expensas públicas”.

Disse ainda que se fosse pedir algo, pediria que interrogassem seus filhos como ele os interrogou. Não queria que parassem o que fazia.

O julgamento deu-se em duas partes e os acusadores foram Ânito, Meleto e Lícon. Nas palavra de Meleto, temos um resumo da acusação:

“Sócrates é culpado do crime de não reconhecer os deuses reconhecidos pelo Estado e de introduzir divindades novas; ele é ainda culpado de corromper a juventude. Castigo pedido: a morte”.

Na primeira votação foram 280 votos a favor da condenação. Sócrates propôs que a pena alternativa fosse o pagamento de uma multa. Ela foi amplamente recusada e os novos votos a favor da condenação somaram 360.

Foi condenado à morte livre dos atenienses: o cidadão bebe um copo de veneno, ninguém o mata. Após a condenação, disse:

“Cidadãos! Tanto aqueles que dentre vós induzistes as testemunhas a perjurarem, levantando falso testemunho contra mim, quanto os que vos deixastes subornar, deveis, de força, sentir-vos culpados de grande impiedade e injustiça. Mas eu, por que haveria de crer-me empequenecido se nada se comprovou do que me acoimam? Jamais ofereci sacrifícios a outras divindades. […] Quanto aos jovens, seria corrompê-los, habituá-los à paciência e à frugalidade? Atos contra os quais a lei pronuncia a morte, como a profanação dos templos, o roubo com efração, a venda de homens livres, a traição à pátria, meus próprios acusadores não ousam dizer que os haja cometido. Surpreso, pois, pergunto a mim mesmo qual o crime por que me condenais à morte. […] Estou certo que tanto quanto o passado, me renderá o porvir o testemunho de que nunca fiz mal a ninguém, jamais tornei ninguém mais vicioso, mas servia os que comigo privavam ensinando-lhes sem retribuição tudo o que podia de bem”.

Mesmo condenado, não bebeu o veneno imediatamente. Ficou preso por 30 dias em uma cela funerária, antes de lhe derem a taça. Ao sentir que o corpo começava a perder o calor da vida, disse aos amigos e familiares presentes:

“Se, de fato, é como um sono, a morte seria um maravilhoso presente. Por quanto todo tempo se resume a uma única noite. Se, ao contrário, a morte é uma passagem deste para outro lugar, e que lá se encontram todos os mortos, qual o bem que poderia existir, ó juízes, maior do que este? Mas, já é hora de irmos. Eu para a morte, e vós para vivê-las. Quem vai para a melhor sorte? Isso é segredo, Exceto para Deus”.

Sócrates é um dos maiores nomes da Filosofia grega. Além dele, temos o curso Titãs da Civilização Ocidental, com o professor de história e filosofia, Rafael Nogueira. Atualmente, é o presidente da Biblioteca Nacional e um dos professores do Núcleo de Formação da Brasil Paralelo.

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Principais frases de Sócrates

Há uma frase imediatamente relacionada a ele e muitas pessoas a repetem sem mesmo saber quem foi Sócrates:

“Só sei que nada sei”.

Ou ainda:

“Todo o meu saber consiste em saber que nada sei”.

É o mesmo que dizer “sei que não sei isso.” Saber que não sabe é um tipo de saber, que os outros não tinham, mas Sócrates o tinha. Era isso que o tornava mais sábio, ele conhecia o limite de sua ignorância.

Este é um aprendizado moral. A honestidade intelectual consiste em não dizer que não sabe o que sabe e dizer que sabe o que sabe.

Sócrates agia com sinceridade, tinha a noção de que não sabia tudo e que, daquilo que sabia, não sabia tudo o que tinha para conhecer. Logo, tinha a consciência de que poderia aprender coisas novas e melhorar seu conhecimento das coisas das quais já tinha aprendido um pouco.

Outra de suas frases que colabora com esse entendimento é:

“O início da sabedoria é a própria ignorância”.

Isto era alcançado através de seu método de perguntas e respostas. Quem pensa que sabe buscará conhecimento? Naturalmente não. Somente depois de descobrir que não sabe, ou seja, tomar consciência da própria ignorância, é que se avança na direção do saber.

Não saber algo não é negativo, é positivo. É preciso isso para avançar em direção a um conhecimento seguro.

Outras variações:

“Há sabedoria em não crer saber aquilo que tu não sabes”.

e

“A verdade não está com os homens, mas entre os homens”.

Ao dizer que a verdade não está com uma pessoa, isso significa que a opinião não é mais importante do que a verdade. É diferente opinar sobre algo e tentar encontrar a verdade, mesmo que seja necessário mudar de opinião.

“A verdade já está no próprio homem, mas ele não pode atingi-la, porque não só está envolto em falsas ideias, em preconceitos, como está desprovido de métodos adequados”.

O impacto que ele causou atravessou os limites da pequena cidade de Atenas, alcançando o mundo e o futuro.

A influência de Sócrates na Filosofia ocidental

Quando pensamos em quem foi Sócrates, pensamos também em dois outros nomes: Platão e Aristóteles. Este último foi muitíssimo aproveitado no cristianismo por São Tomás de Aquino, principalmente.

Santo Agostinho, por outro lado, enfatiza mais as ideias de Platão.

De qualquer forma, o que notamos é que os grandes filósofos que beberam da inspiração socrática são dois dos maiores representantes do resgate da Filosofia grega no cristianismo. Ainda comentando sobre a posição de Santo Agostinho, ele também defendia que a verdade não contradiz a verdade.

Logo, mesmo descobrindo algo pela razão e não pela fé, o que foi descoberto não irá contrariar uma verdade revelada.

O modo de vida simples de Sócrates, sua honestidade intelectual, humildade, disposição à morte em defesa da verdade, tudo isso foi resgatado de sua filosofia nos textos cristãos.

Diálogos

Os Diálogos de Platão são as principais fontes para conhecermos quem foi Sócrates, o filósofo. Há 35 Diálogos nos quais Sócrates usa o jogo dialético com diferentes interlocutores.

No diálogo de Mênon, Platão evidencia a aplicação da maiêutica. Nele, um escravo ignorante é levado a entender o que são teoremas geométricos.

Hípias

Outro exemplo de diálogo é o de Hípias maior. Hípias era reconhecido pelos mais belos discursos, o homem que fez um espartano chorar.

Sócrates conversou com ele e o elogiou. Pediu ainda que ele respondesse algumas perguntas feitas por um “amigo”, talvez seu daemon. Com a permissão de Hípias, feliz com o apreciador interessado, questionou:

  • Qual é o segredo para fazer belos discursos?
  • O que funciona para todo discurso, o que em todos eles os faz belos?
  • O que é a beleza para que eu a identifique?

Hípias não deu conta de responder o que é a beleza em si, apenas deu exemplos e se esquivou das perguntas. Termina tendo que deixar Sócrates e vai embora.

Você percebe, neste caso, o que aconteceu? Aquele que fazia os mais belos discursos e se orgulhava disso, foi levado a perceber que não sabia, que precisava aprender mais.

Eutífron

Há também um exemplo de questionamento religioso que Sócrates fez no diálogo de Eutífron.

Note que os nomes dos diálogos costumam ser os nomes dos interlocutores. Esse era o maior teólogo, o maior conhecedor do mito da época.

A caminho do fórum, Sócrates encontra Eutífron que estava indo denunciar o pai por ter matado um escravo. A interrogação foi a seguinte:

  • Será que devemos denunciar o próprio pai mesmo nestas circunstâncias? Qual é a razão religiosa?

Durante a conversa, chegaram ao seguinte impasse:

  • Você é bom porque os deuses dizem ou os deuses dizem o que é bom justamente porque é bom? Alguém pode reconhecer racionalmente o que é o bem sem que algum deus o diga?

Mais uma pergunta sem resposta, mais uma limitação reconhecida. Você percebe neste exemplo específico de onde tiraram motivos para acusar Sócrates de ateísmo?

Críton

Em Críton, de forma belíssima, vemos Sócrates consolando seu aluno que queria livrá-lo da morte. Este diálogo se dá com o mestre na prisão, recebendo seu discípulo.

Críton era rico e o pressionava a fugir, porque estava tudo pronto.

Mas Sócrates pensou: “Será justo fugir?”

Críton justifica dizendo que é seu aluno, tem dinheiro, propriedade, que a condenação é injusta e que está tudo planejado. Sócrates lhe pede que se converse com as leis, como se elas pudessem perguntar.

A lei interroga: “— Críton, você construiu seu patrimônio seguindo as leis de organização social, correto? Ele confirma.

—  E Sócrates, não foi criado em Atenas e só é assim por causa da criação ateniense? Ele nunca quis ir embora, só saiu para guerrear pela cidade. Ele não quis ficar porque considerou Atenas melhor para seus filhos?

— É justo, que tendo vivido a lei, agora que a sentença é desfavorável, procure outro lugar?”

Vemos no diálogo, o condenado consolando quem tentava libertá-lo e assim notamos o patriotismo e o senso de justiça.

O legado de Sócrates

O que Sócrates representou? O que nos trouxe como lição?

Entre diferentes visões vemos um homem religioso que morre pela verdade, considerando o cumprimento da missão espiritual.

Há o Sócrates cientista, que buscou a definição das coisas; o Sócrates fundador da ciência moral, do aprendizado moral, no qual questiona-se para chegar a novas ideias. Ele relacionou o saber ao bem e associou o mal à ignorância.

Lutou contra o fingimento do saber.  

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