Mariana Goelzer
Diálogos entre nós
Diálogos entre nós

À hora de partir

Por 
Mariana Goelzer
5/4/2022
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Poucas atividades são tão desafiadoras - e ao mesmo tempo tão inestimavelmente importantes - quanto determinar, a cada situação, qual a decisão mais acertada. Assim exposto, tal fato nos parece óbvio e incontestável; mas é na miudeza das escolhas cotidianas que a inconsciência acerca do caráter basilar dessa verdade fundamental torna-se nítida.

Nestes momentos, obnubila-se que é na concatenação de pareceres aparentemente levianos que se encontra o espaço para forjar a forma que em nós ficará imortalizada à hora de partir.

Essa falta de clareza não deixa incólume o seu portador, constituindo uma barreira praticamente intransponível à expressão da máxima capacidade nele contida. Reside naquele interior uma semente não frutificada e que, portanto, sofre para encontrar um sentido para sua vida. Àqueles mais conscientes, entretanto, não está destinada necessariamente uma salvação. 

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Muitos dos que já entenderam a relevância das pequenezas do dia a dia, sobrecarregados pelo peso da missão, entregam-se às fórmulas-prontas do dever-ser mais popular. Se no caso anterior impera um deixar-se levar, neste há uma disposição para concretizar aquela lista de realizações inevitáveis, sem perceber que, com este movimento, o sujeito também sacrifica sua individualidade no altar das concepções sociais.  

Essa maligna tentação, que aliena o ser de si mesmo, não é uma novidade de nossos tempos. Em A morte de Ivan Ilitch, Tolstoi nada mais faz do que nos aprisionar no corpo de um moribundo que, ao confrontar o fim, descobriu que toda sua vida não passou de uma tentativa irrefletida de repetir as prescrições da sociedade.

Para nós, leitores, a imersão nessa condição desesperadora, magistralmente tecida pelo escritor, tem função medicinal. Esse remédio, de sabor amargo, convida-nos a analisar nossos atos, a nós mesmos, a nossa história, para precisar as manifestações do nosso abandono interior em prol da homogeneização proposta pela comunidade. Num exame minucioso, vemo-nos constrangidos a encarar que muitas de nossas escolhas (senão a maioria delas) não são uma expressão do nosso eu profundo e íntimo, e sim a mera representação do que é esperado de nós. 

Ao fundir a nossa experiência com a de sua personagem principal, Tolstoi nos conduz por aquele difícil exercício de meditar sobre a morte, usando-a como um precioso instrumento de ajuste à balança que revela quais são os bens preciosos para nós e nos quais devemos empenhar nossa existência. Em 76 páginas, acusa nosso erro e fornece simultaneamente a via para uma possível redenção. 

Ser pego uma vez em flagrante delito e confessar o crime, no entanto, não é suficiente. Mantermo-nos fiéis à nossa singularidade demanda vigilância e correção rotineiras, para que, quando a hora de partir chegar, não sejamos mais um Ivan Ilitch experimentando a tortura de não termos sido nós mesmos, mas a glória de, mesmo em face de vicissitudes e empecilhos, termos feito frutificar proficuamente os dons que nos foram dados. 

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