Curadora fala em censura, mas o museu afirma que a mostra terminou para permitir a montagem de duas novas exposições.

A exposição sobre funk no Museu da Língua Portuguesa foi encerrada antes do prazo depois de virar alvo de denúncias sobre referências a drogas, armas, sexualidade e possível exposição de adolescentes a conteúdo inadequado.
A mostra Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade entrou em cartaz em novembro de 2025 e foi encerrada no último dia 31 de maio. Em páginas oficiais, a previsão inicial indicava permanência até agosto.
Parlamentares e influenciadores ligados ao PL estiveram na exposição e publicaram vídeos com críticas ao conteúdo exibido. Eles apontaram obras com referências a drogas, armas, bailes, corpos seminus, sexualidade e críticas à atuação policial.
Também afirmaram que a mostra poderia expor adolescentes a conteúdo inadequado durante visitas escolares.
Curadora aponta para censura
A curadora Renata Prado classificou o encerramento como censura. O Museu da Língua Portuguesa negou e afirmou que a mostra terminou para permitir a montagem de duas novas exposições.
O caso chegou ao Ministério Público de São Paulo, que abriu procedimento preliminar para apurar se houve exposição de crianças e adolescentes a conteúdo incompatível com a classificação indicativa da mostra, que era de 14 anos.
A disputa chama atenção porque ocorreu dentro de uma instituição criada para valorizar a diversidade da língua portuguesa.
No próprio site, o museu afirma que seu objetivo é:
“valorizar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento fundamental e fundador da cultura e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundo”.
De acordo com o site oficial da mostra, o funk é “nascido das periferias urbanas” e estudado por pesquisadores como “um dos movimentos culturais mais influentes do país”.
A descrição afirma ainda que o gênero se apresenta como “linguagem estética, política e social” capaz de transformar modos de falar, vestir e criar.
Foi esse ponto que levou a exposição para dentro do Museu da Língua Portuguesa. E foi esse mesmo ponto que gerou polêmica.
Entre as atrações estavam imagens e símbolos associados a drogas, armas, sexualidade, bailes, críticas à polícia e crime organizado.
A abordagem foi denunciada por parlamentares e influenciadores. Com isso, a discussão deixou de tratar apenas do funk como expressão cultural.
O debate passou a envolver outra questão: o que pode ser exibido em um museu público, financiado com incentivo fiscal e visitado por crianças e adolescentes?
A mostra foi concebida originalmente pelo Museu de Arte do Rio e, em São Paulo, ganhou conteúdos sobre o funk paulista.
O projeto reunia 473 obras e itens de acervo, entre pinturas, fotografias, vídeos, registros audiovisuais e objetos ligados à história do gênero. A classificação indicativa era de 14 anos.
Em vídeo divulgado pelo museu, Roberta Saraiva, diretora técnica da instituição, afirmou que a exposição buscava atrair um público que normalmente não frequenta museus.
Ela afirmou que a proposta era “abraçar também essa juventude de um movimento que é contemporâneo”.
Vídeos publicados na internet, no entanto, mostraram crianças ouvindo conteúdos da mostra, indicando que a exposição também alcançou menores de 14 anos.
Esse ponto se tornou um dos pontos centrais da denúncia.
Parlamentares e influenciadores ligados ao PL estiveram na exposição e publicaram vídeos com críticas ao conteúdo exibido.
Eles apontaram obras com referências a drogas, armas, bailes, corpos seminus, sexualidade e críticas à atuação policial.
Também afirmaram que a mostra poderia expor adolescentes a conteúdo inadequado durante visitas escolares.
O deputado estadual Tenente Coimbra acionou o Ministério Público de São Paulo. O vereador Lucas Pavanato e o ex-lutador Felipe Sertanejo também denunciaram a exposição.
A acusação afirma que a mostra faria apologia ao crime organizado e à erotização de crianças.
Coimbra afirmou que não queria criminalizar a arte ou a cultura, mas considerava inadequado que um equipamento do Estado recebesse aquele tipo de conteúdo.
O Ministério Público de São Paulo abriu procedimento preliminar de apuração. O órgão afirmou que não faz juízo artístico, curatorial, político ou cultural sobre a exposição.
Segundo o MP, o objetivo é verificar se houve possível exposição de crianças e adolescentes a conteúdo eventualmente incompatível com a classificação indicativa atribuída à mostra, especialmente diante da informação de visitas escolares.
Foram enviados ofícios ao museu, à Secretaria Municipal de Educação e à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo.
O MPSP também informou que não determinou alteração, interrupção, censura ou encerramento da exposição.
O caso também toca em uma questão mais ampla: a relação entre funk e crime organizado.
O estilo nasceu como expressão cultural ligada a territórios populares e se tornou uma das expressões mais presentes no Brasil. Parte do gênero narra festas, afetos, modos de falar, formas de vestir e cotidiano nas comunidades.
Mas há também uma discussão sobre letras, símbolos e estéticas que representam armas, facções, drogas e confronto com forças policiais.
Esse ponto aparece no documentário Rio de Janeiro: Paraíso em Chamas, da Brasil Paralelo.
A produção mostra como, em certos contextos, símbolos culturais podem ser apropriados por grupos criminosos para vender status, pertencimento e prestígio a jovens das comunidades.
A distinção é essencial: uma coisa é reconhecer o funk como expressão cultural; outra é discutir quando símbolos associados ao crime organizado aparecem em espaços públicos com presença de crianças e adolescentes.
Entenda mais no vídeo abaixo:
Para o museu, a exposição foi encerrada. Mas o tema ficou aberto.
Quando o funk entra em um museu público como linguagem das periferias, imagens de armas, drogas, sexualidade, críticas à polícia e referências associadas ao crime organizado deixam de ser apenas escolhas curatoriais.
Passam a exigir explicação, sobretudo em uma mostra com apoio público e possível presença de crianças e adolescentes.
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