Flavio Morgenstern
Língua morta - Livros velhos, metafísica mofada, linguagem ultrapassada, guerra e fim do mundo.
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Feminismo é o novo emo

Por 
Flavio Morgenstern
5/4/2022
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A choradeira é gourmetizada, o discurso agora é pra todas as idades, mas a franja, a música ruim e a alimentação sem proteínas continuam idênticas. Conheça a nova modinha.

O mundo é assolado por um espectro: o espectro do feminismo. Feminismo é o nome técnico pra quando mulheres reúnem-se para falar mal de homens, o que é basicamente o que Eva já fazia com uma cobra falante há exatos 5 mil anos. 

Mas feminismo é gourmetizado, é uma falação mal com um adicional de insalubridade, é acadêmico e fatimabernardesiano. Feminismo é a maledicência ideológica, é a frustração sexual elevada a doutorado, é a música da Carol Conká tratada como jurisprudência.

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Feminismo tem o caráter perfeito para a propaganda: tenta se passar como algo chic e ao mesmo tempo acessível a qualquer proletário. Vende bem e é socialista. Parece academicamente refinado, ao passo que pode ser repetido por qualquer funkeira (e funkeiro) com vocabulário inferior ao de um papagaio. É a exata medida do que o marketing chama de “transgressor de Rede Globo”: o cara que acredita ser revoluça por ter cirurgicamente o mesmo vocabulário da novela Malhação - e de todos os poderosos.

Nem a calça jeans conseguiu atingir todas as classes sociais e ambientes tão bem quanto o feminismo.

Sem falar na tucanização da obviedade e da luta de classes. O mundo hoje acredita que exista uma luta entre opressores e oprimidos (o auto-corretor já veio com metade da frase pronta). Pega mal falar em "proletários" entre quem não tem prole (inclusive a aborta) e em "burgueses" quando a moda é jovem empreendedor saindo da classe D. 

E como então os ricos vão continuar mandando, se o discurso que usam para mandar em nós, os lascados, é de que eles, a velha elite, precisam mandar em nós porque representam oprimidos, enquanto nós, os pirangueiros, somos, na verdade, extremos opressores?

Na prática, então, o feminismo serve para você, que é branca, bonita, rica, poderosa, desejada e que olha para transeuntes na rua mais ou menos com o mesmo valor de uma pilastra de garagem - como um obstáculo a ser contornado - também dizer que é “oprimida”. Só se dizendo "oprimido" é que se pode falar e falar fingindo conteúdo, igual uma Miss Universo. 

Assim você reclama do cosmo por ser mulher, dizendo que sofre muito e que tem uma história de superação ao chegar num programa televisivo vespertino de Porsche e sandália Dulce & Gabbana com seus meio milhão de seguidores no Instagram vendendo viagem para a Grécia. A elite também precisa ser coitadinha.

Essa é a maior conquista do feminismo: a democratização do discurso vitimista. O mimimi como estado ontológico. O reducionismo crônico das mazelas sociais, familiares e existenciais a uma gincana do Show da Xuxa. Aliás, não há maior feminismo do que Xuxa roubando para as meninas na brincadeira de andar com uma colher na boca segurando uma laranja. Foi o ápice do movimento. Todo o resto foi só chorumela e esquartejar bebês.

Mas nada ofende mais uma feminista do que encarar a mais dura verdade de todas: a de que o feminismo é mainstream. É modinha. É marketing. Banqueiro tá lucrando horrores com a conta da mulher empoderada solteira a mãe de pet (Dante já havia colocado usurários no mesmo ciclo do Inferno dos pecados contra a família por alguma razão). Grandes conglomerados capitalistas vendem camisetinha pra revoltadinha com punho erguido igual vendia estampa de bolinha nos anos 50 (e camiseta do Che nos anos 90). 

A Kulturindustrie, então, nem se fala: o funk rebolando o boga feminista e o livro de letras grandes com frases fáceis (sem nenhuma subordinada) da guru feminista enchem o rabo dos donos dos meios de produção e divulgação cultural de dinheiro, enquanto enchem a cabeça das crianças do que sai de certos rabos.

Feminismo é mainstream. Feminismo é o identitarismo mais tosco e eficiente: aquele que parece transgressor, quando só favorece os poderosos. O sonho de todo banqueiro, todo corrupto, todo engenheiro social, todas as pessoas que tratam seres humanos mais ou menos como engrenagens (ou formigas a serem esmagadas) é uma ideologia facilmente repetível, que forme um senso de identidade coletiva, enquanto não tem clareza nenhuma.

Feminismo, pelas redes sociais, pode significar igualdade salarial entre homens e mulheres (o que existe desde mais ou menos a era das nossas bisavós) até não fazer escova no cabelo. Pode significar “ter mais cientistas mulheres” (enquanto quem diz isso geralmente vai estudar “teoria queer” e dizer que isso é crítica literária) até “sexo anal contra o capital” (lógica é uma teoria da conspiração de extrema direita).

Nada pode ser mais verdadeiro e mais irritante para a feminista de redes do que admitir que o feminismo é mainstream. Do que forçá-la a ver, a la Laranja Mecânica, que feminismo está na Rede Globo, em toda a Folha, em toda propaganda de alta costura até chinelo, e que nada é mais modismo manada do que isso. Nada hoje pode ser mais seguir o rebanho do que ser feminista - como o era usar calça boca de sino nos anos 70 e com cintura altíssima nos anos 80.

E o pior: se as modas antes eram apenas venda, agora são venda casada: o feminismo já vem com anti-depressivos. Afinal, cada vez mais o feminismo é o novo emo. Se você tem mais de 30 e tem vergonha de ter usado aquelas ridículas calças com elástico passando pelo tornozelo e pochete, pelo menos passou incólume pelo emo. 

O emo era o hardcore mela-cueca (ou seja, de hardcore só tinha não saberem tocar mais do que 2 notas por música), voz chorosa e letra ruim. O emo era cortar o cabelo de franjinha para mostrar que estava revoltado com a sociedade - sociedade esta que estava tocando emo nos rádios enquanto todo mundo cortava o cabelo de franjinha. Emo tinha uma glamourização de se trancar no banheiro e ficar se cortando, morrendo de medo de cortar de verdade uma veia.

A propaganda onipresente do feminismo (tente dar um passeio por um grande centro urbano sem cruzar com propaganda feminista em algum lugar) é trabalhar com tudo o que seja depressão para a garotinha pós-moderna: pais separados ("contra o patriarcado!"), fora do namoradinho ("não sou objeto e vivo sozinha e virarei lésbica"), dificuldade com ambiente de trabalho (tudo é machismo, e ao mesmo tempo reclamam que os homens parecem engessados) e assim por diante. Feminismo é a propaganda do Lexotan.

Ou seja, igual o emo, mas com hiperglicemia. Feminismo é modinha, depressão, idolatria e falta de clareza conceitual. E, claro, seguir o que os poderosos querem.

Se feministas se acham tão únicas e anti-sistêmicas, já tentaram dizer por aí que não são feministas para descobrirem como é a sensação?

Ainda bem que nem todos vivemos de modinha. E nosso gosto musical tem mais do que 2 notas.

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