O discurso de Martin Luther King! “Eu Tenho um Sonho” na íntegra e com análise

Redação Brasil Paralelo
Redação Brasil Paralelo

Naquele dia, mais de 250 mil pessoas o ouviram. Martin Luther King nunca defendeu a violência lutando pelos direitos civis dos negros nos EUA. Seu discurso mais emblemático chama-se I Have a Dream (“Eu Tenho um Sonho”), que será analisado na íntegra.

O contexto no qual ele está inserido é o da violência racial nos Estados Unidos, e este foi um dos temas abordados na trilogia O FIM DAS NAÇÕES, que mostra como os acontecimentos nos EUA influenciam o mundo inteiro.

Entenda o que é o Século Americano e por que deveríamos nos preocupar. Confira o trailer:

O que você vai encontrar neste artigo?

  1. Quem foi Martin Luther King?
  2. O que Martin Luther King fez?
  3. I Have a Dream – Discurso de Martin Luther King na íntegra;
  4. Análise do discurso I Have a Dream (“Eu Tenho um Sonho”);
  5. Ethos, Pathos e Logos no discurso de Martin Luther King;
  6. Eu estive no topo da montanha;
  7. Como Martin Luther King morreu?

Quem foi Martin Luther King?

Martin Luther King Jr. foi um pastor e ativista norte-americano. Lutou contra a discriminação racial nos Estados Unidos da América e tornou-se um dos mais importantes líderes do movimento pelos direitos civis dos negros.

Em 1964, foi o homem mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz, aos 35 anos.

Martin Luther King nasceu em 15 de janeiro de 1929, na cidade de Atlanta, Geórgia, Estados Unidos. Seu pai e seu avô eram pastores na Igreja Batista. Ele seguiu o mesmo caminho.

Em 1951, formou-se em Teologia na Universidade de Boston. Em 1954, tornou-se pastor. Exercendo sua função, foi responsável pela igreja na cidade de Montgomery, Alabama. Além disso, integrou a “Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor”.

Sua esposa chamava-se Coretta Scott King e com ela teve quatro filhos:

  1. Yolanda King;
  2. Martin Luther King III;
  3. Dexter Scott King;
  4. Bernice King.

O que Martin Luther King fez?

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Martin Luther King lutou para que os negros tivessem os mesmos direitos civis dos brancos. Fez isso nos Estados Unidos da América, mas se tornou um ícone mundial.

Desde jovem, notou que em todo o território, principalmente nos estados do Sul, a segregação social e racial era uma realidade a ser enfrentada.

Seu modo era pacífico e sua resistência era firme. Os discursos de Martin Luther King não promoviam a violência e eram muito eloquentes, assim tornaram-se muito famosos. Suas palavras continuam a inspirar pessoas ainda hoje.

O primeiro movimento que obteve êxito em território americano foi em Montgomery, onde ele era pastor. Um protesto começou depois que a costureira negra Rosa Parks foi detida e multada por assentar-se nos lugares destinados os brancos no ônibus.

Martin Luther King apoiou o boicote aos ônibus. Gradativamente, milhares de negros deram prejuízo às empresas de ônibus, porque passaram a caminhar quilômetros para o trabalho. Foram 382 dias até que, em 13 de novembro de 1956, a Suprema Corte aboliu a segregação racial nos ônibus.

No dia 21 de novembro do mesmo ano, Martin Luther King ao lado de um sacerdote branco, Glen Smiley, assentou-se nos primeiros lugares de um ônibus.

Luther King também foi o fundador da Conferência da Liderança Cristã do Sul e organizou várias campanhas pelos direitos civis negros. Ele esteve presente em passeatas, greves, fez grandes discursos, que ainda veremos na íntegra, e muito mais.

Em 1960, foi ele quem obteve acesso de negros a ambientes onde antes eram proibidos de estar, tais como: lanchonetes, bibliotecas e parques públicos.

I Have a Dream – Discurso de Martin Luther King na íntegra

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Um dos discursos mais conhecidos de Martin Luther King chama-se I Have a Dream. Ocorreu no dia 28 de agosto de 1963 para mais de 250 mil pessoas reunidas na Marcha sobre Washington.

O ato havia sido convocado por organizações religiosas, sindicatos e movimentos populares. A intenção era uma só: igualdade nos direitos civis da população negra dos Estados Unidos.

Várias leis regionais (leis Jim Crow) ainda previam a segregação, proibindo os negros de frequentarem os mesmos espaços que os brancos.

Em pé, nos degraus do Lincoln Memorial, ele discursou:

“Estou contente de me reunir hoje com vocês nesta que será conhecida como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.
Há dez décadas, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos hoje, assinou a Proclamação da Emancipação. Esse magnífico decreto surgiu como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que arderam nas chamas da árida injustiça. Ele surgiu como uma aurora de júbilo para pôr fim à longa noite de cativeiro.
Mas cem anos depois, o negro ainda não é livre. Cem anos depois, a vida do negro ainda está tristemente debilitada pelas algemas da segregação e pelos grilhões da discriminação.
Cem anos depois, o negro vive isolado numa ilha de pobreza em meio a um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o negro ainda vive abandonado nos recantos da sociedade na América, exilado em sua própria terra. Assim, hoje viemos aqui para representar a nossa vergonhosa condição.
De uma certa forma, vimos à capital da nação para descontar um cheque. Quando os arquitetos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração da Independência (sim), eles estavam assinando uma nota promissória da qual todos os americanos seriam herdeiros. A nota era uma promessa de que todos os homens, sim, negros e brancos igualmente, teriam garantidos os ‘direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca da felicidade’.
É óbvio neste momento que, no que diz respeito a seus cidadãos de cor, a América não pagou essa promessa. Em vez de honrar a sagrada obrigação, a América entregou à população negra um cheque ruim, um cheque que voltou com o carimbo de ‘sem fundos’.
No entanto, recusamos a acreditar que o banco da justiça esteja falido. Recusamos a acreditar que não haja fundos suficientes nos grandes cofres de oportunidade desta nação. E, assim, viemos descontar esse cheque, um cheque que nos garantirá, sob demanda, as riquezas da liberdade e a segurança da justiça.
Viemos também a este glorioso local para lembrar a América da urgência feroz do momento. Não é hora de se comprometer com o luxo do comedimento ou de tomar o tranquilizante do gradualismo. Agora é hora de concretizar as promessas da democracia (sim, Senhor).
Agora é hora de deixar o vale sombrio e desolado da segregação pelo caminho ensolarado da justiça racial. Agora é hora de conduzir a nossa nação da areia movediça da injustiça racial para a sólida rocha da fraternidade. Agora é hora de tornar a justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.
Seria fatal para a nação ignorar a urgência do momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos negros não passará até que haja um outono revigorante de liberdade e igualdade. O ano de 1963 não é um fim, mas um começo. E aqueles que agora esperam que o negro se acomode e se contente terão uma grande surpresa se a nação voltar a negociar como de costume.
E não haverá descanso nem tranquilidade na América até que se conceda ao negro a sua cidadania. As tempestades da revolta continuarão a balançar os alicerces da nossa nação, até que floresça a luminosa manhã da justiça.
Mas há algo que devo dizer a meu povo, diante da entrada reconfortante do Palácio da Justiça: ao longo do processo de conquista do nosso merecido lugar, não podemos nos condenar com atos criminosos. Não devemos saciar a nossa sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio. Devemos sempre conduzir a nossa luta no mais alto nível de dignidade e disciplina.
Não podemos permitir que o nosso protesto degenere em violência física. Vezes sem fim, devemos nos elevar às majestosas alturas para confrontar a força física com a força da alma.
A nova e maravilhosa militância que engolfou a comunidade negra não deve nos levar a desconfiar de todos os homens brancos, pois muitos de nossos irmãos brancos, como se torna evidente com a sua presença aqui hoje, compreenderam que o seu destino está ligado ao nosso.
Eles compreenderam que a sua liberdade está atada à nossa, de forma inextricável. Não podemos caminhar sozinhos. E, enquanto caminhamos, devemos prometer que sempre marcharemos adiante. Não podemos voltar.
Há quem pergunte aos devotos dos direitos civis: ‘Quando ficarão satisfeitos?’ (Nunca). Não ficaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos inenarráveis horrores da brutalidade policial. Não ficaremos satisfeitos enquanto os nossos corpos, pesados pela fadiga da viagem, não obtiverem hospitalidade nos hotéis das rodovias e das cidades.
Não ficaremos satisfeitos enquanto a única mobilidade social a que um negro possa aspirar seja deixar o seu gueto por um outro maior. Não ficaremos satisfeitos enquanto os nossos filhos forem despidos de sua personalidade e tiverem a sua dignidade roubada por cartazes com os dizeres ‘só para brancos’.
Não ficaremos satisfeitos enquanto o negro do Mississippi não puder votar e o negro de Nova York acreditar que não há por que votar. Não e não. Não estamos satisfeitos e nem ficaremos satisfeitos até que ‘a justiça jorre como uma fonte; e a equidade, como uma poderosa correnteza’.
Não ignoro que alguns de vocês enfrentaram inúmeros desafios e adversidades para chegar até aqui (sim, Senhor). Alguns de vocês recentemente abandonaram estreitas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de regiões onde a busca por liberdade deixou-os abatidos pelas tempestades da perseguição e abalados pelos ventos da brutalidade policial.
Vocês são os veteranos do sofrimento profícuo. Continuem a lutar com a fé de que o sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Louisiana, voltem para os cortiços e para os guetos das cidades do Norte, conscientes de que, de algum modo, essa situação pode e será transformada (sim). Não afundemos no vale do desespero.
E digo-lhes hoje, meus amigos, mesmo diante das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho, um sonho profundamente enraizado no sonho americano.
Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e experimentará o verdadeiro significado de sua crença: ‘Acreditamos que essas verdades são evidentes, que todos os homens são criados iguais’ (sim).
Eu tenho um sonho de que um dia, nas encostas vermelhas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos sentarão ao lado dos filhos dos antigos senhores, à mesa da fraternidade.
Eu tenho um sonho de que um dia até mesmo o estado do Mississippi, um estado sufocado pelo calor da injustiça, sufocado pelo calor da opressão, será um oásis de liberdade e justiça.
Eu tenho um sonho de que os meus quatro filhos pequenos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter (Sim, Senhor). Hoje, eu tenho um sonho!
Eu tenho um sonho de que um dia, lá no Alabama, com o seu racismo vicioso, com o seu governador de cujos lábios gotejam as palavras ‘intervenção’ e ‘anulação’, um dia, bem no meio do Alabama, meninas e meninos negros darão as mãos a meninas e meninos brancos, como irmãs e irmãos. Hoje, eu tenho um sonho.
Eu tenho um sonho de que um dia todo vale será alteado (sim) e toda colina, abaixada; que o áspero será plano e o torto, direito; ‘que se revelará a glória do Senhor e, juntas, todas as criaturas a apreciarão’ (sim). Esta é a nossa esperança, e esta a fé que levarei comigo ao voltar para o Sul (sim). Com esta fé, poderemos extrair da montanha do desespero uma rocha de esperança (sim). Com esta fé, poderemos transformar os clamores dissonantes da nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade.
Com esta fé (sim, Senhor), poderemos partilhar o trabalho, partilhar a oração, partilhar a luta, partilhar a prisão e partilhar o nosso anseio por liberdade, conscientes de que um dia seremos livres. E esse será o dia, e esse será o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com um renovado sentido:
O meu país eu canto. Doce terra da liberdade, a ti eu canto.
Terra em que meus pais morreram, / Terra do orgulho peregrino, / Nas encostas de todas as montanhas, que a liberdade ressoe!
E se a América estiver destinada a ser uma grande nação, isso se tornará realidade.
E, assim, que a liberdade ressoe (sim) nos picos prodigiosos de New Hampshire.
Que a liberdade ressoe nas grandiosas montanhas de Nova York.
Que a liberdade ressoe nos elevados Apalaches da Pensilvânia.
Que a liberdade ressoe nas Rochosas nevadas do Colorado.
Que a liberdade ressoe nos declives sinuosos da Califórnia (sim).
Mas não apenas isso: que a liberdade ressoe na Montanha de Pedra da Geórgia (sim).
Que a liberdade ressoe na Montanha Lookout do Tennessee (sim).
Que a liberdade ressoe em toda colina do Mississippi (sim). Nas encostas de todas as montanhas, que a liberdade ressoe!
E quando acontecer, quando ressoar a liberdade, quando a liberdade ressoar em cada vila e em cada lugarejo, em cada estado e cada cidade, anteciparemos o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, juntarão as mãos e cantarão as palavras da velha canção dos negros:
Livres afinal! Livres afinal!
Graças ao Deus Todo-Poderoso, / Estamos livres afinal!”

A seguir, um trecho deste discurso feito por ele, em vídeo com reconstituição em cores:

Análise do discurso I Have a Dream (“Eu Tenho um Sonho”)

O discurso de Martin Luther King Jr., tornou-se emblemático não apenas por seu conteúdo e motivação, mas também por sua forma, técnica e qualidade retórica. É considerado um dos melhores discursos de todos os tempos e também o melhor do século XX.

Seu discurso emblemático foi elaborado em caráter profético, pois lança o olhar sobre um futuro com uma realidade diferente e melhor. Neste sentido, aparece uma forte presença das virtudes cristãs: fé e esperança, principalmente.

Martin Luther King precisava encorajar os presentes, pessoas acostumadas a sofrer com a segregação, divididas entre agir com violência ou não.

O pastor ativista dos direitos civis negros disse que o dia 28 de agosto de 1963 entraria para a história, o que de fato aconteceu.

Para compreender melhor o contexto do problema e da violência racial nos EUA, assista ao episódio 2 da trilogia gratuita O FIM DAS NAÇÕES.

Referência a Abraham Lincoln

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Em seu discurso, ele diz que há cem anos um grande americano assinou a Proclamação de Emancipação, pondo fim à escravidão. Disse também que eles estavam simbolicamente sob sua sombra.

Ao dizê-lo, ele estava se referindo ao ex-presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, que em 1º de janeiro de 1863 proclamou a libertação dos escravos.

De fato, estavam sob sua sombra, pois no local do discurso há uma estátua do presidente, com mais de 9 metros.

Ele também fez uma citação direta a uma fala de Thomas Jefferson, presente na Declaração de Independência:

“Afirmamos que estas verdades são evidentes; que todos os homens foram criados iguais”.

Assim, chamou a atenção para algo que não estava sendo vivido, que não estava acontecendo.

Os arquitetos da República

Ao citar a Constituição e a Declaração de Independência, ele faz referência aos arquitetos da República.

São eles: John Adams, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, John Jay, Thomas Jefferson, James Madison e George Washington. Estes foram os envolvidos na redação dos importantes documentos fundadores dos Estados Unidos.

Desobediência civil

Em seu discurso, Martin Luther King propôs enfrentar a força física com a força da alma. Sua proposta era a de uma luta completamente sem violência.

Alguns grupos como o Malcolm X e a Nação Islã defendiam que todos os meios eram lícitos para combater a discriminação, mas Luther King propôs a estratégia da desobediência civil e não a da violência.

Isto significa opor-se à obediência de leis injustas de forma pacífica.

O governador do Alabama

O governador do estado do Alabama encorajava a segregação entre raças e se opunha veementemente aos direitos civis. Seu nome era George Wallace e ele também recebeu uma menção no discurso de Martin Luther King.

Por isso, ele foi enfático sobre as crianças negras e brancas darem-se as mãos no Alabama.

A este respeito, conheça Ruby Bridges, a primeira criança negra a estudar em uma escola exclusiva para brancos:


Isaías 40,4-5

Sabemos que Luther King Jr. era pastor assim como seu pai e seu avô. Em seu discurso, diz que todo vale será exaltado, todas as colinas e montanhas serão niveladas […] e a glória do Senhor será revelada e todos os seres verão, juntamente. Esta é uma passagem bíblica, que está no livro do profeta Isaías.

A fé é um elemento importante no discurso de Luther King, pois ele inflama seus ouvintes a crer que as coisas mudarão para melhor e que vale a pena ter esperança.

My Country ‘Tis of Thee

Este é o nome de uma canção patriótica com ideais americanos, como a liberdade. Um trecho dela também está presente no discurso:

“Meu país é ti, doce terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, de cada montanha que ressoe a liberdade”.

Por esta razão, ele repete várias vezes a expressão “que ressoe a liberdade”. No final do discurso, os presentes cantaram esta canção de mãos dadas.

A importância da repetição

Em vários momentos do discurso de Martin Luther King Jr. vemos repetições de frases:

  • “Eu tenho um sonho” (I have a dream);
  • “Ressoe a liberdade” (Let freedom ring).

Um dos principais elementos de um bom discurso é a repetição que cria um ritmo e leva à memorização. Assim, o orador termina, mas os ouvintes continuam a recordar-se do âmago do que foi declarado.

Ao repetir “eu tenho um sonho”, Luther King imortalizou o principal aspecto de seus discurso na luta pelos direitos civis: o sonho da igualdade no tratamento digno entre as pessoas.

Ethos, Pathos e Logos no discurso de Martin Luther King

Do grego Ethos deriva a palavra ética. Este é um elemento que pode estar no discurso, que se vincula à moralidade de quem discursa.

Luther King era um pastor e um líder ativista reconhecido, presente junto àqueles com quem lutava. Ele era uma autoridade, e por ser ele quem falava, havia uma credibilidade maior nas palavras. Ele inspirava confiança nos ouvintes. Estavam ouvindo alguém ético, contrário à violência.

Sua voz também era um elemento que contribuía para sua autoridade, pois falava com firmeza, certeza e gravidade.

Do grego Pathos deriva a palavra empatia. Em um discurso, isto representa a emoção gerada no público, o sentimento. Este é o aspecto mais forte no discurso de Martin Luther King.

Ao abordar a fé, os sonhos, a liberdade, o futuro realizado daqueles que sofrem, ele está dialogando diretamente com a dor daqueles que o ouvem, ao mesmo tempo em que conduz cada um a acreditar que isto vai acabar.

De Logos, temos a lógica. Embora seu discurso não seja intelectual, difícil de ser entendido ou pedagógico, notamos uma sequência lógica, fundamentada e ordenada. Ele contextualiza o problema, retoma a história e faz citações.

Os dois atos do discurso

Separando o discurso em dois atos, notamos um que descreve o problema, enumera as injustiças, propõe a desobediência civil no lugar da violência, e enfatiza que a conquistas históricas do país estavam sendo ignoradas.

Nesta primeira parte, fica evidente que mesmo que esteja escrito que todos são iguais, não é o que está acontecendo, por causa de pessoas ruins.

No segundo ato do discurso de Martin Luther King, notamos as projeções futuras. Os problemas ficaram para trás e ele agora olha para uma realidade onde não haverá o sofrimento do presente.

Seu sonho envolve liberdade para os negros estarem onde quiserem, e mais adiante, seu sonho envolve a reunião daqueles que verão, juntos, a glória do Senhor.

Eu estive no topo da montanha

Este foi o último discurso de Martin Luther King, antes de morrer assassinado.

Sem anotações, aparentemente de forma não premeditada, ele discursou para 11 mil pessoas em Memphis:

“Como qualquer pessoa, eu gostaria de viver uma longa vida. A longevidade tem seu lugar. Mas eu não estou preocupado com isso agora. Eu só quero fazer a vontade de Deus. E ele me permitiu subir a montanha. E eu olhei em volta e vi a Terra Prometida. Talvez eu não entre lá com vocês, mas eu quero que saibam, esta noite, que nós, como um povo, entraremos na Terra Prometida. Então, eu estou feliz essa noite. Eu não estou preocupado com nada. Eu não estou com medo de nenhum homem. Meus olhos viram a glória da vinda do Senhor”.

Ouça abaixo o discurso do próprio Martin Luther King:

Não seria a primeira vez que ele falava que tinha contemplado a Terra Prometida. Não estava vivendo um perigo maior do que já havia vivido. Em vários momentos, ele também havia falado de morte:

“Se você não descobriu por que está disposto a morrer, não merece viver”.

Por causa de um ataque que sofrera com estilete, ele carregava no peito uma cicatriz, que envolvia uma possibilidade de morrer por complicações na aorta, no coração:

“Toda manhã, quando escovo os dentes e lavo o rosto, esta cicatriz em forma de cruz no peito me lembra que qualquer dia pode ser o meu último nesta terra”.

Andrew Young, confidente de Luther King, e que estava com ele naquele dia, afirmou que nunca o havia visto tão abatido. No entanto, ele deixou isso de lado e proferiu sua última profecia.

Como Martin Luther King morreu?

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No dia seguinte ao de seu último discurso, aos 39 anos, levou um tiro e sua morte foi instantânea. A bala acertou a espinha dorsal logo abaixo do queixo.

O pastor Martin Luther King Jr. foi assassinado em 4 de abril de 1968, enquanto se preparava para uma marcha civil em Memphis, no Tennessee. Não se sabe de quem foi a autoria do crime e “quem matou Martin Luther King” é ainda uma pergunta sem resposta.

A notícia do assassinato se espalhou e revoltas proliferaram-se pelo país. Foi a maior onda de violência urbana desde a Guerra Civil. Grandes áreas metropolitanas foram queimadas, e em menos de um mês, mais de 40 pessoas morreram nos protestos.

Os prejuízos, ajustados aos valores de hoje, chegaram aos 161 milhões de dólares.

Após sua morte, ele recebeu homenagens, por exemplo:

  • Medalha Presidencial da Liberdade, em 1977, entregue à sua esposa.
  • Medalha de Ouro do Congresso em 2004, pelos 50 anos da promulgação da Lei dos Direitos Civis.

Em 1986, foi estabelecido o dia de Martin Luther King (Martin Luther King Day) como feriado federal nos EUA. Desde então, ele é lembrado desta forma especial em 20 de janeiro.

Saiba como o chamado “Século Americano” pode afetar nossas vidas e como a China e a Rússia estão na disputa pelo posto de lideranças mundiais no lugar dos EUA. Assista à trilogia gratuita O FIM DAS NAÇÕES.

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