Conheça a verdadeira história dos jesuítas, com o historiador Thomas Giulliano

Redação Brasil Paralelo

“Creio que alguns desses documentos preenchem essas lacunas, de demonstrar como esse movimento inaciano, pelo menos nas primeiras quatro ou cinco levas, foi um empreendimento de heroísmo, de sede por martírio”.

O historiador Thomas Giulliano aponta o papel crucial e o heroísmo dos jesuítas em sua atuação em solo brasileiro, neste trecho retirado da série “Brasil — A Última Cruzada”. Mas, quem eram os jesuítas?

Índice de Conteúdo

  1. Quem eram os jesuítas?
  2. Qual era o objetivo dos jesuítas?
  3. Quais são os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola?
  4. O que os jesuítas fizeram no Brasil? 
  5. Por que os jesuítas foram expulsos do Brasil?
  6. O que os jesuítas ensinavam para os índios?
  7. Como funcionavam as missões jesuíticas?

Quem eram os jesuítas?

Quem eram os Jesuítas

Os jesuítas são padres ligados à Companhia de Jesus, ordem da Igreja Católica fundada por Inácio de Loyola. A ordem foi instituída em 1534 com a missão de pregar o Evangelho por todo o mundo. Foi reconhecida, como ato oficial, pelo Papa Paulo III, em 1540.

A ordem surge a partir das ideias de Inácio de Loyola, um nobre espanhol que era soldado, mas que teve de se aposentar após ser ferido em combate. 

Durante o período de sua recuperação, passou pela conversão à fé católica e, depois de um período de meditação e intensas orações, compôs seus famosos Exercícios Espirituais, guia básico para a vivência da espiritualidade jesuítica.

Em 1534, em Paris, seis jovens que o haviam conhecido na Universidade de Paris fizeram um retiro de acordo com os Exercícios Espirituais e juntaram-se a ele em votos de pobreza e castidade. Prometeram ainda aceitar qualquer trabalho apostólico solicitado pelo papa.

Em 1539, Inácio redigiu o primeiro esboço da organização da ordem, aprovada pelo papa Paulo III em 1540.

Apesar da criação independente do Concílio de Trento, tornaram-se a ponta de lança da Igreja no período da Reforma Católica.

Para se tornar um padre jesuíta, era necessário passar por um retiro espiritual onde eram aplicados os Exercícios. Além disso, os membros deveriam ser pessoas: 

  • de vida de oração intensa; 
  • de aguçada formação intelectual;
  • que em tudo praticassem a obediência;
  • que se dedicassem à pregação; 
  • que cultivassem uma vida apostólica ativa.

Para Inácio de Loyola, os princípios da disciplina militar definiriam os membros da Companhia: a obediência, a disciplina rígida e o combate, não físico, mas espiritual. Ele via a si mesmo e aos outros padres como soldados da fé.

Pregou nos novos territórios ao redor do mundo, para onde outras ordens evitavam enviar seus membros. Os jesuítas foram enviados ao Japão, Índia, China, e foram foram cruciais também na América.

Espalharam-se rapidamente pelo mundo, posto que muitos reis e governantes a eles confiaram missões para pregar em terras distantes, e podiam fazê-lo com liberdade.

O rei de Portugal Dom João III, o Cardeal Guise na França, os padres da Baviera, na Alemanha, estes são todos exemplos de pessoas que ficaram encantadas com a doutrina, com o ensino e com a pregação dos jesuítas. Apoiavam muitas vezes seus empreendimentos.

Os jesuítas não foram, como alguns costumam dizer, estudiosos ou mesmo livros escolares, uma resposta da Igreja no Concílio de Trento. O surgimento da Companhia é anterior em cinco anos ao Concílio.

  • Veja, nas palavras do historiador Cléber Eduardo, o surgimento e a importância dos jesuítas:

Boa parte da Europa contava com escolas jesuíticas e com professores da Companhia em suas universidades. Mas afinal, qual era a função dos jesuítas?

Qual era o objetivo dos jesuítas?

Para o professor e historiador Thomas Giulliano, a missão dos jesuítas personifica os seguintes versos de Camões: “A fé católica dilatais”. O envio dos jesuítas em missões serviu ao propósito de propagação da fé e da doutrina católica.

O objetivo dos jesuítas era propagar a mensagem evangélica, ancorados em sua boa formação intelectual e doutrinal, e na intensa vivência espiritual.

Além de aproximar as pessoas do catolicismo, em muitos casos ajudavam também na moralização do clero a viver uma vida conforme as normas e a pregar a doutrina adequada.

Dedicavam-se especialmente à educação e à catequização das pessoas por onde passavam. Para isso, construíram escolas e universidades.

Mesmo sendo convocados pelo próprio papa a pregar em terras distantes, não recusaram o convite. Assim, foram considerados o exército de reconquista espiritual na Reforma Católica.

Quais são os Exercícios Espirituais de Santo Inácio?

exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola

Quem eram os jesuítas? Aqueles que faziam os Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola e ingressaram na Companhia de Jesus. A finalidade dos exercícios é o esforço por ordenar a vida segundo o projeto de Deus. 

Inácio recomenda fazer os Exercícios Espirituais num lugar diferente do ambiente costumeiro. Por isso os jesuítas deram vida às chamadas Casas de Exercícios, organizadas de modo a permitir a concentração e uma espécie de deserto, onde o silêncio facilitasse a vivência de tais propósitos.

Inicia-se com a pergunta que Inácio chama de “princípio e fundamento”: “Para que finalidade Deus nos criou?”. A razão, iluminada pela fé, dá a resposta: o homem foi criado por Deus e para Deus. Todo bem foi colocado à disposição do homem para que o ajudasse a conseguir esta finalidade. Por isso, precisa o homem fazer disso um uso razoável, com liberdade de espírito e autocontrole.

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Feito isso, Inácio passa aos Exercícios propriamente ditos. São assim 4 etapas, dispostas da seguinte maneira:

Iª etapa: “Deformata reformare”: eliminar da alma as deformações causadas pelo pecado. Para não cair na desconfiança, Inácio conduz à contemplação da imagem do Salvador Crucificado, morto para salvar a humanidade da morte eterna.

IIª etapa: “Reformata conformare”: convidados a revestir-se do Cristo e de sua armadura, o homem reformado deve se conformar ao Cristo: pobre como ele; ardente de amor ao Pai e aos irmãos. É o tempo da reforma ou da opção do estado de vida: como na prática seguir Cristo?

IIIª etapa: “Conformata confirmare”: fortalecer os propósitos de adesão a Cristo, por meio da contemplação d’Aquele que foi obediente até a morte na cruz. Nesta etapa confirmam-se as decisões tomadas.

IVª etapa: “Confirmata transformare”: no fim dos Exercícios, Inácio propõe a contemplação para alcançar o amor puro de Deus, chamada “contemplatio ad amorem”. Com o pensamento, volta-se à Criação e à Redenção, para descobrir como e quanto Deus ama a humanidade. Por fim, a seguinte oração encerra os exercícios: “Oh Senhor, dá-me teu amor e tua graça: isto me basta!”

Aqueles que praticaram os exercícios inacianos tiveram grande importância na história brasileira.

O que os jesuítas fizeram no Brasil?

missões jesuítas no Brasil

Os primeiros jesuítas que vieram ao Brasil chegaram com o primeiro governador-geral da colônia, Tomé de Sousa, em 1549. Eles eram liderados por Manuel da Nóbrega e tinham como principal missão a cristianização dos nativos e zelar pela Igreja instalada no Brasil colonial.

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Os jesuítas, além de conviver com os colonos em suas vilas, foram construindo as chamadas missões em territórios indígenas. Eram aldeamentos onde viviam juntos dos índios no cotidiano.

Logo de início enfrentaram o problema da linguagem, uma vez que os religiosos não sabiam falar o tupi. 

Então o Padre José de Anchieta escreveu “A Arte da Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil”, que é considerada a primeira gramática da língua tupi.

Graças às pesquisas de Anchieta, surgiu a língua geral, que foi um idioma que misturava o português com o tupi. Esse idioma chegou a ser a língua mais falada no litoral brasileiro.

  • Veja a importância da atuação de José de Anchieta, considerado o Missionário do Brasil, nas palavras de Thomas Giulliano:

Além disso, os jesuítas tiveram um importante papel educacional no Brasil, pois, além da catequese que ministravam aos nativos, educavam também os filhos dos colonos. 

Para que isso fosse possível, esses padres criaram colégios em diversas partes do Brasil, como aconteceu na cidade de Salvador e em São Paulo de Piratininga.

Outra importante função deles no Brasil foi a proteção dos povos indígenas. Boa parte dos colonos consideravam os indígenas seres inferiores, seres sem alma, portanto passíveis de serem escravizados.

Os jesuítas se opuseram categoricamente a isso, protegendo os índios, civilizando-os e ministrando a catequese.

A ação dos jesuítas em proteger os nativos da escravização levou a Coroa a determinar leis que permitissem a escravização dos indígenas somente em casos de “guerra justa”, ou seja, quando os nativos atacavam algum português.

Por conta dessas leis que conquistaram, os jesuítas foram diversas vezes atacados e mortos em suas missões entre os séculos XVI e XVII.

Apesar de tudo isso, muitos acreditam que eles fossem meros aproveitadores da mão de obra indígena e das riquezas brasileiras. 

Mesmo com a dedicação heróica na colônia, para com os nativos e colonos, os jesuítas foram perseguidos e expulsos do Brasil.

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Por que os jesuítas foram expulsos do Brasil?

Por que os Jesuítas foram expulsos do Brasil

Três fatores explicam a expulsão dos jesuítas do Brasil: 

  • o ódio de Marquês de Pombal aos jesuítas;
  • as disputas entre Portugal e Espanha por um território de posse dos padres da Companhia;
  • o ódio que sua obra despertava nos adversários.

Os jesuítas espanhóis haviam fundado uma imensa colônia chamada de Sete Povos das Missões, no lugar onde hoje é o Rio Grande do Sul. 

Porém, a área foi alvo de disputa entre Portugal e Espanha, o que culminou no Tratado de Madri em 1750.

O Tratado previa que a Espanha entregasse a região das missões aos portugueses em troca da colônia de Sacramento. 

As negociações terminaram em conflito. Os padres da Companhia se negaram a abandonar as missões e os portugueses não entregaram Sacramento.

Todo esse conflito culminou nas chamadas Guerras Guaraníticas.

Durante esse conflito, Portugal era governado pelo Primeiro Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, o famoso Marquês de Pombal. Ele era um homem que bebia das novas ideias iluministas e nutria profundo ódio contra o clero e a Igreja Católica.

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Vendo os grandes triunfos da obra jesuítica, passou a persegui-los por considerá-los um empecilho aos seus planos.

Mandou prender todos os padres da Companhia em Portugal e seus domínios. E assim sem direito a processo ou defesa, quase todos morreram em prisões insalubres, privados de mantimentos básicos.

Além dos ataques, o Marquês decretou a expulsão da Companhia de todo o território do Império Português, a 3 de setembro de 1759.

“Mas nesse período, os jesuítas deixam para trás 11 colégios, 8 seminários, 53 residências e 65 missões. Tudo abandonado. Isso significa que todos aqueles colégios que, de certa forma, tinham o cuidado da formação não só dos jesuítas, mas de uma elite intelectual brasileira, foram destruídos pela sanha de Marquês de Pombal. O ódio de Pombal aos jesuítas era tanto, que pouco se importou com as consequências práticas”. Cléber Eduardo, trecho retirado da série “Brasil — A Última Cruzada”.

A presença dos jesuítas sempre causou ódio nos seus adversários: nos iluministas, que viam suas ideias e planos emperrados; nos colonos, que queriam escravizar os índios; e em vários produtores, que invejavam os empreendimentos financeiros da Companhia no Brasil.

Todos esses fatores colaboraram para a expulsão dos jesuítas.

A causa humanitária de defesa da liberdade dos indígenas e as rendas lícitas, adquiridas para o financiamento das obras jesuíticas, nem isso fez seus detratores vacilarem. Perseguiram os padres e conquistaram sua expulsão.

Mas o que ensinavam os jesuítas que tanto ódio de alguns membros de Portugal despertava?

O que os jesuítas ensinavam para os índios?

A educação jesuítica para os índios combinava um ensino moralizante, catequético e civilizatório. Disposto da seguinte forma:

  • ensino da fé cristã;
  • ensino dos valores civilizacionais ocidentais;
  • ensino de trabalhos manuais;
  • ensino da língua portuguesa;
  • estímulo a um comportamento moral cristão, desde o uso de roupas à monogamia;
  • estímulo a coexistência pacífica com outras tribos.

Esta proposta de ensino guiava a obra dos jesuítas em suas missões

Como funcionavam as missões jesuíticas?

As missões ou reduções jesuíticas funcionavam como aldeamentos onde os padres viviam em meio aos índios. Estimulando-lhes a uma vida de trabalho, de oração e de formação.

Nessas tribos, os padres em conjunto com os nativos produziam seu sustento e praticavam o comércio dos bens produzidos. Além disso, os índios recebiam aulas de catequese e de moral.

Tudo isso em conjunto com uma vida litúrgica estabelecida pelos padres da Companhia. As reduções eram como mosteiros ao ar livre.

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O que ensinavam nas escolas?

O currículo escolar e universitário jesuíta era definido pela “Ratio Studiorum”, documento que sintetiza as disciplinas a serem lecionadas. 

As disciplinas são:

  • Gramática; 
  • Retórica; 
  • Lógica; 
  • Aritmética; 
  • Geometria; 
  • Música; 
  • Astronomia;
  • Teologia;
  • Teologia Moral;
  • Humanidades.

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