A Teoria dos Quatro Discursos de Aristóteles de acordo com Olavo de Carvalho

Redação Brasil Paralelo
Redação Brasil Paralelo

Há uma ideia presente nas obras de Aristóteles que passou despercebida por muitos de seus leitores e comentaristas. Ao longo desses séculos, decorridos da Antiguidade até os dias de hoje, talvez apenas dois estudiosos aristotélicos tenham mencionado a Teoria dos Quatro Discursos, mas sem a devida importância.

Isso motivou o Professor Olavo de Carvalho a explica-la em seu livro Aristóteles em Nova Perspectiva – Introdução à Teoria dos Quatro Discursos”.

Índice de conteúdo

  1. O que é a Teoria dos Quatro Discursos?
  2. Qual é a importância da teoria dos 4 discursos?
  3. As etapas do conhecimento na vida humana;
  4. Como entender e aplicar a Teoria dos Quatro Discursos?
  5. Explicação da Poética, Retórica, Dialética e Lógica;
  6. Conclusão.

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O que é a Teoria dos Quatro Discursos?

A Teoria dos Quatro Discursos é originada da filosofia de Aristóteles e aborda as quatro linguagens que o discurso humano possui. São quatro modalidades de discursar envolvendo intenções diferentes. Essa teoria relaciona o uso da palavra (discurso) com a busca pela verdade.

Os quatro tipos de discurso são:

  1. Poético;
  2. Retórico;
  3. Dialético;
  4. Lógico (Analítico).

Segundo o professor Olavo, a Teoria dos Quatro Discursos pode ser resumida em uma frase:

“O discurso humano é uma potência única, que se atualiza de quatro maneiras diversas: a poética, a retórica, a dialética e a analítica (lógica)”.

Esses quatro tipos de discurso são variantes de uma mesma ciência. É comum, na cultura atual, por exemplo, considerar que a linguagem poética e a linguagem lógica (ou científica) sejam totalmente separadas e distantes.

Nas universidades do país, é natural que os prédios que ensinam Letras sejam diferentes dos prédios que ensinam Ciências. Ainda é mais natural que se dê mais valor a esta do que àquela. A literatura, porém, e a poesia não são paralelas ao discurso científico, não são coisas opostas.

Antes de entendê-lo melhor e como aplicar esse conhecimento para progredir na vida intelectual, é necessário um pouco mais de contexto.

Qual é a origem dessa teoria?

A Teoria dos Quatro Discursos não está explícita na obra de Aristóteles: ela é uma descoberta do Professor Olavo de Carvalho, mas que já havia sido sinalizada por Santo Tomás de Aquino.

Aristóteles escreveu um tratado sobre a Poética, a Retórica, a Dialética (os Tópicos) e dois tratados de Lógica (Analíticas I e II), além de duas obras introdutórias sobre a linguagem e o pensamento em geral (Categorias e Da Interpretação).

Embora separados, a teoria dos 4 discursos está contida nesses tratados e, segundo Carvalho, é uma chave de compreensão da filosofia de Aristóteles.

De acordo com o professor, o texto não é um túmulo do pensamento, e seria um erro considerá-lo apenas como palavras fixas, que querem dizer apenas o que é possível entender literalmente pela leitura.

É necessário respeitar também o inexpresso e o subentendido para captar a unidade de pensamento, intenção e valores do autor.

Qual é a importância da teoria dos 4 discursos?

Ela é importante para a aprendizagem, para a formação de um homem maduro desejoso de cultivar uma vida intelectual. É um caminho para a autoconsciência e para uma vida de cultura elevada.

Não é possível ter uma verdadeira vida de estudos sem ter domínio da linguagem. Ser intelectual não é se isolar do mundo lendo livros. O intelectual possui deveres cotidianos e ocupações reais como todas as outras pessoas.

Usando a razão, o homem percebe sua autoconsciência e busca um sentido para viver. Ele também percebe que os outros buscam sentido para viver, que algo transcende o universo e que o próprio ser humano não é a causa de tudo. Diante da grandeza do universo, a reação é de espanto e reverência.

A contemplação do que está acima da razão humana gera perguntas fundamentais em cada um perguntas fundamentais. Buscar as respostas para si é cultivar a vida intelectual, isto é, buscar respostas para as dúvidas existenciais.

Essa pesquisa não se desvincula dos deveres de estado, do trabalho, da convivência com as outras pessoas e da percepção da natureza.

Ter vida intelectual não é estudar por estudar e ter muita cultura por haver lido muitos livros e conhecer muitas ideias. É buscar ser uma pessoa melhor, com propósito de vida.

Existe no homem uma força que pende sentido para as coisas. Ele não se contenta em só existir como as plantas e os animais.

Nessa investigação, o ser humano relaciona a palavra (discurso) e a verdade. Disso é que surge a Teoria dos Quatro Discursos.

As etapas do conhecimento na vida humana

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Segundo Aristóteles, o conhecimento começa pelos dados dos sentidos. Aquilo que é percebido pelos olhos, tato, olfato, audição e paladar fica registrado na mente. Isso está no campo da percepção.

O percebido é usado pela memória, que não é apenas um registro passivo, mas sim uma faculdade ativa, que cria combinações, funde ou repete imagens e cria novos padrões. A memória também pode ser chamada de fantasia.

Por fim, a inteligência opera com as imagens da fantasia, ou imaginação, e busca encontrar conceitos abstratos.

A imaginação é a ponte entre o conhecimento sensorial e o pensamento lógico.

Quando o ser humano alcança o entendimento dos conceitos universais a partir da abstração do que experimentou, pode raciocinar e fazer juízos.

E em toda essa trajetória está presente o discurso, que articula a palavra e a experiência.

O discurso

É pelo discurso que o homem se confronta, lida com sua autoconsciência e influencia outros homens. Trata-se de uma forma de se deslocar, é um transcurso. Ele parte de uma premissa que pode ser verdadeira e busca alcançar uma conclusão.

O que define o discurso é o propósito que ele visa realizar. É a expressão de uma intenção humana. Cada discurso é algo dentro de um contexto da cultura, quando há motivo para falar e ouvir.

O homem discursa para abrir a imaginação à imensidade do possível, para tomar alguma resolução prática, para examinar criticamente suas crenças, ou para explorar as consequências das verdades já aceitas, construindo o edifício do saber.

O discurso é uma construção artística, uma tomada de posição em alguma questão, uma confrontação de hipóteses ou uma tentativa de provar que algo é verdadeiro.

O Professor Olavo deixa claro que o discurso não pode ser iniciado a partir de uma premissa falsa. Ora, se parte do que não é verdadeiro, já pode ser negado. Por isso, há uma escala de credibilidade que vai do que é minimamente possível ao que é totalmente certo.

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A escala de credibilidade do discurso

A Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica são ciências em graus diferentes, mas apresentam a mesma natureza: são formas que o homem usa, pela palavra, para influenciar a própria mente ou a do outro. Não são discursos isolados uns dos outros, não se excluem. Apenas obedecem a uma hierarquia.

Em uma escala de verdade, o oposto é o falso. Mas esse não é o caso, pois não se inicia um discurso partindo-se de uma premissa falsa.

As premissas podem ser:

  • Possíveis: existe uma chance de serem verdadeiras;
  • Necessárias: são verdadeiras e não podem ser falsas de jeito nenhum.

As conclusões podem ser:

  • Verossímeis: parecem verdade;
  • Necessárias: são verdadeiras.

A Teoria dos Quatro Discursos contempla justamente a combinação dessas possibilidades, que são os caminhos que os discursos fazem das premissas até a conclusão.

O falso está fora da escala de credibilidade, que vai do mínimo possível ao máximo certo, de acordo com o Professor Olavo.

O discurso humano tem um objetivo real, intenciona-se a algo. Perante uma situação, o homem tende a uma certeza máxima que não pode obter, mas pode obter mais do que uma certeza mínima.

Como entender e aplicar a Teoria dos Quatro Discursos?

Cada modo de discursar, isto é, cada modo de usar as palavras, possui um nível de credibilidade.

  • O discurso poético: possibilidade.
  • O discurso retórico: verossimilhança.
  • O discurso dialético: probabilidade razoável.
  • O discurso lógico ou analítico: certeza apodíctica, certeza da verdade.

Explicação da Poética, Retórica, Dialética e Lógica

Poetica-Retorica-Dialetica-e-Logica

Essas ciências são inseparáveis e não fazem sentido se tomadas isoladamente.

  1. O discurso poético parte de premissas possíveis para alcançar uma conclusão verossímil.
  1. O discurso retórico parte de premissas necessárias para alcançar uma conclusão verossímil.
  1. O discurso dialético parte de premissas possíveis para alcançar uma conclusão necessária.
  1. O discurso lógico ou analítico parte de premissas necessárias para alcançar uma conclusão necessária.

Cada um será explicado detalhadamente.

1 – Discurso poético

O discurso poético fala das coisas que são possíveis. A imaginação se coloca diante das possibilidades. Mas o que isso quer dizer?

Nesse campo estão a literatura, a ficção, a poesia e a fantasia. Aristóteles usa Homero como seu principal exemplo. Esse tipo de conteúdo representa uma forma de percepção do mundo.

Dirige-se sobretudo à imaginação, que capta as imagens, as representações do real.

A poética é a chave para desenvolver um processo de estudo. Ela parte do gosto das pessoas pela literatura e poesia e usa as possibilidades imaginativas para a obtenção de um conhecimento.

É algo aceito como verdade provisoriamente, aprendido por meio da ficção.

Os clássicos literários permitem que a mente tenha um novo mundo possível diante de si, crie referências e arquétipos, observando grandes pensadores e o que seus personagens literários viveram.

Os clássicos poéticos têm o poder de gerar na mente humana a simulação de uma experiência real, uma possibilidade de ações e reações.

Mesmo uma narrativa de “mentirinha” pode trazer em seu mundo uma verdade universal. Ainda que uma obra seja ficção, o mundo criado por um autor pode ser coerente (verossímil) em si mesmo.

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Quando se admite a possibilidade das aventuras e desventuras de algum herói, dos personagens de um romance, por exemplo, o leitor imagina que seria possível lhe suceder algo semelhante, em sua vida.

Ele pode aprender algo e se preparar.

O discurso poético tem um impacto mágico. Ele é fantástico, é um universo de possibilidades criativas que impactam a alma.

2 – Discurso retórico

O discurso retórico induz a vontade do ouvinte a admitir uma crença, possui formas de convencer as pessoas. Aristóteles admite três tipos de discursos retóricos: forense, deliberativo e epidíctico, ou de louvor e censura.

Em todos esses modos, o ouvinte — que é como um juiz cujo voto dará, decidirá — é convidado a tomar uma decisão.

Isso não é apenas uma técnica. A retórica aponta para a decisão mais adequada dentre um conjunto de crenças.

A poesia imprime imagens na mente, a retórica produz a decisão do que acreditar.

No discurso poético, o ouvinte simplesmente precisa dar asas à sua imaginação sem esperar consequências práticas imediatas. Mas no retórico espera-se um ato de vontade, que é a decisão.

Pela retórica se convence alguém no reino dos fatos, da realidade, alcançando um conhecimento que já parece verdadeiro.

3 – Discurso dialético

O discurso dialético averigua a razoabilidade das crenças admitidas. Pela retórica, o ouvinte descobre o que é verossímil e então pode colocá-lo em teste, submetendo o que escolheu acreditar a provas, num processo de ir e vir entre o erro e a verdade.

A dialética é uma troca de ideias buscando qual é mais provável. Ela verifica se as crenças admitidas são razoáveis. As contestações averiguam se a crença escolhida permanece de pé.

A dialética une verdades para tirar conclusões. Aristóteles falou sobre isso nos Tópicos.

Quando não se tem princípios, a única maneira de buscá-los é pela investigação dialética. Por meio do confronto de hipóteses contraditórias, busca-se uma espécie de iluminação.

Esse discurso não sugere ou impõe uma crença como o retórico, mas testa as crenças para ver se elas conseguem responder às objeções. Neste caso, as crenças aceitas têm de atender as exigências superiores da racionalidade.

A aproximação da verdade pode ser lenta e gradual, não precisa ser uma decisão imediata. A decisão é adiada. O foco não é persuadir, mas levar ambas as partes em debate a encontrar uma conclusão razoável.

Por essa razão, é necessário pôr um freio ao desejo de vencer e ter a humildade para mudar de opinião se o adversário mostrar ter mais razão. O dialético não defende um partido, mas investiga uma hipótese.

Isso só é possível quando ambos os participantes do diálogo conhecem e admitem os mesmos princípios básicos e aceitam ser isentos. A autocrítica é também uma habilidade necessária.

4 – Discurso lógico ou analítico

O discurso lógico ou analítico estuda os meios para demonstrar uma verdade evidente, apodíctica. Ele apresenta uma certeza científica. Aristóteles aborda esse tema no Órganon.

Esse discurso parte de premissas evidentemente verdadeiras e as explica, mostrando porque são verdadeiras e porque não podem ser falsas. A consequência é que a conclusão também é necessariamente verdadeira.

A lógica não traz o conhecimento, mas serve para facilitar a verificação dos conhecimentos já adquiridos, confrontando-os com os princípios que os fundamentam, para ver se não se contradizem.

No plano da lógica analítica, não há mais discussão: há apenas a demonstração linear de uma conclusão que, partindo de premissas admitidas como absolutamente verdadeiras, não podem deixar de estar certas, usando a dedução silogística.  

É como o monólogo de um mestre. O discípulo apenas ouve e aceita a verdade. Se isso não acontecer, pela demonstração da verdade ter falhado, o assunto volta para a discussão dialética.

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Conclusão

De acordo com Aristóteles, e o Professor Olavo ressalta isso, a alma humana é dócil à razão. O ser humano deseja conhecer, tem sede de sabedoria e é isso que o conduz ao caminho do bem.

O progresso do conhecimento leva à maturidade intelectual. Este é o Spoudaios, o homem de cultura que lê simultaneamente nesses quatro níveis, conforme explicado na Teoria dos Quatro Discursos.

Ele tem o domínio balanceado da razão frente aos vários impulsos discordantes que se agitam em sua alma. Essa maturidade envolve a experiência real dos fatos, conceitos, evidências, discussões e tensões humanas.

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