Carlos de Freitas
A Vida Como Ela Não É... A palavra enquanto espaguete ao sugo
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Os Aforismos do Dr. Alcebíades

Por 
Carlos de Freitas
5/5/2022
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Na coluna desta semana contamos a história de nosso último grande aforista. Dr. Alcebíades está para o aforismo assim como Tegucigalpa está para a história do vôlei. Não se percam!

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O caso do Dr. Alcebíades é curioso e se confunde com a própria história do Brasil. Sabotado pela esquerda, que o acusou de usar a mesma conjugação de verbos (indicativo, subjuntivo e imperativo) que os militares, e boicotado pela direita, que o acusava, sob a influência de Carlos Lacerda, de pertencer ao PCB porque disse certa feita que se fosse Boris Kuznetsov teria triturado o Garrincha se ele viesse com aquele rebolado adunco em sua direção, o Fanho Alce, como ficou conhecido nos meios literários da época, permaneceu sendo um mistério para muitos. 

Sua biografia é incerta e sua única obra, Aforismos Não Andam de Metrô, foi resultado do que podemos chamar de um acaso feliz, sendo descoberto quando um de seus colegas fez uma limpeza no antigo catre do Hotel Colônia de Barbacena, logo após seu falecimento. O que se sabe é que morreu em 1983, completamente esquecido, e exerceu enorme influência nos anos 60 e 80, sendo o livro de cabeceira de Ted Boy Marino e Geórgia Gomide, segundo a Revista O Tato & O Tatu.

Dono de uma profunda acuidade moral, o Leve Alce, como ficou conhecido nos meios musicais da época, aparece ao lado de nomes de peso como Karl Kraus, Lichtenberg, La Rochefoucauld e Léo Batista, como um dos maiores expoentes desse tipo de máxima. Todos os seus aforismos foram publicados postumamente pela Civilização Brasileira, em 1963, quando esta ainda era um punhado de bárbaros especializados em rejunte e massa corrida. Recebeu uma edição cuidadosa, com direito a prefácio, orelha e introdução de Wilson Martins, que na época passava dificuldades e aceitava qualquer trabalho. Wilson chegou a dizer que os aforismos não passavam de reflexões mal redigidas por um ser atormentado pela falta de um emprego fixo. Não foi o seu melhor momento na crítica, sem dúvida.

Como já foi dito, pouco se sabe do Ávido Alce, como era conhecido nos meios políticos da época. Alguma pesquisa sobre sua vida nos levou à matéria da revista O Tato & O Tatu que fez a pergunta “qual o seu livro de cabeceira?” aos trinta brasileiros mais influentes em 1966 e às edições - esquecidas no tempo - da extinta e inigualável revista O Travesso Mundo das Experiências Transcendentais que, naquele tempo, reservava a sua última página aos aforismos de pessoas famosas e anônimas. A seção era chamada Aforismos Lá and Cá. Na edição 38, de 1984, dedicada à sua obra, foi possível encontrar essa mini biografia - que muitos estudiosos contestam, mas que traz uma luz sobre sua persona.

Está assinada por Ergon Araripe Prateleira, editor da revista:

Lorde Alcebíades é o pseudônimo de Arimateia Fortunato Gerban de Oliveira Castro que, por sua vez, é o pseudônimo de Antônio José Silva: foi um grande ator de pornochanchada, convertido ao judaísmo por circunstâncias da profissão. 

Nasceu prematuramente durante a Grande Guerra, em Araçatuba, no ano de 1914. Filho de um casal de traficantes de bolas de golfe, teve uma infância atribulada em Beverly Hills devido a um defeito de nascença que prejudicou seu desenvolvimento, impedindo-o de praticar pequenos golpes.

Quis a fortuna ou a Providência ou o acaso ou mesmo a mera casualidade que o pequeno Alce nascesse com uma anomalia na epiglote, o que atrapalhava e muito sua comunicação nesse mundo hostil ou, como costuma-se dizer aos domingos, neste vale de lágrimas.

Cresceu fazendo imitações de Sófocles e Santo Ambrósio numa versão muda para figurões do cinema americano e quando juntou seu primeiro dólar deu um salve aos seus pais e retornou à sua terra natal, o Brasil, com uma contadora canadense que se encantara com suas habilidades manuais e linguísticas. 

Tornou-se Lorde em 1978, durante sua estada em Barbacena, pouco depois de abandonar sua carreira no cinema nacional. Nas paredes do quarto 214, suas unhadas e cabeçadas permanecem em perfeito estado de conservação. 

Morreu em 1983 quando decidiu fazer greve de fezes como forma de protesto tardio contra a semana de arte moderna de 1922, abandonando o título de lorde para virar apenas doutor. Está enterrado em Belford Roxo, no estado do Rio. Sua tumba é visitada todo ano pelo coveiro, que limpa a lápide da família e retira restos de titica de pombo e cotovias. 

Como já dissemos, seus aforismos foram encontrados durante uma vistoria de rotina no velho catre. Pipoco, seu colega, retirava o criado-mudo do lugar quando notou um dos tijolos bambo. Tratava-se de um pequeno pergaminho feito com o couro cabeludo de seu alfaiate, cujo sumiço havia sido noticiado pelo Notícias Populares um tempo antes.  O resto é História.

Aqui, um compilado feito por Eliezer Motta dos seus mais notáveis joguinhos verbais:

“Tenho duas bocas e um só ouvido. Ainda assim, uso as duas apenas para espirrar.”
“Pelé tocando Oboé e Beethoven fazendo embaixadinhas: taí uma realidade que eu gostaria de ver.”
“Eu sofri todo tipo de trotes durante minha infância e adolescência. Hoje eu os desfruto.”
“Os poetas enlouquecem a palavra enquanto os políticos enlouquecem um idioma todo.”
“O melão é o mais saboroso dos objetos de decoração.”
“A vida é uma coisa desejável apenas para quem não a tem, Glaucia!”
“Todos têm alfaiates para se divertir, eu tenho para me aborrecer.”
“Se as pessoas do passado tivessem rezado com mais força, a televisão não teria sido inventada.”
“Um tipo de bacalhau encontrado na Noruega, jamais será achado em Portugal.”
“Na entrada do bordel: Aqui se faz, aqui se paga.”
“A música dodecafônica é um estilo de vida, mas quando a ouço penso num estilo de morrer.”
“A palavra bunda veio da África, enquanto a da minha secretária vem todo dia da Lapa. A bunda, digo.”
“É mais fácil esquecer minhas convicções do que meu guarda-chuva.”
“Nada do que dizes contra mim pode ofender os meus inimigos ou um canudo.”
“Tinha um português, um alemão e um italiano. Estavam discutindo para ver quem tinha a maior inteligência. Parece que o italiano era o mais inteligente.”*
“Meu amor por você durará até o final de Wanda, meu whisky.”
“Nossas cabeças são de chocolate, estúpido!”**
“Não conheço o binômio de Newton e nem sequer fui apresentado ao seu homônimo.”
“Sou capaz de resolver alguns dos problemas da minha vida e incapaz de resolver uma equação exponencial.”
"Diálogo com Leucócito:
 - Você é um fracassado, Alcebíades!
- É muita gentileza sua.”
“Vivo preso em ti! Ass: Meu Ventre” 
“Algumas pessoas utilizam o ‘eu majestático’; eu me satisfaço utilizando o eu sarcástico.”

* Segundo Leo Strauss, este aforismo foi o ponto de partida de um novo modelo de quase anedotas, conhecido em Oxford como Almost Joke. P. G. Wodehouse e Evelyn Waugh fizeram uso recorrente desse tipo de técnica. Ver ensaio de Strauss, O Orelha de Panurge, publicado na revista Planeta, edição 64.

** Este aforismo influenciou sobremaneira Flávio Cavalcante, que vivia citando-a pelos corredores do SBT, e, muito tempo depois, foi imortalizada na belíssima propaganda do chocolate Tortuguitas.

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