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História•5 min de leitura

Carlos Lacerda: quem foi, como morreu e por que marcou a política brasileira

Jornalista, escritor, deputado e governador, Carlos Lacerda participou de algumas das maiores crises políticas do Brasil no século XX.

Por
Redação Brasil Paralelo
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Carlos Lacerda trabalhando em seu escritório. Foto: Hemeroteca Digital.
Fonte da imagem: Carlos Lacerda trabalhando em seu escritório. Foto: Hemeroteca Digital.

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Carlos Lacerda foi comunista na juventude, tornou-se um dos principais nomes da direita brasileira, sobreviveu a um atentado e ajudou a articular o movimento que derrubou João Goulart em 1964.

Depois, rompeu com a Ditadura Militar, aliou-se a antigos adversários e acabou preso e cassado. Sua trajetória foi marcada por essas reviravoltas.

Quem foi Carlos Lacerda?

Carlos Frederico Werneck de Lacerda nasceu em 1914 e se tornou um dos jornalistas e políticos mais conhecidos de sua geração.

Sua atuação na imprensa ganhou tanta importância quanto sua carreira política. Lacerda utilizava jornais, discursos e posteriormente a televisão como instrumentos de disputa pública.

A capacidade de atacar adversários contribuiu para que ficasse conhecido como um "demolidor de presidentes".

Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart estiveram, em diferentes momentos, entre seus principais adversários.

Mas a imagem de Lacerda não se resume à oposição.

Como governador da Guanabara, tentou construir a reputação de administrador eficiente e realizou grandes obras de infraestrutura no Rio de Janeiro.

A Guanabara era um estado criado em 1960, quando a capital do Brasil foi transferida do Rio de Janeiro para Brasília. Com a mudança, a cidade do Rio deixou de ser o Distrito Federal e passou a constituir o Estado da Guanabara.

Carlos Lacerda era de direita ou de esquerda?

A resposta depende do período de sua vida.

Carlos Lacerda começou sua trajetória política na esquerda. Sua própria família possuía fortes ligações com esse campo político.

Seu pai, Maurício de Lacerda, atuava na defesa de pautas operárias. Seus tios Fernando e Paulo Lacerda estiveram entre os fundadores do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Até mesmo seu nome carregava essa influência familiar: Carlos Frederico fazia referência a Karl Marx e Friedrich Engels.

Na década de 1930, Lacerda participou da Aliança Nacional Libertadora (ANL).

Carlos Lacerda era comunista?

Lacerda esteve próximo do movimento comunista durante a juventude, mas rompeu com esse meio no final da década de 1930.

O rompimento definitivo aconteceu em 1939, após a publicação de um artigo considerado prejudicial à linha defendida pelo partido.

A partir daquele período, sua posição política mudou profundamente.

Lacerda aproximou-se do catolicismo e tornou-se um forte anticomunista. O combate ao marxismo passaria a ocupar um espaço importante em sua atuação política e intelectual.

Décadas depois, porém, o próprio anticomunista utilizaria o medo do comunismo para criticar a ditadura militar.

Carlos Lacerda e Getúlio Vargas

Foi durante o segundo governo de Getúlio Vargas que Carlos Lacerda alcançou projeção nacional como opositor.

Filiado à União Democrática Nacional (UDN), ele havia fundado em 1949 a Tribuna da Imprensa. O jornal tornou-se uma das principais trincheiras de oposição ao governo.

A atuação de Lacerda também lhe rendeu um apelido que atravessaria sua carreira: "Corvo".

A imagem surgiu em uma caricatura do desenhista Lan e representava o mau agouro que seus adversários associavam ao jornalista. O confronto com Vargas chegaria ao ponto máximo em 1954.

O ano de 1954 foi decisivo para Carlos Lacerda

Na madrugada de 5 de agosto de 1954, Carlos Lacerda voltava para casa após uma cerimônia de formatura.

Com ele estavam seu filho, Sérgio, e o major-aviador Rubens Florentino Vaz.

Quando chegaram à Rua Tonelero, em Copacabana, homens que aguardavam nas proximidades abriram fogo contra o grupo.

Lacerda foi atingido no pé.

Rubens Vaz não teve a mesma sorte.

O major foi baleado e morreu.

Começava o episódio que ficaria conhecido como Atentado da Rua Tonelero.

O atentado contra Carlos Lacerda

As investigações chegaram a pessoas próximas ao Palácio do Catete.

O atentado teria sido executado pelo pistoleiro Alcino João do Nascimento, arregimentado por Climério Euribes de Almeida. As investigações apontaram como mandante Gregório Fortunato, chefe da Guarda Pessoal do presidente Getúlio Vargas.

A ligação do crime com o círculo presidencial agravou uma crise que já atingia o governo.

Lacerda intensificou sua ofensiva contra Vargas.

As Forças Armadas também aumentaram a pressão sobre o presidente após a morte de um oficial da Aeronáutica.

Dezenove dias depois do atentado, tudo mudaria novamente.

O que aconteceu com Carlos Lacerda após a morte de Vargas?

Na manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas tirou a própria vida no Palácio do Catete.

A divulgação de sua Carta-Testamento provocou uma forte reação popular.

Lacerda havia começado aquele mês como vítima de uma tentativa de assassinato. Após a morte de Vargas, parte da população passou a responsabilizá-lo politicamente pela crise que antecedeu o suicídio.

A sede da Tribuna da Imprensa foi atacada.

Lacerda precisou buscar proteção e acabou deixando o país.

Era apenas mais uma das grandes reviravoltas de sua carreira.

Carlos Lacerda foi governador do Rio de Janeiro?

Carlos Lacerda foi eleito em 1960 como primeiro governador do recém-criado Estado da Guanabara, formado após a transferência da capital federal para Brasília.

Seu governo durou de 1960 a 1965.

Foi nesse período que Lacerda tentou trocar a imagem de "demolidor" pela de administrador.

Sua gestão investiu em grandes obras de infraestrutura.

Entre elas estavam a Adutora do Guandu e os túneis Rebouças e Santa Bárbara. O período também ficou marcado pela criação do Aterro do Flamengo e por investimentos na educação primária.

O governo, porém, acumulou controvérsias.

As controvérsias do governo Lacerda

Uma das principais envolveu a política de remoção de favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Comunidades foram retiradas de regiões valorizadas e seus moradores transferidos para conjuntos habitacionais em áreas distantes.

Outro episódio ficou conhecido como "Mata-Mendigos".

Em 1962, corpos de pessoas em situação de rua foram encontrados no Rio da Guarda. O caso gerou acusações de assassinatos deliberados e se tornou uma das maiores controvérsias daquele governo.

Enquanto isso, Lacerda se preparava para um objetivo ainda maior: chegar à Presidência da República. 

Carlos Lacerda e o golpe de 1964

Lacerda participou da articulação civil contra o governo de João Goulart. Utilizou sua influência política e os meios de comunicação para combater Jango e defender a intervenção que resultaria em sua derrubada em 1964.

Lacerda, porém, não pretendia entregar permanentemente o poder aos militares.

Ele esperava disputar a eleição presidencial prevista para 1965.

A eleição não aconteceu.

O regime permaneceu no poder e Lacerda passou gradualmente da condição de aliado à de opositor.

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Carlos Lacerda rompe com a ditadura militar

O cancelamento das eleições presidenciais frustrou os planos políticos de Lacerda. A partir daquele momento, passou a criticar a permanência dos militares no poder.

A mudança produziu uma das alianças mais improváveis da política brasileira naquele período.

Lacerda procurou dois homens que havia combatido durante anos: Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Os três participaram da criação da Frente Ampla, movimento que defendia a redemocratização e a retomada das eleições.

O antigo adversário de JK e Jango agora estava ao lado deles.

Carlos Lacerda foi preso?

A Frente Ampla colocou Lacerda em confronto direto com o regime militar. Em dezembro de 1968, a edição do AI-5 ampliou a repressão política no país.

Lacerda foi preso e teve seus direitos políticos cassados por dez anos. Na prisão, iniciou uma greve de fome.

Depois de libertado, permaneceu impedido de retornar oficialmente à atividade política.

O homem que havia ajudado a articular a derrubada de João Goulart terminava afastado da vida pública pelo regime que inicialmente apoiara.

O que Carlos Lacerda fez depois da política?

Sem poder disputar eleições, Lacerda direcionou parte de sua atuação para o mercado editorial.

Fundou a Editora Nova Fronteira e continuou participando do debate intelectual brasileiro por meio de livros e atividades editoriais.

O afastamento compulsório não significava que tivesse abandonado suas ambições políticas.

Em seus últimos anos, ainda demonstrava interesse em retornar à vida pública quando recuperasse seus direitos. Isso não aconteceu.

Como morreu Carlos Lacerda?

Carlos Lacerda morreu em maio de 1977, aos 63 anos. Sua morte aconteceu antes do término do período de cassação de seus direitos políticos e interrompeu qualquer possibilidade de retorno eleitoral.

Lacerda morreu sem recuperar o espaço que havia ocupado durante décadas no centro das disputas nacionais.

Sua trajetória, porém, permaneceu ligada a alguns dos acontecimentos mais importantes da República brasileira no século XX.

Qual foi o legado de Carlos Lacerda?

Poucos personagens políticos brasileiros atravessaram posições tão diferentes ao longo da vida.

Lacerda começou próximo da esquerda, rompeu com o comunismo e se tornou um de seus principais adversários. 

Combateu Getúlio Vargas, enfrentou Juscelino Kubitschek e participou da articulação contra João Goulart.

Depois, aliou-se a JK e Jango para combater a permanência dos militares no poder.

Também deixou uma marca material no Rio de Janeiro durante seu governo na Guanabara, ao mesmo tempo em que sua administração acumulou controvérsias sociais.

É justamente essa trajetória repleta de rupturas que torna difícil resumir Carlos Lacerda apenas ao rótulo de "demolidor de presidentes".

Conheça a história completa de Carlos Lacerda

Da militância na esquerda ao anticomunismo. Do atentado da Rua Tonelero à queda de Getúlio Vargas. Do apoio ao movimento de 1964 à prisão pelo regime militar.

A trajetória de Carlos Lacerda atravessa mais de quatro décadas da história política brasileira.

Essa história é tema de um documentário da Brasil Paralelo, que apresenta a vida e as principais disputas políticas de Carlos Lacerda.

Assista ao documentário Carlos Lacerda

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