Carlos de Freitas
A Vida Como Ela Não É... A palavra enquanto espaguete ao sugo
A Vida Como Ela Não É... A palavra enquanto espaguete ao sugo

Minhas primeiras cartas

Por 
Carlos de Freitas
20/7/2022
Compartilhe com amigos

As cartas são um dos componentes principais da nossa civilização. A escrita, ao lado da roda e do ferro - e talvez da capa de chuva - é responsável por um dos grandes passos que a humanidade deu. Poder comunicar-se com um ente distante, cobrando aquela perna de carneiro que ele ficou de devolver após o último festival do solstício, saber o que o presidente da General Electric tem a nos dizer no Natal, são coisas que não só nos ajudam a sobreviver como colorem nossa vida sobremaneira. 

Compartilhe com amigos

Quem nunca sentou-se numa boa cadeira da designer irlandesa Eileen Gray, empunhou sua Visconti Ripple e teceu alguns dos impropérios mais vistosos da história das missivas, não sabe o que é bom. Wittgenstein não soube; Iara Jamra também não. Ao estudar os primeiros registros de escrita nas cavernas do Butão, notei que aquelas garatujas não eram totalmente desprovidas de sentido. Mas foi só quando uma carta da minha tia Arminda - exigindo que Vassili Potapenko fosse convocado para a seleção ucraniana de bilhar - chegou às minhas mãos, no inverno de 1955, que pude vislumbrar o real sentido daqueles risquinhos rupestres feitos cerca de 3748 anos antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse sentido me escapa totalmente enquanto redijo esse texto.

O fato é que sempre me interessei pelas cartas. Fui um rapazote cheio de energia e nutria demasiada alegria ao iniciar a redação de uma carta. Mas, desde que Brigitte, numa missiva cheia de rancor, recusou ser minha sexta esposa, perdi um pouco o interesse nelas. Depois vieram o telégrafo, o telex, o telefone, o e-mail, as redes sociais, a crise dos poderes, a censura, o Guilherme Boulos… Quando me dei conta, já não havia resquício daquele pirralho que amava enviar cartas.

As de amor são ridículas, como atestou certo escritor no tempo em que uma carta era tão popular quanto hoje é uma calça rasgada ou um pedido de divórcio. Poucas coisas se comparam em elegância quanto escolher o papel certo, o envelope certo, a caneta certa, a pessoa certa e, não menos importante, o CEP certo. 

Escrever uma carta é como entrar numa confraria seleta; é como pertencer a um distinto grupo de homens; é executar o mesmo ritual de um São Paulo Apóstolo ou do Filho de Sam.  

Quem me conhece (Brigitte teve essa chance e não aproveitou), sabe que tenho genuína predileção pelas coisas extintas: máquinas de fliperama, fichas telefônicas, o tigre dente de sabre, macho e fêmea, bêbados líricos, academias analógicas, gente madura, três refeições ao dia… As cartas, desse modo, têm um lugar especial. Foi por uma carta que fiquei sabendo das segundas intenções de uma coleguinha que queria me dar um beijo de índio. Também foi numa carta que Fedora¹ me disse que ia comprar cigarros: duas horas depois, os alemães invadiram a França.

Mas por que falo sobre isso?

Vasculhando um antigo baú que pertenceu ao Almirante Toalha e que foi deixado como indenização ao meu avô - o almirante cuspiu-lhe uma uva no ouvido esquerdo, tapando-lhe a saída e entrada de sons e impedindo, com isso, que meu avô pudesse ouvir a sonata pastoral em estéreo (sua preferida) - quando achei lá no fundo um conjuntinho de cartas amarradas com barbante francês Stopyra e que pode ser adquirida na Amazon, por módicos oito dólares o milímetro. Eram as minhas primeiras cartinhas.

Cheio de curiosidade, cortei o barbante Stopyra com minha tesoura Rocheteau - mesma marca usada pelo Rabino Montcalm Schmeck, quando fazia circuncisões clandestinas na Moldávia, a cinco frações de rublo - e desdobrei-as com muito cuidado.

O que li fez com que pequenos rebocos de lágrima tombassem de meus olhos. Aquelas memórias há tanto esquecidas trouxeram de volta um pouco do menino perdido, meu eu mais remoto, aquele eu que se esvai, desmorona, esmorece sem esperança a cada vez que lemos a Folha de SP ou um tuíte da Miriam Leitão.

Antes de publicar algumas das cartas, é bom adverti-los que alguns nomes foram ocultados propositalmente e outros alterados para que suas devidas personas não sofram qualquer represália. 

São diatribes cotidianas, conselhos de vida, pedidos de dinheiro, ameaças de morte... Achei que deveria, a fim de perder mais leitores, compartilhar com vocês algumas dessas cartas. Cartas de um lirismo vulcânico, temperadas com um mau humor crônico, salsa e cebolinha.

Aqui vão algumas delas:

São Paulo, 8 de maio

Querido Luís,

Recebi seu dedo ontem mesmo e lhe informo que passaremos adiante suas exigências. Certifico-me de que não pretende enfiar a mão naquele torno novamente, certo? 

O Zé disse que tem muita esperança em você. Por favor não cometa mais a gafe de tirar dinheiro da caixinha de Natal dos seus colegas.

Abraço,

T.

*************

Mãe!

Descartei minha fralda no lixo lá de fora, aquele grandão de metal. Juro que fiz como a senhora me ensinou. Já tenho 3 anos e consigo assimilar bem as coisas. Tomei o leite com achocolatado enquanto lia Freud. Estava muito gostoso.

Beijo! Te amo! (Não no sentido freudiano)

*************

Lise, minha excelente querida!

Aqui em Bangladesh tudo é muito diferente. Daca é uma cidade apaixonante. Ontem quase tomei duas facadas e levei um tiro só porque limpei o suor da testa com meu lenço com estampa de pele do tigre, o que assustou alguns convivas do lupanar que me encontrava. Soube depois que o lenço se assemelhava muito à pele de um tigre local que pertenceu à antiga nobreza bengali. Mas você sabe muito bem que eu não sou de guardar mágoas. Levei na esportiva e tratei de raspar a barba para meu rosto não suar tanto.

Jogo Cricket toda quarta, mas evito tomar banho junto com os outros atletas, todos muçulmanos radicais, pois podem dar falta da minha fimose e perceber o corte do Rabino Montcalm. 

O trabalho tem evoluído. Devo voltar pra casa assim que assassinar Fedora. 

Um beijo longo do seu…

*************

20 de Novembro de 1963

Caro Lee,

Seus olhos apenas

Air Force 1 deve pousar às 11:40

Espere o presidente passar pela Elm Street

Encha seis bexigas com água use aquela bazuca que usamos para brincar na piscina

Mire na Limusine

Não queremos que John e Jackie se molhem muito

*************

Meu cativo William,

Sua carta me pegou de surpresa. O carteiro aqui resolveu que não gosta de mim e quando eu saio à porta o danado me atira as cartas, de modo que a sua me atingiu a testa, pegando-me totalmente desprevenido.

Fico contente que tenha trocado de boteco. O Mississippi já foi um bom lugar para bêbados como nós. Aliás, o mundo já foi mais condescendente conosco. É cada vez mais raro encontrar um bom boteco imundo onde a verdadeira dignidade humana possa se refugiar. 

Mas vamos ao que interessa.

Acho os saltos no tempo uma ótima ideia. Todo mundo vai achar Benjamin um tolo, mas nós sabemos que ele sofre de incontinência urinária e tem um terceiro mamilo. Eu recomendaria pinçar uma frase do Shakespeare e colocar como título. Acho que em Macbeth ou Coriolano você vai achar o que procura. Aquela sobre a vida ser uma história contada por um idiota sempre nos divertiu, mas já é um pouco manjada. Está tudo muito interessante, mas eu colocaria mais uns personagens nesse conto. Vou conversar com Mildred e lhe enviar mais alguns bourbons. Ela ainda sente sua falta.

Aquele abraço,

….

Brigite, sua ingrata

Você sabe muito bem que jamais te envenenaria na nossa noite de núpcias. 

….

Respeitável Gorbi,

Sua reestruturação parece cheia de boas intenções. Nada como um bom plano de abertura para que nossa amada Mãe Rússia ganhe crédito com o Ocidente. Meu medo é que Poliakov mexa seus pauzinhos e coloque um de seus pau-mandados na presidência. Aquele moço que conhecemos em Minsk, aquele que cutucava todos os colegas do Politburo pelas costas e depois fingia que não era ele,  me parece um tanto perigoso. Como é mesmo o nome dele? Acho que tinha o mesmo nome daquele lateral do Corinthians. Vá com calma e aguarde as instruções de nossos colegas de Varsóvia. 

Um beijo do seu…

*************

¹ Na verdade, era um bilhete, uma subcategoria da carta. Veiga desenvolve um estudo aprofundado sobre as formas de comunicação escrita. O livro Como Ordenhar Manteigas desapareceu das livrarias. Acredita-se que o próprio Salinger tenha recolhido todas as cópias com o intuito de fornecer alimento para sua lareira.

² Ver Veiga, José Jacinto. Como Ordenhar Manteigas, Ed. Global, 1944.

Compartilhe com amigos

Artigos novos direto no seu Email

Mantenha-se sempre informado com os conteúdos da Brasil Paralelo. Cadastre-se!

Publicações recentes

Convidados