Carlos de Freitas
A Vida Como Ela Não É... A palavra enquanto espaguete ao sugo
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MacNamara Inventa Um Novo Gênero

Por 
Carlos de Freitas
4/14/2022
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MacNamara, o grande gênio, criador de um estilo próprio e profundo, que conquistou a crítica mas ainda permanece desconhecido do público. MacNamara, o homem por trás da obra, é apresentado sem rodeios nessa coluna.

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“Como eu dizia no capítulo anterior, em Arequipa, longe da vista do chefe, tomei um caminho estreito por uma ruela de pouca luz e muito calada, estando sempre de antenas atentas ao menor ruído que explodisse por ali. 

Era já sobretarde quando avistei meu destino. Bati com a ponta da bota Ferretti - comprada em Apucarana por meros 800 talentos - duas vezes no primeiro dos doze degraus da entrada da Igreja dos Santinhos Cegos (Iglesia de los Santitos Ciegos, na língua local, ou pelo menos na minha língua local). 

O padre Elói pôs a tromba para fora da janela e em libras, para não fazer sequer ruído, mandou que eu pulasse a cerca lateral e subisse pela escada da sacristia, evitando o terceiro degrau, apodrecido pela luminosidade excessiva (descuido do arquiteto), depois virasse o corredor defronte e entrasse direto na terceira porta do lado direito. 

Saltei cerca fora, alisei a parede até a escada e galguei feito uma bailarina lituana, saltitando degrau a degrau, menos o terceiro, até o corredor defronte e entrei terceira porta a direita adentro.”

Ibn MacNamara, O Padre Elói Desce as Escadas

Da nossa série de grandes inícios de livros, apresentamos Ibn MacNamara, escritor paranaense, radicado em Aldeia da Serra. Nasceu Ibn Adriano Dias McNamara, no dia 17 de setembro do ano de 1920, em Ponta Grossa, Paraná. Grande fã de Virgílio, Hegel e Lolita Rodrigues, Ibn começou escrevendo bilhetes de suicídio para homens de Campo Mourão que, ao chegarem em Curitiba, eram reprovados pelas futuras sogras.

Sua infância é pouco documentada e o próprio MacNamara não se pôs muito a falar sobre ela. Em 1937 fez sua estréia na Revista Verde, de Rosário Fusco, com um conto realista em que um gafanhoto assumia a memória de Platão e invertia a teoria das idéias, o que trouxe consequências terríveis, como a fundação do que ele chamou de Partido Comunista do Brasil, o PCdoB.

Foi muito celebrado por José Américo de Almeida que viu no jovem Ibn uma espécie de Marx brasileiro, mas sem a barba e as hemorróidas. Durante os anos 40 publicou quase nada, preferindo dedicar-se à caça de tapetes na comunidade árabe de Ponta Grossa. Foi só com a mudança para Aldeia da Serra que o talento literário de Ibn desabrochou.

Foi Dalton Trevisan quem primeiro notou a prosa ácida - “como uma garçonete esquálida”, nas palavras do próprio Dalton. Sua crítica no suplemento dominical do Jornal do Brasil, em março de 1962,  fez alarde ao destacar o que chamou de auto crime, um novo gênero literário. Múcio Leão, que não era dado a besouragens, fez um encômio contundente demonstrando toda originalidade do gênero criado por Ibn. 

“Nota-se entre os nossos um gênio original, galante nos sintagmas e equilibrado nas paráfrases e nos modos como empunha um garfo. Perpetrador do fantástico, mescla de Rabelais e Tutu de Feijão. Um gênio, como disse.” 

Jornal do Brasil, 1963

No livro acima citado, O Padre Elói Desce as Escadas, MacNamara narra a história de Santiago Berba Doce, um navegante de Guiné-Bissau que naufraga em Manhattan e, para não morrer de inanição, arruma um trabalho no mercado negro de Martini 's em bares do Upper West Side.

Fez fortuna contrabandeando ilegalmente azeitonas que as celebridades punham de lado ao comer pizzas Marguerita.

“Só com uma kalamata que Steve McQueen largou em seu prato foram 500 dólares. McQueen jamais desperdiçava uma azeitona. Já as azeitonas de Bo Derek valiam pouco: ela comia muita pizza e detestava uma boa oliva” (pág, 87)¹.

Berba Doce as surrupiava ao se passar por pedinte e ia de bar em bar, como o Gino’s, o Dead Poet e o Mute Parrot, oferecendo suas azeitonas premiadas aos bartenders. Juntou o suficiente para comprar uma pequena aldeia de pescadores (com os pescadores incluídos no pacote) na Ilha do Mel, um sonho seu desde pequerrucho.

A segunda parte do livro gira em torno do diálogo atroz que Berba Doce trava com sua consciência, a quem chama de Mamasita Rosada. Numa tarde de sol agradável, Mamasita achou prudente que Berba Doce não saísse para tomar tequila. O fim trágico se deu na encosta do Monte Lamar, dado em homenagem a uma bela jovem que enriqueceu em circunstâncias misteriosas. 

Após atirar-se, matando-se na hora, o Padre Elói, que sempre fazia bico como legista, atesta o suicídio e prepara um Tête de veau, como de costume, para a família do morto. Foi o primeiro livro em que Padre Elói diz seu famoso bordão. Durante a ceia, uma cena de rara beleza, mesmo para os padrões de quem se educou com os contos de Dylan Thomas e Rubem Fonseca, o velho padre levanta um brinde e diz: “Foi um suicício exemplar”, chocando a todos com sua astúcia, incomum em padres de pequenas paróquias.

Ibn compôs algumas das melhores despedidas da história do auto crime - subgênero da literatura policial em que a pessoa se assassina a si própria por odiar-se mortalmente. Em carta dirigida a Alceu Amoroso Lima, MacNamara diz que concebeu seu plano literário enquanto arejava a mente num lupanar de Londrina, e que ficou grato ao Vampiro de Curitiba por ter sido tão preciso ao realçar a diferença de gênero em relação ao clássico policial. Trata-se de um tipo de literatura ainda completamente desconhecido pelos leitores mundo afora. Quando enlouqueceu, em 1994, acreditaram que Ibn cessaria sua escrita, mas os leitores foram surpreendidos com a história derradeira do famoso padre.

O Padre Elói talvez seja o grande investigador/legista desse tipo extravagante de prosa, ignorado por leitores mundo afora. Eternizado no livro Tête de veau Para Todos, nosso herói carrega todos os elementos de um grande personagem: um braço maior que o outro, um nariz em forma de funil e duas sobrancelhas arqueadas como as pernas de uma dançarina do Moulin Rouge que teve desgaste nos meniscos. Além de medir quase dois metros de altura².

Poucos escritores mereceram a desatenção do público quanto Ibn MacNamara. Naná, como era chamado rudemente, urdiu um personagem tão especial e cheio de nuances que, no seu último livro, “Não Foi um Simples Tropeço, Padre Elói”, soubemos que o Padre Elói era o verdadeiro assassino. Em todas as histórias era ele quem matava suas vítimas, seja por meio de sermões violentos, penitências impossíveis de se cumprir ou simplesmente colocando um pé para que a vítima tropeçasse à beira de um barranco, como fez (soubemos depois) com Berba Doce. A crítica e os fãs quedaram-se de queixos caídos. “Seus atestados de óbito eram o jeito perfeito para despistar a polícia”, escreveu João Alexandre Barbosa no ensaio Elementos da Poética de Gregório de Matos no Romance de Ibn MacNamara.

Em entrevista à revista Manchete, de setembro de 88, MacNamara diz que, embora fosse um católico exemplar, ficara ressentido com o padre de sua paróquia que se negava a lhe dar a hóstia na boca, preferindo atirar-lhe na direção dos olhos. O padre, que era muito amigo da família e conhecia os talentos literários do pequeno Ibn, chegou a dizer ao avô do guri que seu único desejo era “tornar aquele ranhento o Camões de Ponta Grossa”. Um claro indício de que o astuto padre fora uma espécie de Sr. Miyagi ou Obi Wan Kenobi para o pequeno Mac. Fato que apenas Josè Guilherme Merquior trouxe à baila num poderoso artigo em que condena a estrutura das novelas de Ibn MacNamara. 

Pouco antes de morrer, no Programa Cara a Cara, o já velhinho Ibn disse que o sonho da sua vida era que suas novelas fossem adaptadas para o cinema. “Robert Wagner daria um ótimo Padre Elói'', finalizou o escritor.

Houve alguns casos de suicídios reais que foram reportados no Notícias Populares, como esta de 27 de maio de 1995, três semanas após a publicação do livro: “Padre assassino leva leitor ao suícidio”.

Ibn escreveu ao todo quarenta e quatro histórias em que o Padre Elói é o protagonista/investigador/legista e, como soubemos mais tarde, também o assassino. Além de Tête de veau Para Todos, de 1965 e O Padre Elói Desce as Escadas, de 1976, suas grandes obras são:

  • Padre Elói Reclama do Guisado, 1961
  • A Carne Assada Não se Mata e Outras Histórias do Padre Elói, 1970
  • Senta ao Meu Ladinho, Padre Elói, 1972
  • Padre Elói Atesta, Deus Pune, 1977
  • Meu Nome Ainda É Padre Elói, 1981

A trilogia texana:

  • O Padre Elói Vai ao Texas, 1982
  • O Padre Elói Se Lambuza de Barbecue, 1983
  • Austin Diz Adeus ao Padre Elói, 1985

As obras de seu período barroco:

  • Padre Elói vai ao Burger King, 1991
  • Mon Bijou, Padre Elói, 1993

E sua magnus opus, Não Foi um Simples Tropeço, Padre Elói, 1995

NOTAS:

¹ Nova Fronteira, 1976

² Ver ensaio de Alfredo Bosi sobre a análise de João Adolfo Hansen sobre o artigo de Antonio Candido a respeito do papel crucial de MacNamara na formação intelectual dos bispos da CNBB

³ BARBOSA, João Alexandre, In Topografia do Astuto Fariseu, Ed. Relume-Dumará, 1998

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