Elton Mesquita
Interregno - Esperando o retorno do Rei
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Uma Vida N’Outra Vida (Parte 1 de 2)

Por 
Elton Mesquita
4/21/2022
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Sempre me incomodou um pouco a impermeabilidade brasileira para com Portugal. Não digo nos centros acadêmicos ou nos círculos privilegiados onde se supõe que o amor à tradição e à História corra junto com o dinheiro, mas sim no âmbito do povo e dessa grande classe mais ou menos média, das pessoas que vivem o dia-a-dia algo insosso do trabalho e do barzinho e participam ainda que apenas passivamente do cirquinho que já foi nossa vida cultural.

"(E enquanto prossegue na leitura, escute aqui a razão do título.)"

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Numa entrevista durante as celebrações dos 500 anos do Descobrimento, o Dr. Francisco Treichler Knopfli, Ex-embaixador de Portugal no Brasil, quando perguntado sobre o estado das relações entre Brasil e Portugal, fala sobre “o plano político-institucional”, onde se desenrolam tentativas de aproximação por meio de “semanas de exposições” organizadas por comissões bilaterais, “acordos de fomentação cultural mútua” etc. 

Isto faz parecer que se trata de um assunto oficialesco, a ser tratado em termos rígidos, com pauta e carta formal de intenções entre Governos — quando na verdade se trata de assunto pessoal, urgente, que diz respeito à vida comum dos brasileiros, ao seu dia-a-dia. 

Me ressinto da ausência de um convívio mais fácil e íntimo com a herança portuguesa, da falta que faz uma presença mais pronunciada de tudo o que é português, para além dos moldes fáceis da piada de estereótipos, no “plano do cidadão cotidiano”, como diz Alberto da Costa Silva, embaixador do Brasil em Portugal no livro “Incertas Relações: Brasil-Portugal no Século XX”, de Benjamin Abdala Junior.

Para me fazer compreender melhor, acho que só preciso mencionar a maneira como podemos sentir a proximidade dos Estados Unidos em nossas obsessões pop, nos assuntos de que tratamos em nossos momentos mais descontraídos. 

A incongruência salta à vista: O pessoal acompanha as séries de lá, sabe das fofocas do showbiz e dos desenvolvimentos políticos, o jornal dá a notícia do incendiozinho e tudo o mais — uma proximidade que se sente cada vez mais imediata, acentuada pela internet.

A tendência é que a barreira entre as eleições afetivas culturais — que antes seria um pouco mais influenciada pela geografia — fique ainda mais tênue e imprevisível: Mais e mais guris brasileiros com talento pra desenho têm o traço aliciado pelo estilo do mangá, já há todo um público nacional para filmes coreanos ultraviolentos, o tumblr das moças está cheio de fotos em preto e branco de e musas da nouvelle vague — e no entanto, cadê Portugal? Se você arremessar uma pedra na rua, não vai conseguir acertar alguém que não saiba quem é Jerry Seinfeld. Quantos sabem quem é Ricardo Araújo Pereira?

Claro que se pode dizer que a proeminência dos EUA é apenas natural, uma vez que a internet veio deles com todo um agregado de símbolos e valores aos quais tivemos que nos acostumar, para bem a utilizarmos. 

É um argumento sensato, mas que não se aplica aqui. O post não é sobre por que os EUA têm presença que têm, e sim porque Portugal não tem presença nenhuma. Igualmente, considerações sobre a diluição da influência portuguesa decorrente da afluência de europeus e orientais são apreciadas, mas não têm muita utilidade. 

Não quero saber dos outros: Falo de Portugal e de Portugal somente. Todo o arrazoado de base econômica fica deslocado aqui, pois para mim este problema antes de mais nada é um assunto de família (um tema por si só irredutivelmente português). 

Considerando que se tratam de países com produções culturais que compartilham apenas o mesmo idioma, não deve ser difícil entender por que me entristeço, me exaspero — e me preocupo.

Entristeço-me por notar que se trata de uma ignorância voluntária que parece não ter contrapartida do lado Português. Me parece que os gajos lá conhecem nossas gírias parvas e as modas mais ridículas via telenovelas e bandinhas de música débil. 

De uma forma ou de outra — pelas novelas, música ruim ou prostitutas nordestinas — a impressão que tenho é que Portugal ainda parece ter de alguma forma o Brasil na periferia de suas atenções. Resultado, decerto, da profunda impressão psíquica que a aventura ultramarina deixou no povo português. 

Uma ligação que eu não estranharia ver confirmada no que diz respeito a cada pedaço de terra onde afinal houve sangue Luso, derramado e investido — onde tenha ocorrido a aventura, compartilhada por um povo, de conquista, expansão e riqueza.

“O Brasil é a minha reconciliação com Portugal da qual não prescindo. […] a conclusão de que no meio do chuvisco cobarde do frio português, a descoberta do Brasil foi o nosso maior feito”. — Clara Ferreira Alves, na coluna semanal no Expresso

Mas não há uma correspondência desse tipo em sentido contrário. Não estou dizendo que em Portugal está havendo uma Renascença geral nem nada, também não é o caso de exibirem a telenovela portuguesa “Morangos com Açúcar” aqui (se você não sabe o que é, não se dê ao trabalho)

Mas o fato é que, se se tratasse de uma Renascença, provavelmente a perderíamos, já que muito claramente não estamos olhando para aquela direção com a atenção devida. Imagino que meu ponto ainda pareça obscuro ou despropositado, então tentemos dessa forma:

Em “A Ilustre Casa de Ramires”, o último romance de Eça de Queirós, somos apresentados ao protagonista Gonçalo Mendes Ramires, um aristocrata de família quase milenar, “mais antiga que os Reis de Portugal”, que no século XIX se encontra reduzida a mera sombra do seu fulgor medievo. 

Ele vive de renda entre criados que o cercam de mimos sufocantes, num ambiente modorrento, de horizontes exíguos. Perto de completar 30 anos, Gonçalo se sente esmagado entre a perspectiva de uma vida não-realizada e sua ambição desmedida e sonhadora, entre a grandeza heróica de seus antepassados e as afrontas de um valentão grosseiro que o insulta dentro de suas próprias terras.

Não é preciso avançar muito no livro para perceber que Gonçalo resume em si as qualidades e defeitos de Portugal — que ele é Portugal, ainda mordido pelo Ultimato de 1890, insatisfeito consigo próprio e um tanto sem rumo, se apercebendo talvez tarde demais das dificuldades que o novo mundo apresentava em seu caminho; esmagado por séculos de realizações que principiavam a já não valer nada, ou muito pouco, e assistindo impotente ao esvaimento dos seus melhores anos.

Eu, que não consigo olhar para trás na minha família mais que duas gerações, e que me vejo um tanto como erva daninha (planta de raízes curtas, dada a brotar não em jardins bem cuidados mas entre as rachaduras do concreto, em pouco espaço negociável, e um tanto à revelia), só poderia mesmo achar fascinante a imagem dos ramos familiares de uma árvore genealógica espraiando-se séculos para trás no tempo. 

Nisto eu talvez reflita meu próprio país, também ele de raízes ainda curtas, nascido ao acaso, de desenvolvimento instável, feito às arrancadas inconstantes e privado de certas regalias que para outras nações são tomadas como certas. 

A ausência do passado (passado que para Gonçalo Mendes Ramiro parecia opressivo, sufocante), para mim é uma experiência vertiginosa, como existir solto no ar, à mercê dos ventos. 

Suponho que para uma erva daninha solta no mundo deva ser um pouco mais pronunciada a constatação — sem dúvida compartilhada pela espécie — , de sermos penetras em uma festa pela vida afora, nunca se esquecendo de todo do momento em que seremos finalmente descobertos e expulsos. Um desenraizamento que sem dúvida tem suas vantagens, mas não deixa de ter seu quinhão de momentos melancólicos.

O romance de gênio é necessariamente desagregador, e o escritor, um estrangeiro. Isto acrescenta mais uma camada de estranhamento às minhas relações com o lugar e tempo em que estou.

Há também o fato de que escritores são no mais das vezes gente que apenas observa e comenta (em que pese haver um grande número de escritores que foram também revolucionários ou homens de ação), a partir do ponto de vista privilegiado que só a distância dos acontecimentos permite. 

Pois a História é feita pelos outros, “o pessoal que trabalha”, como disse certo roqueiro. Pelas gerações familiares cujas vidas entretecidas formam a identidade e a memória do país. Talvez, se eu chegasse perto o suficiente dessa malha, se pudesse penetrá-la, fosse achá-la no final sórdida, mesquinha ou banal. 

Mas vejo-a de longe no tempo, em documentos e fotos, e minha imaginação trabalha sobre esses testemunhos silenciosos, recriando um panorama geral de trabalho nobre e luta apaixonada.

“Bem”, alguém pode dizer, “você pode olhar 500 anos para trás, no Brasil. Não há de ser pouca coisa”. Não é despiciendo, é fato, mas também não é o bastante. 

Somos ainda verdes, e nos encontramos na desagradável situação de já termos esquecido de que algo muito importante nos tem faltado. Nos faltam lastros, como o antigo lastro grego. Somos todos um tanto Homeros; podemos dizer como ele, do período épico em que a humanidade forjava sua consciência em noites iluminadas apenas pelo fogo: “não vimos os fatos, sabemos apenas de ouvir falar”.

(…) Mas o que a elles não toca
é a Magia que evoca
o Longe e faz d’elle história.
(…)
“Mensagem”, de Fernando Pessoa — Segunda Parte: Mar Portuguez — Os Colombos

CONTINUA na próxima coluna. Até lá.

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