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Hollywood caindo de podre e o fim do Oscar

Por 
Rasta
4/25/2022
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A sétima arte? A evolução do teatro? Ou apenas mais um produto industrial esdrúxulo para embalar o delírio das massas em uma época de abundância?

No Deixa Rasta de hoje trataremos de cinema.

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Desde Tropa de Elite não sai nada que dê vontade de assistir no cinema nacional. Falando em cinema que ninguém assiste, todos que foram ver o último filme dos Vingadores se depararam com uma cena jocosa: o trailer de De Pernas pro ar 3.

Acho que, como eu, ninguém sabia que existia o um e o dois… Ainda falando sobre um cinema que ninguém assiste, vamos falar dos nossos irmãos americanos e o Oscar.

Ah, o cinema... Só de falar em cinema, acho que qualquer pessoa é levada naquelas viagens estilo “em busca do tempo perdido”. Vem à memória aquele cheiro de pipoca, o cheiro da sala de cinema, o clima geladinho, o espaço aconchegante e confortável e aquela palpitação de levar uma rastinha ao cinema. Gado demais.

Uma memória muito vívida que tenho foi meu pai me tirando um pouco mais cedo da escola para que a gente conseguisse pegar a primeira sessão de Titanic, em 97.

Eu tinha 10 anos, tamanha foi a comoção acerca do Blockbuster, que acho que eu vi o filme mais umas 3 vezes no cinema.

Era a época que Leonardo DiCaprio era o Renato Gaúcho das garotinhas, com os filmes: Romeu e Julieta, O Homem da Máscara de Ferro.

Se pegarmos a quantidade de calcinhas que devem ter sido atiradas no menino Léo, provavelmente daria para fazer a rota do Titanic da Irlanda até Boston algumas vezes. Hoje o mundo não comporta mais um galã desses.

Hoje o galã tem que esconder o iate e a Ferrari só para os círculos mais esotéricos, e ficar fazendo proselitismo político na hora de receber a estatueta do Oscar.

Não é de hoje que isso acontece, dizem que a primeira grande lacrada da história do Oscar foi em 1973, quando Marlon Brando resolveu boicotar o Oscar que ganhou pelo Poderoso Chefão, e mandar a atriz apache Sacheen Littlefeather dar um sermão na academia.

E é assim que a gente chega à premiação do Oscar nos dias de hoje, o último Oscar teve um recorde! Um recorde de pior audiência da história.

No ano passado, a Academia havia amargurado uma audiência de 23,6 milhões — o menor número em quase uma década. Mas desta vez, o público foi longe, tão longe que não apareceu, apenas 9,8 milhões assistiram à premiação.

Isso é menos do que a metade dos números alcançados em 2020 — que já havia sido considerado um fracasso.

Ou seja, o reality show A Fazenda com Jojo Toddynho teve mais audiência que o prêmio do homem dourado.

Há quem diga que o problema foi a pandemia, mas vamos falar o português bem claro? Isso é uma patuscada, uma pantomima, um sonho de uma noite de verão.

A verdade é que a audiência do Oscar já vem caindo ao longo dos anos, e muito provavelmente porque as pessoas já estão cansadas dessa forçação de barra lacradora e dessa ladainha progressista para cá e para lá.

Um exemplo foi o icônico caso dos Caça-Fantasmas, o filme clássico dos anos 80. Algum roteirista destes do exército dos imaculados, os amantes da empatia, dessa galera que abraça árvore e aplaude o pôr do sol no arpoador achou que era uma brilhante ideia refazer um filme, só que apenas com mulheres.

O trailer desse “novo” Caça-Fantasmas foi extremamente mal recebido (Ora ora! Vejam só!) e a razão pela qual isso aconteceu, de acordo com os produtores do filme, era porque os fãs dos filmes originais eram uns machistas que não suportam ver mulheres como protagonistas de filmes…

De onde as pessoas tiram essas ideias? Diga-me honestamente se você imagina um cara em casa, pensando: eu odeio ver mulheres no cinema.

O que é extremamente enfadonho é o fato que ter ou não uma mulher num papel seja objeto de discussão e de problematização. A gente precisa acabar com esse negócio de representatividade. Que sanha é essa de que eu tenho que me sentir representado na tela do cinema?

Olhe para mim, meu filho, você acha que eu vejo Conan e me sinto representado? No máximo eu me sinto representado naqueles macacos dançando ao redor do iPhone em 2001 Uma Odisséia no Espaço.

Eu vou para o cinema para ver coisas diferentes, coisas que me inspirem, um personagem legal. Se eu quisesse ver mais dessa minha cara eu ficava em casa olhando no espelho.

Agora essa porcaria dessa representatividade está chegando no Senhor dos Anéis. O ator que faz o Liu Kang no Mortal Kombat reclamou que não tem personagem asiático. Irmão, não tem personagem nordestino nessa porcaria, se eu quisesse isso eu ia ler Vidas Secas ou assistir O Auto da Compadecida. Já pensou se o cara me aparece com um Liu Kang nórdico?

Depois do fenômeno de Game of Thrones, que consegue juntar dragão, zumbi, feiticeiros, lobos gigantes, anão safado e muita nudez feminina, é de se entender que os fãs do Tolkien fiquem com o pé atrás com uma possível tentativa de erotizar a terra média, algo completamente desnecessário, além de cafona e cretino.

Prontamente, um cineasta brasileiro tuitou 

“Por mais sexo nos filmes todos. Mais histórias com pessoas que querem estar juntas, com quem quer que seja, se divertindo, com tesão. Mais sexo e mais nudez sempre e menos filme tabacudo.”

Para quem não sabe, tabacudo é uma expressão pernambucana que pode significar bobo, inocente, juvenil. Meu filho, o que é que tem de tão bombástico em gente fazendo sexo e se divertindo com tesão?

Por acaso isso não é uma coisa banal que acontece no cotidiano de um monte de gente? Quem nunca viu um peru, um furico, ou um tabaco, o que é que há de demais nisso?

Quer coisa mais tabacuda que um filme pornô? Como é que algo tão banal e corriqueiro pode ser o critério de que um filme não vai ser tabacudo?

Tolkien trata da eternidade, de um Deus transcendente, da natureza do mal, dos mistérios da providência, da santificação do mito pagão. Uma cosmovisão platônica e agostiniana, você acha, meu filho, que Tolkien ia perder 10 minutos da obra dele pra falar sobre os elfos transando?

Ele não faz isso da mesma forma que ele não precisa fazer isso para falar dos Elfos cagando! Se você soubesse que os Elfos passaram séculos sem se reproduzir, porque a Terra estava triste com o domínio de Melkor e a iminente guerra durante o sítio de Angband, você entenderia que esse amor do qual se acha defensor e amante, é apenas uma sombra do dedão da unha do pé encravado de um orc perto do que Tolkien concebia como o amor verdadeiro que unia seus personagens em um laço transcendental e indissolúvel.

Tu é o que, irmão? Jovem? Jovem é que passa o dia descascando o bem-te-vi e pensando em putaria. Nada é mais tabacudo do que isso. 

Falando em gírias pernambucanas, um filme que eu ouvi falar bastante foi Bacurau. Muito se falou de um tal de Bacurau, de onde eu presumo que tenha sido um grande sucesso.

Bacurau, para quem não sabe, é o último ônibus da madrugada/primeiro ônibus da manhã que passa lá em Recife. Quem já tomou um vinho carreteiro ali na rua do Brum, no Recife Antigo, sabe bem.

Eu não sei sobre o que é esse filme, mas desconfio que não seja sobre o ônibus e longe de mim sair criticando o negócio aqui. Mas eu lembro que na época, ele foi um sucesso, e vários esquerdomachos chamavam as manas feministinhas para assistir o filme, com o intuito bovino de conquistar uma noite de amores. Gado demais.

Teve um caso maravilhoso de um cara que assistiu Bacurau 11 vezes, ele levou a mulher e dez amantes a cada sessão, o caso vazou na net, as onze moças cruzaram as informações e viram que batia e o Don Juan de Marcou vacilação caiu.

Obviamente, como todo bom esquerdomacho, o cara pediu desculpas por ser homem, escreveu textão de confissão, mas ele já tinha carimbado 11 vouchers e o mundo… O mundo, meu rastão, o mundo permite tudo, mas na hora de cobrar, ele é como cachorro da polícia, e os cães não poupam ninguém, perdão é coisa de outra dimensão.

Então, para o cara, não basta ser gado, tem que ser Hendecagado.

E para as moças, eu acho que mais do que o fato de terem sido enganadas pelo peralvilho, o que mais deve doer é que você seja tão básica, mas tão básica, que dá para padronizar até o que fazer com 11 tão básicas quanto você:

  • “Ai, só eu que acho a resistência do cinema nacional TUDO?”
  • “Não, minha filha, na verdade usei esse papo para trabalhar umas dez que nem você.”

Eu lembro de uma vez que eu tive que aguentar uma “artista” muito chatinha que estava acompanhando um amigo meu, e a gente saiu para visitar o memorial do 11 de setembro, durante o 11 de setembro. Saindo do metrô ela mandou uma:

  • “será que os americanos têm noção do que realmente aconteceu?”;
  • Aí eu disse: “o que você quer dizer, minha filha? Que o governo americano conspirou tudo para conseguir uma desculpa pra invadir o Iraque?”;
  • Aí ela disse “é, só eu que acho isso?”;
  • Daí eu olhei para a diferentona e disse: “não, minha filha, no dia seguinte já tinha uma pá de gente cuspindo essa ideia por aí”.

Viramos a esquina ali na igrejinha que ficou intacta e já tinha uns 10 zé-das-couves com cartazes dizendo que o 11 de setembro foi um trabalho interno, com fotos de modelos de demolição controlada, nanothermites e tudo aquilo lá.

Isso me lembra das famosas Leis de Jopa, enunciadas pelo meu amigo vagabundo profissional, acadêmico da escola de samba de economia, Jopa Velozo.

A primeira lei de Jopa diz que se você acha que teve alguma grande ideia bombástica, essa ideia provavelmente já existe e não é tão bombástica assim.

A segunda lei de Jopa diz que se você encontrou uma informação que é extremamente conveniente para confirmar algo em que você acredita, provavelmente ela é falsa.

Os ingleses têm as Leis de Conquest, que dizem que todo mundo é de direita com aquilo que lhe cabe e que a melhor maneira de entender o funcionamento de qualquer instituição burocrática, é imaginar que ela é gerida por uma seita de seus piores inimigos.

Um outro termo que os Ingleses têm é a tal da accountability. Basta ver uma tradução de algum livro que tenha essa palavra que você vai ver a dificuldade, no mesmo livro ela pode ser traduzida como responsabilidade, responsabilidade civil, compromisso, transparência.

Basicamente é um vetor que tem uma componente de responsabilidade e uma componente de poder. Como é difícil de traduzir isso aí e a gente não tem exemplo de nada que se pareça com isso em toda a história da república, eu resolvi usar o termo Bigodagem para designar o seu oposto, que é o poder desprovido de qualquer responsabilidade.

Disso aí a gente tem um monte de exemplo. A bigodagem é aquele negócio, o cara chega prometendo mundos e fundos, diz que vai ser muito bom se você permitir que ele faça tal coisa, que vai ser só a cabecinha, que ele vai te ligar depois porque você é muito especial, que nem as outras 10 que ele levou para ver Bacurau, mas não tem nenhuma garantia de que ele estará responsabilizado caso dê algum problema.

E se tem uma lição que a história política moderna nos ensina, está traduzida na fala do Capitão Nascimento: 

“Ciente, Carvalho, já falei que vai dar merda.”

Aí a cagada acontece e quem fez não é quem paga. Os ingleses têm a accountability, nós temos a bigodagem, eu acho que estamos melhor que eles, porque eles estão bigodando e não têm palavra pra esculachar isso.

Falando nisso, chegou a hora do Troféu Bigodagem 

O Troféu Bigodagem de hoje é uma homenagem póstuma a este que é, além de o meu ator preferido, um canalha à moda antiga: Marlon Brando.

Quem não lembra daquele episódio do Chaves em que o Professor Linguiça pega o Seu Madruga de cueca e começa a chamar ele de impudico, despudorado. Tudo isso poderia ser aplicado ao nosso amigo.

Muitas são as anedotas, como a de quando Brando fez o James Dean de amante a escravo dele, em que ele iludia e torturava o jovem bad boy apaixonado, numa mistura hollywoodiana de Grushenka com Fyodor Pavlovich. Teve também a famosa cena com a Maria Schneider, a famosa cena da manteiga em O Último Tango em Paris, em que a coitada foi enganada e ficou traumatizada para sempre.

Mas o troféu de hoje vai para uma bigodagem histórica. Especialistas afirmariam que a primeira grande lacrada da história do Oscar foi em 1973, quando Marlon Brando resolveu boicotar o Oscar que ganhou pelo Poderoso Chefão, e mandou a atriz apache Sacheen Littlefeather dar um sermão na academia.

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A atriz Sacheen Littlefeather recusando o Oscar que Marlon Brandi deveria receber.

O discurso foi recebido de duas formas: meio aplaudido e meio vaiado, mas uma coisa é certa, depois que ela deu a lacrada, o Brando sumiu. Saiu pra comprar cigarro, como de costume, e ela nunca mais conseguiu trabalhar em Hollywood.

O cara teve a cara de madeira de sequestrar o lugar de fala da mina, mas quem pagou foi ela. E dessa vez, não teve nem manteiga.

Depois do Brando jogar a coitada embaixo do ônibus, como diz o provérbio americano, ou melhor, embaixo de um bonde chamado desejo, os atores, gente que nem gosta de aparecer, começaram a competição para ver quem lacrava mais e quem se envolvia mais em política.

Depois dos cigarros, da heroína, dos abusos sexuais e das orgias, Hollywood adotou mais um vício, a tal da atuação com consciência social.

Alguns dos exemplares mais caídos da criação, dando lição ao seu Joaquim, humilde pedreiro que só queria ver o Rambo matando uns bichos ruins.

Ao grande Brando, que Deus o tenha, o troféu bigodagem.

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