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Beethoven: uma visão em retrospectiva

Filho de alcoólatra, surdo antes dos 30 e marcado pelo sofrimento, Beethoven transformou a dor na maior obra musical do Ocidente

Por
Alvaro Siviero
Publicado em
Um retrato de Beethoven com a partitura da Missa Solemnis de 1820
Fonte da imagem: Joseph Karl Stieler.

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 Artigo de opinião

“Após uma vida de lutas, Beethoven, encerrado em seu túmulo, continua a lutar”. A frase de Romain Rolland, biógrafo do mais conhecido filho de Bonn, em sua obra Beethoven (Edições Cosmos, Lisboa), mostra uma vez mais que a força da obra de Beethoven reside, em grande parte, na ruptura que ela cria com o passado, enraizada nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade propostos pela Revolução Francesa, que não somente desestabilizaram e espalharam uma onda de terror sobre toda a aristocracia do velho continente, mas também ganharam peso e volume sobre os inúmeros rascunhos musicais do compositor, transformando a visão musical e cultural de sua época.  

Quando o jovem Ludwig ainda não havia completado os 17 anos, já havia perdido a mãe e 4 irmãos, tornando-se arrimo de família. O pai era alcoólatra. Nunca conseguindo realizar seu sonho de ter aulas com Mozart, a quem tanto reverenciava, e tendo em Haydn seu grande mestre, a música de Beethoven propõe a malícia de Haydn e a naturalidade de Mozart, devidamente homenageadas e destruídas pelo espírito de Beethoven. Dez anos mais tarde, após enfrentar um sem número de desafios pessoais, surgem os primeiros sintomas da surdez, justamente naquele que deveria ter na audição o seu sentido mais aguçado, forçando-o a um afastamento voluntário da classe artística e cultural como um modo de encobrir sua deficiência auditiva (leia o Testamento Heiligenstadt). Sem dúvida, o fogo trazido pelos ideais iluministas encontrou a lenha precisa e exata de uma vida pessoal carregada de sentido de contestação, de revolta agressiva e de muito sofrimento, características seguras para todos aqueles que querem entender e interpretar sua obra.

Na tentativa de entender essa ruptura, o literato E.T.A. Hoffmann (1776-1822) pôs-se a redigir uma série de ensaios visando a precisar a compreensão da obra de Beethoven. Curioso é verificar que as palavras crítica e crise provêm da mesma palavra grega krinein, que significa “quebrar”. Fazer uma crítica é quebrar, é colocar em crise uma idéia que se fazia dela, identificando o que compõe uma obra, questionando hábitos de compreensão, situando a interpretação, não se limitando simplesmente a opinar baseados exclusivamente nos prazeres da escuta – o famoso “gosto” ou “não gosto” -, mas na construção objetiva de um consenso sobre a obra. Isso não é arrogância, mas abertura para novos paradigmas. Foram essas análises de Hoffmann sobre a grandiosidade da obra de Beethoven que originaram o conceito e a figura do crítico musical como conhecemos hoje em dia. Curiosamente, a obra de Beethoven é em si mesma uma crítica, na medida que é ruptura.

Paralelamente, o piano – instrumento no qual Beethoven se apoiava completamente para elaboração de suas composições – passava por profundas transformações, também em extensão, saindo de suas 63 para 79 notas. Esse aumento coincide com as composições de Beethoven que utilizam a extensão como fator dramático. Suas 32 sonatas, terreno onde Beethoven reinventa a música, apresentam tal força que até mesmo Brahms, movido por um instinto suicida de autocrítica, destruiu mais da metade de suas próprias obras – que infelizmente nunca chegaremos a conhecer - por ter que dar conta da desproporção que julgava existir entre o seu talento e o do grande mestre. Vê-se que a música de Beethoven tocava profundezas psíquicas, também porque nelas tinha a sua origem.

A perda precoce da mãe e da irmã – figuras femininas que Beethoven idolatrava – e a profunda aversão à figura paterna foram as responsáveis, em grande parte, por sua instabilidade emocional e afetiva, um certo desajuste, carecendo desde sua infância do apoio necessário que a psicologia feminina traz.

Certamente, os ideais libertários e revolucionários europeus do final do século XVIII foram o desaguadouro que Beethoven encontrou como forma de dar vazão a possíveis abalos afetivos, criando aí o gérmen do contundente caráter épico de muitas de suas obras, como observado em suas Overtures Coriolano e Egmont.

Esse caráter psicologicamente dicotômico e ao mesmo tempo épico pode ser rapidamente detectado pelos ouvidos atentos daqueles que se deparam com a sua Sonata n.23 em fá menor Op.57 “Apassionata”, em que os temas desenvolvidos pelas mãos direita e esquerda do pianista sempre estão levemente defasados: é a figura do desajuste, do descompasso das duas psicologias em busca de harmonia e coesão (assista ao vídeo exemplificativo). E parece que Beethoven não se preocupa em resolver essa dicotomia: pelo contrário, a explora, mostrando um lado interno que está em contínua busca e que é o motor de sua capacidade produtiva.

Em Beethoven, isso ocorre de modo impressionante, pois sentimos nele a força interior granítica que o sustentou ao longo de todos os seus problemas físicos e psíquicos

Fisicamente era um homem comum, provido de aparência pacata, pouco atrativa, como uma concha que, mesmo sendo vulgar, esconde a pérola preciosa. Ouçamos o que descreve a família Fischer, proprietários em Bonn da casa onde nasceu Ludwig:

“Ele era baixo, forte, tez escura, ombros largos e de aparência comum, com um nariz redondo, rosto feio, avermelhado e cheio de marcas, talvez de varíola. A análise de sua máscara mortuária revela que seu rosto também exibia outras lesões e sulcos. Seu cabelo era muito escuro e caía desarrumado, em torno do rosto. (...) Suas roupas eram muito ordinárias, não muito diferentes da moda daqueles dias. (...) Falava com um sotaque forte e de uma maneira bastante comum. (...) Não tinha maneiras educadas, nem nos gestos, nem na conduta. Ele sempre se inclinava um pouco para frente ao caminhar”. 

Em toda a sua genialidade, Beethoven não se via como absoluto. Estando a boa crítica sempre baseada em autocrítica, admira e cativa verificar a lucidez e sensatez comumente encontradas naqueles que possuem clara consciência do sentido estético do dom recebido. Beethoven afirmava:

“O verdadeiro artista não tem orgulho. Ele vê, infelizmente, que a arte não tem limites. Ele tem uma vaga percepção de quão longe ainda está do seu objetivo e, embora outros possam talvez admirá-lo, ele lamenta ainda não ter chegado ao ponto, caminho que seu melhor talento apenas ilumina como um sol distante”.

Essa reação de humildade se encontra também em outra carta escrita à cantora Christine Gerhardi:

“É um sentimento peculiar ver-se elogiado e, ao mesmo tempo, perceber a própria inferioridade, como eu percebo. Sempre encaro tais ocasiões como uma advertência para me esforçar mais na direção do objetivo inacessível que a arte e a natureza nos impuseram”.

Não é necessário nenhum conhecimento prévio para apreciar a boa música e gostar dela. Entretanto, conhecer a história dos compositores e as circunstâncias das composições traz novos elementos à escuta. A música é no domínio dos sons o que a literatura é no domínio das palavras.

Desprezar a chance de ouvir os grandes compositores seria o mesmo que proibir a si mesmo a leitura de Shakespeare. Além disso, a música de Beethoven é o único grande acesso que temos para conhecer em profundidade, sem intermediários, esse gênio na sua pura fonte. Fica o convite.

Testamento Heiligenstadt

Documento sobre sua surdez, cuidadosamente escrito por Beethoven por mostrar sinais de contínuas correções. Datado de 1802, escrito a seus dois únicos irmãos ainda vivos, foi mantido escondido entre seus papéis privados e encontrado após sua morte. O testamento é também direcionado ao mundo em geral. 

A “Amada Imortal”

São muitas as especulações sobre quem seria a mulher a quem Beethoven dirigiu a mais famosa e a mais notória de suas cartas, na busca de estabelecer um relacionamento que pudesse de alguma forma redimi-lo de sua miséria. Como ocorreu com o Testamento de Heiligenstadt, também foi encontrada entre seus papéis depois da sua morte.

Alguns afirmam ser Giuletta Guicciardo, a quem dedicou a sua Sonata ao Luar (assista ao vídeo). Outros afirmam ser Josephine von Brunsvik-Deym-Stackelberg, recentemente viúva, em quem Beethoven depositou seu coração apaixonado, sem ser correspondido. Segundo o biógrafo Maynard Solomon, ela seria Antonie Brentano, dez anos mais jovem que Beethoven, pertencente a proeminente família vienense.

Álvaro Siviero foi o primeiro pianista brasileiro escolhido a participar, com outros 5 pianistas mundialmente selecionados, da imersão na obra pianística de Beethoven na Fondazione Wilhelm Kempff, centro de excelência mundial nos cursos de interpretação da obra do compositor alemão.

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Biografias aconselhadas:

- Lewis Lockwood – “Beethoven: the Music and the Life”. Editora: W.W.Norton & Company. Essa obra se encontra em português, com excelente tradução, sob o título “Beethoven: a Música e a Vida”. Editora Códex

- Maynard Solomon – Beethoven. Schirmer Trade Books 

- Emil Ludwig – Beethoven. Editora Companhia Editora Nacional

Filmografia

Minha Amada Imortal (Immortal Beloved)      O Segredo de Beethoven (Copying Beethoven)  

Gary Oldman, Isabella Rosselini                     Ed Harris, Diane Kruger

Direção: Bernard Rose                                  Direção: Agnieszka Holland                        

Obras aconselhadas 

Abertura Egmont, Op.84

Abertura Coriolano, Op.62

Sonata Op.27 n.2 em dó sustenido menor “Ao Luar”

Sonata Op.13 em dó menor “Pathetique”

Concerto n.3 para piano e orquestra em dó menor, Op.37

Concerto n.5 para piano e orquestra em mi bemol maior, Op.73 “Imperador”

Sonata para piano e violino Op.47 n.9 “Kreutzer”

Sonata para piano e violino Op.24 n.5 “Primavera”

Sinfonias (especialmente as de n.3, 5, 6, 7 e 9

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