Guilherme Freire
O que há de errado com o mundo?
O que há de errado com o mundo?

O avanço da internet está regredindo a humanidade a uma vida tribal

Por 
Guilherme Freire
4/21/2022
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Hoje eu vou comentar sobre a teoria da comunicação de Marshall McLuhan, em especial a internet. É preciso entender o conceito dele do Vilarejo Global, que primordialmente vai ser aplicado a internet, e quais são os impactos disso para nossa civilização hoje; além de esclarecer quais são os impactos que isso vai ter no futuro e de que modo ele previu as mudanças que estão acontecendo agora com as redes sociais e com a Internet.

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Marshall McLuhan foi um dos maiores teóricos da comunicação da história, canadense e contemporâneo de Northrop Frye - outro teórico importante da comunicação. McLuhan estudou o Trivium clássico e São Tomás de Aquino.

Ele era professor de literatura e constantemente inseria conceitos literários na teoria da comunicação. Fazia isso para ver se eles explicavam as novas teorias.

Ficou famoso por causa da ideia de “meio a mensagem”, que basicamente significa avaliar o quanto o meio de comunicação impacta na forma como o ser humano lida com o mundo. Não só o conteúdo causa impacto, mas o próprio meio e como ele está disposto já é algo com uma mensagem própria.

Um conceito muito famoso dele é a “Galáxia Gutenberg”. Com o advento da Imprensa, surge uma cultura mais individualista, porque as pessoas passam a ler os livros e tirar suas próprias consequências.

Houve um tempo em que os estudos eram feitos em grupos, em bibliotecas, em universidades, ou mosteiros. O saber era uma atividade mais coletiva e as ideias, teses e consequências eram restritas a um horizonte de expectativa mais seguro.

De um lado, a imprensa cria uma cultura mais individualista, no contexto do advento dos Estados-nações, com seus livros, textos e listas de censura. Do outro, há o coletivismo da Cristandade medieval.

Toda essa mudança cultural provoca inclusive diversas guerras. Na busca por impor seus conceitos e definições, os Estados modernos guerreiam tentando se definir no mundo.

Essa transformação provoca uma mudança na cultura global. No mundo antigo e medieval há o apreço pelos livros e pela cultura, mas eles estavam vinculados às livrarias, às bibliotecas. Ir até a biblioteca era um ato meio comunal, uma coisa do mosteiro, da cidade.

Essa mudança, não de todo ruim, é totalmente deixada de lado com o advento da era eletrônica.

Segundo McLuhan, há o advento de uma nova cultura. Se na antiguidade e modernidade, a cultura era hot, segundo sua terminologia, agora a contemporaneidade digital é uma cultura cool.

A ideia de quente (hot) denota a chama, aquela específica das velas que iluminavam as leituras. A ideia de suave, além de denotar a gíria jovem da época para legal, mostra como essa nova cultura é um câmbio completo para o oposto do que estava em voga.

Assim, a humanidade entra em uma cultura mais legal, mais cool. Uma cultura que busca ser descolada. Esse descolamento envolve os estímulos dos sentidos.

Estimulando os sentidos, o homem é distanciado daquela reflexão profunda das coisas e adota uma postura mais fria. Esse estímulo também faz com que ele seja envolto como em uma bolha, saindo de si mesmo.

É mais ou menos como o exemplo da música do Rock. Para McLuhan, a música de rock gera uma bolha sonora.

Se na época da imprensa uma pessoa pegava o livro, parava, ficava meditando, elevando-se, ao menos havia a experiência individual de levar o livro. No contexto da era eletrônica vai se perdendo o contato com os escritos e entrando nessa bolha.

A experiência medieval era algo ainda mais simbólico. O ler o livro em conjunto com outras pessoas é algo mais comunitário.

Essa mudança faz com que a humanidade vá saindo da Galáxia Gutenberg em direção a essa cultura cool, essa cultura do descolamento. E o descolamento tem tudo a ver com a extensão dos sentidos, porque tecnologia é a extensão dos sentidos.

Pela internet é possível ver alguém em um vídeo. Basicamente, o que está acontecendo é a extensão dos sentidos: da visão e audição. O vídeo está sendo projetado em direção a pessoa e o áudio traz uma experiência imersiva de uma maneira que o espectador é completamente envolvido no vídeo.

Normalmente, quando se fala do progresso das mídias, fala-se do progresso do quanto se consegue emular os sentidos, copiá-los e estendê-los.

Uma câmera profissional, por exemplo, é melhor que uma amadora, porque ela emula melhor o sentido da visão, ela estende melhor, fica mais parecido com o que seria ver a imagem ao vivo.

O vídeo é uma evolução em comparação a um áudio, pois está basicamente estendendo ainda mais os sentidos.

Ocorre assim a extensão dos sentidos como forma de evolução dos meios de comunicação. É nesse aspecto que a tecnologia está melhorando. Estendende melhor os sentidos.

Mas isso de estender os sentidos tem um limite. Ao realizar tal extensão, entra-se na bolha total, numa segunda realidade - o que tem a ver com esses óculos de realidade virtual.

É possível estender completamente os 5 sentidos, mas ao fazer isso, o indivíduo será totalmente imerso num mundo artificial.

Esse é o limite da evolução desses meios de comunicação. Cada um chega ao ponto em que tem que escolher entre o mundo real e o mundo falso. Com isso, há o risco real da perda da identidade, da perda do eu.

Desse modo, o progresso das redes sociais, dos meios de extensão dos cinco sentidos, começa a ter um limite. Ele pode gerar até um certo colapso civilizatório, porque as pessoas começam a viver num mundo falso, isso pode de fato acontecer com a evolução dos meios de comunicação. Esse é um dos problemas possíveis.

Por outro lado, as redes permitem acesso a um conteúdo diferente, algo que possivelmente não poderia ser acessado de outro modo.

Eume abri para a alta cultura e para o mundo intelectual, para exemplificar, só quando eu tive acesso à internet. Caso esse caminho tivesse sido vedado, eu não teria acesso a isso. Descobri Santo Tomás de Aquino pela internet.

Neste contexto, existe essa relação ambígua:

  • por um lado, uma ferramenta evoluindo e conseguindo emular os sentidos, o que de fato permite acesso a mais coisas;
  • por outro, a mesma ferramenta é perigosa.

Marshall McLuhan sempre olha os dois lados do problema. Diz que existem dois caminhos, e faz isso em escritos diversos. As possibilidades são:

  1. a evolução do Vilarejo Global;
  2. a criação de pequenas comunidades na nova rede.

Vilarejo Global é um importante conceito de McLuhan que parece uma descrição literal da realidade de hoje.

McLuhan cunhou os termos que usamos para nos referirmos à internet, fez isso no começo dos anos 60 - antes do mundo virtual. Deixando a Galáxia de Gutenberg, chega-se a uma era global e o que foi inferido por ele se confirma. Nosso vocabulário já envolve: navegar, navegação, rede e conexão global.

Ele já descreve um processo global de interconectividade em que as pessoas são imersas em informação a todo momento, a toda hora, em grandíssimas quantidades, coisas que não aconteciam no mundo anterior.

Em uma previsão impressionante, McLuhan falou o que hoje é para nós óbvio, mas falou 40 anos antes de acontecer. Foi na década de 60 que suas deduções foram feitas.

Saindo da fase da Galáxia Gutenberg, chega-se à fase do Vilarejo Global. Para Marshall McLuhan, esse processo denota uma volta à tribalização.

As pessoas voltam a pensar como tribo, tendo uma consciência coletiva. Começam a usar símbolos comuns a todos para descrever a realidade em vez de usar a linguagem para descrevê-la. Esses símbolos remetem a oralidade, um fenômeno que vai voltar.

Além da oralidade, os estilos musicais remetem aos cultos tribais antigos. Atualmente, os estilos musicais tendem a atenuar harmonia e uma série de coisas para focar em ritmo e batida. Palavras e batidas, a música parece regredir nesse ponto para esse caminho visivelmente mais tribal.

É uma cultura também de muito pânico, porque basicamente num Vilarejo Global, os estímulos do medo são constantemente ativados. Um dos mecanismos das tribos antigas para manter uma coesão é alimentar um certo pânico, um temor frequente.

Na internet, isso se dá da mesma forma. Ela é uma ferramenta pensada para chamar constantemente a atenção das pessoas, para congregá-las, muitas vezes valendo-se de um recurso de pânico.

Uma isca de pânico é lançada, as pessoas entram em crise e daí elas seguem, vão para um determinado caminho por causa desse pânico. Isso é uma coisa meio própria do Vilarejo Global.

Ao mesmo tempo, existe uma tensão total no Vilarejo Global, uma tensão entre a tentativa de homogeneização e a formação de pequenas comunidades.

Os jornais e os políticos são os mais ávidos por essa homogeneização, porque eles querem ver a tribo como algo uníssono.

Essa homogeneização das pessoas, das definições hoje são a entropia dos costumes, a dissolução total dos costumes. Isso é típico de uma cultura censura.

A Tribo Global é inevitavelmente ameaçada por sua própria natureza, porque não é possível algo em escala global tão homogêneo e as pessoas podem formar essas pequenas comunidades na Internet.

De um lado essas tribos vão brigar com as outras, existem conflitos acentuados dentro de uma sociedade. Do outro, essas tribos menores conseguem abrir caminhos para ideias - de alta cultura inclusive. Isso choca aqueles que querem a homogeneidade da tribo.

Por isso essa necessidade de tentar censurar as pequenas tribos que aparecem, que não propagam essa visão globalista, que tem essa noção de levar o progresso tecnológico a todo o custo descolando as pessoas do próprio corpo e cada vez as imergindo mais numa nuvem tecnológica.

O descolamento da realidade, o globalismo associado à censura, o descolamento dos sentidos do corpo não estão conectados à toa. Tudo isso é um gnosticismo puro, uma coisa interessante de se associar 

De outro modo, a internet pode ser usada para comunhão. O Vilarejo Global pode ser usado para comunhão, algo que não estava acontecendo com as divisões da Galáxia Gutenberg. De um lado há o Corpo Místico do Cristo e o corpo do AntiCristo sendo gestado simultaneamente.

Corpo Místico do Cristo é a comunhão online que as pessoas vão criando com outras pessoas, as comunidades que vão surgindo e criando uma relação.

E o AntiCristo é esse Globalismo descolado dos corpos, uma ação de controle global.

McLuhan em seus escritos pontua: se você descolar, acabar saindo de si próprio no Vilarejo Global, os seus sentidos vão sair de você e o Big Brother vai entrar na sua cabeça.

  • Leitura recomendada: 1984, o clássico de George Orwell.

Ele tem uma frase interessante no seu livro “Understanding Media, que diz: “entender o Vilarejo Global é se tornar um reacionário”.

Entender o que está acontecendo, é dar um passo reacionário. McLuhan inclusive tem uns textos em que fala que gostaria de ser como um Hobbit, vivendo em uma pequena comunidade. Ele está extremamente preocupado com essas mudanças tecnológicas.

De certo modo, à medida que as mudanças tecnológicas estão acontecendo, é necessário usá-las para promover uma cultura diferente.

Evidentemente, esta é uma fase ambígua: de um lado há a tentativa de um Globalismo, e por outro lado, a possibilidade das comunidades serem conectadas.

Isso é um pouco da tensão que se vê hoje: a atomização completa. Por mais que a Galáxia Gutenberg fosse mais individualista, a tribo pode atomizar completamente o indivíduo. Todos estão presos em um mundo conectado e já não pensam por conta própria.

As pessoas ficam repetindo chavões que o grito da tribo global fica jorrando de maneira simbólica, com músicas e filmes muitas vezes, com coisas que não são necessariamente textos. Porque os textos as pessoas não querem consumir, porque elas estão entrando no mundo eletrônico.

Quanto mais dominada pelo mundo eletrônico, mais elas vão tender a copiar os chavões desse novo mundo, os chavões do mundo globalizado e repeti-los de maneira estúpida.

Só que na medida que elas não estão pensando, não estão refletindo, não estão lendo, elas se tornam completas vítimas disso e se tornam completamente incapazes de ter relações humanas verdadeiras. Elas se tornam atomizadas, portanto, perdidas.

Imagina um cara que coloca um óculos VR e começa a ver nesse mundo uma vida nova em que ele acha que está completamente livre.

Esse descolamento de sair do próprio corpo, na verdade faz com que ele seja completamente determinado por coisas que foram colocadas em cima dele. Então esse indivíduo é incapaz de sair, não tem nenhum tipo de liberdade, ele só é determinado pelos chavões.

Isso é um fenômeno que simplesmente está acontecendo agora. E o fenômeno contrário é bem McLuhaniano: aprender o impacto que essas coisas têm e utilizá-las de uma outra maneira, alcançando essa noção da comunhão, da união entre as pessoas.

Esse é o conceito do Vilarejo Global, é algo que está acontecendo hoje e cada vez mais nós vamos ver seu agravamento. As pessoas vão se tornar mais descoladas da realidade, mais imersas na suspensão dos sentidos.

Ao mesmo tempo, a comunidade vai aparecer cada vez mais como um contraste em relação à globalização.

Os conflitos vão ser cada vez mais determinados via internet, vão ser todos conectados. Cada vez nós vamos ser mais atomizados e mais distanciados dessas questões de família e comunhão.

O livro, o texto, cada vez mais vão parecer algo perdido. É necessário achar outros meios de reconstituição simbólica e imaginativa para reintroduzir a alta cultura, a leitura. Usar outros métodos para mostrar às pessoas a leitura. Para conduzir as pessoas a lerem, nós temos que usar as comunicações digitais.

Se o que o McLuhan falou é verdade, entender o Vilarejo Global é se tornar um reacionário, então há muito trabalho a ser feito com as novas tecnologias.

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