O que Florestan Fernandes defendia? Surpreenda-se com a vida e a obra daquele que foi chamado de pai da sociologia

Redação Brasil Paralelo
Redação Brasil Paralelo

Um dos mais importantes sociólogos brasileiros do século XX levanta uma questão comum. Muitos se perguntam o que Florestan Fernandes defendia. De origem humilde, viveu as consequências da desigualdade social no Brasil. Por isso, dedicou sua obra intelectual e sua vida a defender as seguintes pautas: a redução desta desigualdade, a inserção do negro na sociedade brasileira e a democratização do ensino.

Conciliou seus escritos e a luta ativa em prol de mudanças efetivas. É considerado o criador da sociologia crítica no Brasil. Leia esse artigo e conheça sua história, obra e principais pensamentos.

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Índice de conteúdo

  1. Quem foi Florestan Fernandes?
  2. O que Florestan Fernandes defendia? Entenda o estudo das relações raciais no Brasil;
  3. A Desigualdade Social e as Revoluções Burguesas;
  4. O mito da Democracia Racial;
  5. Educação e Democracia;
  6. As obras de Florestan Fernandes.

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Quem foi Florestan Fernandes?

Florestan Fernandes foi um sociólogo brasileiro do século XX. Atualmente, é considerado um dos mais importantes nomes da sociologia do país. Destacou-se pela intensa atuação acadêmica, produzindo uma teoria dedicada a orientar a ação política. Também foi um importante político durante a redemocratização do Brasil, formulando políticas educacionais e combatendo a desigualdade.

Quem-foi-Florestan-Fernandes

Nasceu em São Paulo no dia 22 de julho de 1920. Foi criado pela mãe, Maria Fernandes, uma imigrante portuguesa que se mudou para São Paulo. Nunca conheceu o pai.

A mãe trabalhava como faxineira numa residência abastada da cidade. Como precisava acompanhar a mãe no trabalho, convivia ora nos cortiços de São Paulo, ora nos bairros de classe alta.

A patroa da mãe tornou-se sua madrinha e introduziu Florestan Fernandes no mundo dos estudos e no interesse pela leitura.

Quando estava cursando o terceiro ano do primário, abandonou os estudos para ajudar nas finanças da casa. Trabalhou de engraxate, auxiliar de alfaiate e garçom.

Somente em 1937, aos 17 anos, retomou seus estudos. Cursou a Educação Básica Acelerada, passando por sete anos de estudo em apenas três. Desse modo obteve o título que lhe permitiu ingressar no ensino superior.

Aos 21 anos ingressou no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP). Obteve o título de bacharel em 1943 e de licenciado em 1944.

Seguindo carreira acadêmica, cursou mestrado em Antropologia, também na USP. Sua pesquisa resultou na dissertação: “A organização social dos Tupinambás”, defendida em 1947.

Antes da conclusão do mestrado, tornou-se assistente de ensino de seu orientador, Fernando Azevedo.

Em 1951, concluiu e defendeu sua tese de doutorado: “A função social da guerra na sociedade Tupinambá.”. Dois anos depois se tornou professor titular da USP, ocupando a cadeira deixada pelo sociólogo francês Roger Bastide.

O ano de 1964 foi turbulento para a política brasileira e para sua carreira. Neste ano defendeu a tese de livre docência, que mais tarde se tornaria seu livro célebre “A inserção do negro na sociedade de classes”.

Por ter ingressado na militância de partidos de esquerda durante a universidade, foi preso em 1964, durante o regime militar.

Em 1969, com a implementação do AI-5, foi preso novamente. Porém, com maiores consequências: foi aposentado compulsoriamente da USP e exilado.

O exílio não lhe pôs fim à carreira. Lecionou até 1972 na Universidade de Toronto e depois, até 1977, na Universidade de Yale. Durante o exílio também visitou Cuba para observar o progresso do marxismo na política contemporânea.

Retornou ao Brasil em 1977, retomando sua carreira acadêmica como professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Sua carreira política despontou nesse retorno. Em 1980, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores, sendo eleito Deputado da Constituinte, em 1986.

Em 1990, foi eleito Deputado Federal.

Em 1989, passou a publicar semanalmente uma coluna na Folha de São Paulo, escrevendo textos sobre política, educação, sociologia e questões sociais do Brasil. Enquanto isso, ainda publicava suas pesquisas e atuava na política brasileira.

Em 1994, Fernandes enfrentava problemas de saúde relacionados ao fígado. Em 1995, precisou ser internado por complicações do quadro de saúde e passou por um transplante de fígado, aos 75 anos de idade. Infelizmente não resistiu à cirurgia e faleceu no dia 10 de agosto de 1995.

Sua origem humilde está intimamente ligada à sua obra. O que se verifica nas suas próprias palavras em uma entrevista dada a 1994:

“Eu nunca teria sido o sociólogo em que me converti sem o meu passado e a socialização pré e extraescolar que recebi, através de duras lições da vida. Portanto, […] afirmo que iniciei minha aprendizagem sociológica aos seis anos, quando precisei ganhar a vida como se fosse um adulto”.

O que Florestan Fernandes defendia? Entenda o estudo das relações raciais no Brasil

Em sua obra, dedicou-se a estudar as relações entre raça e classe social no Brasil. Apontando o aspecto da desigualdade social que continha um fator étnico. Sua principal obra foi a tese de livre docência: “A inserção do negro na sociedade de classes”.

O ponto central da obra, que orientou toda sua pesquisa posterior, é analisar a inserção do negro na sociedade capitalista e como isso se deu após a abolição da escravatura.

Para Fernandes, não houve uma integração efetiva dos libertos. Apenas adquiriram a condição de livres, mas permaneceram excluídos da sociedade.

Sua produção vale-se da análise marxista de classes para amparar seus escritos.

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Há no Brasil, segundo Florestan Fernandes, uma relação entre a classe social e a cor. A intersecção entre pobreza e ser negro. Isso acontece porque não houve a integração dos libertos.

Logo, o capitalismo, conforme se articulou no Brasil, é a raiz das desigualdades sociais. E sem a integração real do negro, não é possível estabelecer a democracia. Em oportunidades, direitos e possibilidades.

O sociólogo explica esse conceito em uma entrevista a 1984:

“O negro vai ser sempre, enquanto não houver democracia no Brasil, o nosso melhor ponto de referência para determinar que o Brasil não é uma sociedade democrática. (…) Uma democracia deve ser um regime político, econômico, cultural, social que permite estabelecer igualdade entre todas as raças”.
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A Desigualdade Social e as Revoluções Burguesas

A questão da desigualdade social é um ponto central na obra de Florestan Fernandes. Inclusive sua atuação como parlamentar foi dedicada à redução dessa desigualdade no Brasil.

E qual a origem, portanto, da diferença social no Brasil? O modo como a revolução burguesa tomou forma no Brasil.

Para Florestan Fernandes, as revoluções burguesas na Europa do século XVIII souberam dialogar com as classes baixas e atender a alguns de seus interesses.

Já no Brasil e na América Latina não houve revolução. Os burgueses, tomando o poder, apenas se apropriaram das estruturas de um sistema político que já explorava as classes baixas.

Portanto, enquanto a burguesia europeia foi revolucionária, a americana foi conservadora.

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Assim, o Brasil enfrenta duas dificuldades: acabar com a desigualdade social e conquistar autonomia.

Já que o modelo de exploração das camadas desfavorecidas se volta aos interesses econômicos europeus, isso só será possível reduzindo o poder da burguesia autocrática e diminuindo a influência estrangeira no Brasil.

Para o autor, só assim será possível abandonar o passado colonial e escravista que fomentou essa desigualdade que na sociedade brasileira perdura. E não foi só isso que Florestan Fernandes defendeu.

O mito da Democracia Racial

Em sua carreira, Florestan Fernandes buscou desmontar as ideias propostas pelo sociólogo Gilberto Freyre. Segundo Fernandes, Freyre teria suavizado demais a situação do escravo no Brasil a ponto de transmitir a ideia de que no país houve uma democracia racial.

Assim o faz, como se o processo de mistura dos modos de ser português, africano e indígena tivesse sido um processo de assimilação harmoniosa na formação do brasileiro.

Para Fernandes, essa hipótese é completamente falsa. Após o fim da escravidão, não foram criadas oportunidades de emprego e condições de vida iguais para a população libertada. Apenas criou-se a ideia de que isso seria possível.

O que aconteceu é que não houve qualquer tentativa de integração da população negra. Após o fim da escravidão, os negros acabaram exercendo trabalhos parecidos com os que já realizavam. Além disso, continuaram vivendo sem moradia e oportunidades adequadas.

As condições de miséria e as desvantagens sociais permaneceram.

Em 1950, Florestan Fernandes compôs uma comissão de pesquisa da UNESCO para avaliar se a integração dos negros havia sido bem sucedida no Brasil. Sua conclusão, em conjunto com a dos outros pesquisadores, foi de que imperava uma grande desigualdade social.

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Educação e Democracia

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Apesar de sempre haver militado em partidos socialistas e grupos da esquerda revolucionária, foi um convicto defensor da democracia. Na visão de Florestan Fernandes, a democracia brasileira não era completa, pois não chegava à periferia, às camadas mais pobres da população. A democracia efetiva seria aquela que levasse a todos o direito à alimentação, à moradia e à educação.

Dentre as teses que Florestan Fernandes defendia, outro ponto crucial, no campo político, era a democratização do ensino.

Para o sociólogo, a educação deve ser para todos, laica, gratuita e de qualidade. Assim, ele viabilizou que fosse. Na Constituição de 1988, foi responsável por elaborar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira.

Por meio da lei 9394/96 instituiu:

“TÍTULO I Da Educação

Art. 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.

§ 1º Esta Lei disciplina a educação escolar, que se desenvolve, predominantemente, por meio do ensino, em instituições próprias.

§ 2º A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social.

TÍTULO II Dos Princípios e Fins da Educação Nacional

Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;

III – pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas;

IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância;

V – coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;

VI – gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;

VII – valorização do profissional da educação escolar;

VIII – gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino;

IX – garantia de padrão de qualidade;

X – valorização da experiência extra-escolar;

XI – vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.”.

Trabalhou em conjunto com o antropólogo Darcy Ribeiro para a construção do regimento educacional. Ambos concordavam com as ideias de democratização do ensino.

O professor não deveria ser autoridade no ensino. Sua função não é ser transmissor de conteúdo, mas sim um auxiliar na construção do conhecimento dos alunos.

As obras de Florestan Fernandes

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  • Organização social dos Tupinambá, 1949;
  • A função social da guerra na sociedade Tupinambá,1952;
  • A etnologia e a sociologia no Brasil,1958;
  • Fundamentos empíricos da explicação sociológica,1959;
  • Mudanças sociais no Brasil,1960;
  • Folclore e mudança social na cidade de São Paulo,1961;
  • A integração do negro na sociedade de classes,1964;
  • Corpo e Alma do Brasil,1964;
  • Sociedade de classes e subdesenvolvimento,1968;
  • Capitalismo dependente e Classes Sociais na América Latina,1973;
  • A investigação etnológica no Brasil e outros ensaios,1975;
  • A revolução burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica,1975;
  • Da Guerrilha ao Socialismo: A Revolução Cubana,1979;
  • O que é Revolução,1981;
  • Poder e Contrapoder na América Latina,1981;
  • Significado do Protesto Negro, 1989.

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