Carlos de Freitas
A Vida Como Ela Não É... A palavra enquanto espaguete ao sugo
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Relatos Místicos ou As Entidades Também Amam

Por 
Carlos de Freitas
3/24/2022
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Estava eu, e isso sempre me ocorre nos dias pares, profundamente entediado com a vida aqui na terra - embora nunca tenha vivido em qualquer outro lugar, o que me entediou ainda mais - quando resolvi levantar-me e fazer pipocas. Despejei o milho na panela Oxford, que pertenceu a minha avó Arminda Janeck-Padilha, um pouco de sal e um fio de azeite – esse filete é que dá o sabor único da minha pipoca. Um gosto que lembra muito o de uma cortina rústica de casarão tombado. Enquanto escutava cada milhozinho estourando, resolvi abrir a Wanda, meu scotch whisky de dezoito aninhos. O tédio me induz a esses momentos de elevação espiritual. Heidegger sentia o mesmo, me disseram. Entretido com o aroma inconfundível, o gosto amadeirado e certamente defumado da minha Wanda, esqueci-me totalmente da pipoca.

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Fiz o que todo mundo faz: esmurrei o armário lateral, aquele onde guardo os potes de grãos, e amaldiçoei minha avó Arminda, embora ela não tivesse culpa alguma. Esperei a panela parar de gemer e, quando a abri, uma pétala de milho saltou em minha direção quase me cegando.

Por que relato esse fato?, devem estar se perguntando agora. Porque, naquele milionésimo (sem trocadilhos, por favor!) de segundo, observando a trajetória do milho, tive a nítida impressão de que aquele milho - aquele pequenino milho, naquele milionésimo de segundo - era Wolfgang Amadeus Mozart. Atordoado com a visão, passei meses refletindo se havia feito a coisa certa ao abandonar as aulas de piano na tenra adolescência. 

O que é que o autor da Pequena Serenata Noturna queria comigo? 

Comentando o caso com meu senhorio, Lindomar Bonachera Alegrete y Alegrete, ele me disse que eu havia passado por uma experiência mística. Ele é o que se pode chamar de homem letrado, afinal vive lendo aqueles encartes de imóveis toda vez que desce para tomar um ar junto ao pequeno jardim defronte o prédio. Encucado, agoniado, e sem entender por que diabos o velho Amadeus Mozart metamorfoseara-se num pequenino milho, resolvi pesquisar sobre o assunto. Descobri, por exemplo, que a mística é uma forma superior de experiência, mas de natureza religiosa em primeiro lugar. Mozart, que eu me recorde, não ascendeu ao patamar dos santos. Bach, a quem Deus deve muito, pode ser que esteja. Já o jovem Mozart eu não creio. Talvez pelo conjunto da obra. Lifetime achievement.

Fui pesquisando textos e mais textos com a finalidade de dar algum sentido aquele quase encontro entre minha pupila esquerda e o jovem prodígio que compôs sua primeira sinfonia aos 6 anos de idade. A despeito da natureza específica da mística, ou seja, ser ela uma experiência essencialmente religiosa, resolvi não peitar meu senhorio com divagações de ordem lógica (afinal, o mundo perdeu quase toda a sua razão lógica). E também porque Deus escolhe as mais variadas formas de tocar um coração. Então permaneci na busca incansável por determinar qual a natureza da minha experiência. Teria sido místico-religiosa ou místico-filosófica? Músico-fleumática? 

Passei dias em sebos e bancas de jornal caçando informações a respeito desse tipo de contato entre o mundo sensorial e o mundo fantasmagórico. Foram muitos dias. 

Aqui vão alguns dos mais interessantes relatos que encontrei:

Num jornal local li o depoimento do sr. Solano Pederneiras, de Hortolândia, São Paulo: 

“A pobreza roía-me as vísceras e chegava a tirar-me umas lascas da alma. Nunca fui um homem ganancioso, mas precisava comer. Desesperado, entrei num empório e furtei duas latas de caviar beluga Petrossian. 

Na saída, me dei conta de que sem panquequinhas russas a coisa não ia cair bem. Dei meia volta e, enquanto distraía a vendedora pagando pelo caviar, surrupiei umas torradinhas – não as panquequinhas russas, como imaginava.

Antes que me desse conta do erro, surgiu uma luz tão forte que quase me cegou. Fui colocado numa espécie de máquina com rodas que começou a se mover em baixa velocidade. Foi então que percebi que estava no banco de trás da minha Mercedes AMG GT-R enquanto meu motorista, Januário, me perguntava se eu estava bem. 

Tudo que consegui dizer foram estas emocionadas palavras: cadê as panquequinhas? As panquequinhas!”

O sr. Joseph Stalin, de Gori, Geórgia, disse: 

“Eu me preparava para assistir ao enforcamento de oito dissidentes que ousaram interpretar a décima tese de Feuerbach de um modo mais liberal, quando o telefone toca e meu assessor Dmitri Kassipilanovich Yeguitutchenko Drassilov, Viki para os mais chegados, me informou que Yuri Lenthkov Awinka Mihailitovic, o Gorka, sentiu uma dor feroz nos rins e teve que adiar a ordem do fuzilamento dos oitenta e quatro mil uzbeques que aguardavam há um ano pela execução da sentença. Esses Uzbeques foram assim punidos, é bom que eu me justifique, porque acentuaram demais a sílaba ‘lin’ do meu nome, deixando clara a ironia ao se referirem a mim.

Bem. Voltando ao que interessa, imediatamente esmurrei o tampo da minha escrivaninha de mogno dos alpes suíços, o que causou uma luxação no meu pulso. Como sou um homem de temperamento calmo, respirei fundo e sai para deliciar-me com os enforcamentos (o que mais poderia acalmar a alma de um bom homem?).

Quando o terceiro sujeito despencou pelo patíbulo, ouvi algo como: Joseph, pare de jogar dados às quartas-feiras!. Fui tomado pela emoção e desde então, uso tampões de ouvido em todas as execuções.” 

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Disse o sr. Arthur Schopenhauer, de Danzig: 

“Elucubrando nas altas da madrugada, sem sono e sem carinho, cheguei a conclusão precipitada de que para a representação existir é necessária a relação entre o sujeito e o objeto. Dessa relação o sujeito é a parte que conhece (embora, muitas vezes, ele se faça de desentendido), é ele que sustenta o fenômeno da representação e do conhecer. 

Ou seja, o objeto não existe sem o sujeito, o que pude comprovar ao dar com a testa no batente da porta do meu quarto. 

Para criar a representação do mundo, nosso intelecto organiza as formas a priori do tempo e espaço utilizando a categoria da causalidade, embora as formas de Fraulein Bianca Schmitz, que surgiram na minha mente depois do choque com o batente, tenham se organizado muito rapidamente e de modo ainda incompreensível para mim. 

Essa experiência revelou-me a noção de que meu ego é paranóico e que a representação das nádegas de Fraulein Bianca Schmitz me dava uma vontade danada de ampliar a interação entre sujeito e sujeito, indo da potência ao ato e restando aos objetos a pecha de acidentes da matéria.”

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A senhora Broa Facundo de la natividad, de Antuérpia, disse à revista O Travesso Mundo das Experiências Transcendentais, em 1975:

"Eu cerzia a calça de fios Richter de meu futuro marido, o senhor Bagel Despagne de Alencar, notório alfaiate de nosso amado vilarejo, quando ouvi umas batidinhas embaixo do assoalho. 

Tinha absoluta certeza que, àquela altura do dia, nosso criado Antoine Lafayette já havia sido desacorrentado de seu catre e perambulava com Geneviève Panetone, minha irmã, recolhendo os pedacinhos de bolo que ela cuspia enquanto declamava poemas rupestres gritando. Quando tentei me levantar, uma força descomunal puxou-me de volta à poltrona e disse: “Não saia daqui, Lamar!” 

Tentei gritar “papai”, mas minha boca, contra a minha vontade, começou a fazer biquinho. Lutei por alguns minutos até que consegui dizer: “Sua Lamar está com desarranjo”. Ouvi o tecido da poltrona grunhir algo e, quando me senti livre, corri até a casa do delegado da província, o Manquitola Schmidt. 

Nossa poltrona foi autuada em flagrante por molestar uma futura esposa e foi condenada a prestar serviços comunitários servindo de assento a bêbados e pulhas catalogados pela prefeitura."

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Curioso foi o caso do Sr. William James Murray, de Evanston, Illinois, relatado num suplemento esotérico, de circulação bem restrita, a que tive contato quando visitei uma vidente, Madame Sosostris, que anunciava suas previsões em postes de luz no bairro do Itaim Bibi. Num dos artigos, o Sr. Murray relata ter visto uma colega sua levitar durante as gravações de um filme.

Folheei diversas publicações na esperança de encontrar algo sobre a minha experiência específica. Mozart do céu! 

Corri os olhos nas mais conhecidas revistas sobre o assunto. Não encontrei nada que me ajudasse. Na revista O Sobrenatural, dedicada a cobrir os eventos místicos das celebridades, nada que não fosse macumba ou a festa de fim de ano da escolinha de atores do Wolf Maia era levado a sério. Um desperdício de tempo.

No semanário Etiquetas para Fantasmas, idealizado por Sir Oscar Wilde, soube que se trata de “metempsicose”, o movimento cíclico por meio do qual um mesmo espírito, após a morte do antigo corpo em que habitava, retorna à existência material, animando sucessivamente a estrutura física de vegetais, animais ou seres humanos. Mozart teria voltado à vida como um pequenino milho?

Nas três linhas de um blog destinado a lançar entidades do folclore brasileiro à presidência da república chamado O Antagonista só encontrei relatos desconexos e incompreensíveis.

A senhora Pauline Anchova, residente em Bucareste, me trouxe uma luz incandescente sobre o assunto, mas ela já queimou, de modo que me encontro totalmente nas trevas a respeito dessas experiências elevadas que, como soube ao ler numa revista chamada Atenienses de Jeová, dedicada a provar que Pitágoras, Platão, Aristófanes, entre outros, já acreditavam na remissão dos pecados por meio do sistemático procedimento de bater de porta em porta, chegam até a fazer com que algumas almas penadas decorem toda a tabuada novamente.

Nessa matéria, na edição 27, de setembro de 1973, a senhorita Mércia Hilprecht, de Itajobi, bisneta do Dr. Hilprecht, famoso arqueólogo e especialista em escrita cuneiforme, que certa vez visitou, em sonho, o templo de Bel, em Nippur, muito tempo antes de sua descoberta, contou como uma alma penada lhe apareceu pela manhã com o propósito de reaprender a tabuada do 7 para a prova. Mércia, com 11 anos nessa época, achou que fosse uma brincadeira de seu irmão Onílson, mas logo descartou a hipótese, pois este cursava duas séries acima da sua. O título da matéria “Almas Penadas Decoram Tabuadas no Limbo'' me marcou sobremaneira. 

É assaz inconveniente que apenas publicações sérias tratem desse assunto, restando aos folhetins a tarefa de nos distrair com fofocas fúteis, como aquela que jura estar a China a preparar um ataque coordenado contra o Ocidente só porque os membros do seu Partido Único democrático compraram mais da metade do parlamento britânico, norte-americano, brasileiro, argentino, italiano, alemão e o hondurenho. 

O certo é que continuo sem entender como as experiências místicas acontecem sem indução, ou seja, sem a ajuda de uns remedinhos. Se bem que li também que qualquer sadhu jovem dá conta de um tanto dessas experiências, e sem precisar de qualquer ajuda, mas como eles em geral fazem voto de silêncio e não contam suas histórias em revistinhas ou sites de fofoca, temo que nunca vá saber como aquele floco de milho compôs a Sinfonia n° 40 ou a Flauta Mágica e o que ele queria comigo.

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