Carlos de Freitas
A Vida Como Ela Não É... A palavra enquanto espaguete ao sugo
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Em busca do personagem perdido

Por 
Carlos de Freitas
4/26/2022
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Otto Lara Resende diz que o brasileiro conhece os três primeiros minutos de qualquer assunto. Eu escrevo os três primeiros minutos de qualquer coisa: conto, novela, romance, bilhete de suicídio, de sequestro, nota de esclarecimento. Passou disso a coisa turva. O texto não avança de jeito nenhum. Mal passamos a rebentação da história e algum personagem encrespa comigo e se recusa a agir.

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Possuo primeiros parágrafos integralmente geniais, mas daí pra frente é como se o espírito resolvesse soprar contra e a evolução dos personagens pára de repente. Já na escola, na famosa redação sobre as nossas férias, a coisa dava um jeito de melar. O ônibus quebrava, alguém perdia o passaporte, meu pai me esquecia no hall do prédio. 

Como revolta, passei a só ler os primeiros parágrafos dos livros. Acumulei um tanto de inícios geniais de livros, como o começo de O Estrangeiro, de Albert Camus, em que o gajo nem se lembra se a mãe morreu hoje ou ontem.

Ou esse exemplo de concisão e beleza:

“O silenciador produzido pelas indústrias Bevilaqua, além da ótima vedação acústica feita pelo Grupo Randolf, fez com que o som do tiro dado por Alípio Carmine, não ecoasse na entrada do salão principal do teatro municipal de Nielhsburg, na noite de quarta-feira, dia da estreia da famosa ópera O Ingrato, de Ferdinand Grappa, matando o ilustre tenor Armandinho Pileque.”

Hiroshi Kuhn, Quem Matou Armandinho Pileque?

O fato é que de grandes ideias não se enche o balão, dizia Gandhi. E se ele não disse isso, é a primeira vez que não diz algo.

O espanhol Enrique Vila-Matas escreveu sobre a síndrome de Bartleby. Escritores que simplesmente param de escrever. Salinger, Juan Rulfo. O que Vila-Matas deixou passar é que existem personagens acometidos desta síndrome também. 

Logo no início de Conversações com Brigite, um romance-ensaio em que eu pretendia explicar que quando Agatão, no Banquete platônico, descreve Eros como um grande técnico, um grande caçador e um grande viajante, ele, na verdade, estava descrevendo o Renato Gaúcho, a pequena Brigite mostrou-se um pouco entediada e parou de dizer suas falas. Tentei me corrigir, escrevendo sobre o fascínio de seus olhos, sobre como suas mãos macias lembram uma pintura de Honoré Daumier, mas Brigite ainda se nega a me responder. Já faz três anos.

O fato é este: toda vez que eu começo a escrever uma boa história, ainda nas apresentações, o personagem principal, que preparo com o maior cuidado, escandindo minuciosamente cada traço de sua personalidade, resolve cair da escada e passa o resto da história mancando, o que compromete as cenas de perseguição; ou, se tudo vai bem, redondinho, o dito resolve passar umas horas se embebedando num pub. Bem no ponto de máxima tensão.

Tive de recorrer ao revezamento. Quando escrevia algum começo bem brilhante, caridosamente passava o parágrafo a algum escritor menor para que desse sequência na história, como o de um personagem que criei e dizia ser um homem doente, um homem mal e que sofria do fígado. Não sei que fim levou.

Criei também um personagem para um romance de formação que tinha em mente e que de carta ficou doente. Passei a história a um alemãozinho que resolveu colocá-lo, logo de cara, num sanatório no alto dos Alpes Suiços. 

Outro dia comecei um conto incrível: o herói parecia um sujeito dos bons, honesto, com esposa e uns filhinhos, então dezoito linhas depois conheceu uma dona encantadora, quase calva e bem vesga, que vendia jogo do bicho num boteco na Praça da República, e ele, tomado de amor, decidiu se converter ao candomblé. Não se pode mais confiar em ninguém mesmo, nem numa mera representação humana, delineada por nossos próprios punhos.

Meu conto O Antagonista, que contava a história de três proeminentes comediantes de um país fictício, acabou por falta de atividade relevante da trinca. Fosse um só, vá lá. Amotinaram-se contra mim e desde então só fazem fofocas e criam intrigas.

Minha magnus opus, Levantando Rosas, em que conto a trajetória do piloto de Kart Ascendino Rosas foi interrompida por um problema no câmbio do Kart. Nem um ex mecânico da Lotus que inventei no segundo parágrafo deu conta de consertar a marcha do maldito carrinho. Levantando Rosas tinha tudo para ser o meu Em Busca do Tempo Perdido, mas não durou uma única página.

Outro dia criei um agente secreto boliviano com licença para dar socos e chutes. Pois quando ele estava em Nova Iorque, no encalço de índios antropófagos que haviam sequestrado e assado uma criada da Rainha Vitória, contraiu febre amarela e quase morreu. Quer dizer, a receita do assado se perdeu pra sempre.

Um amigo me disse que o melhor lugar para procurar bons personagens é numa boa casa de tolerâncias. Passei um mês indo lá. Hoje estou falido, divorciado e não me apareceu uma porcaria de um personagem, nem sequer um figurante.

Tô pensando em ir para a filosofia. Talvez a abstração me faça algum bem. Já tenho um diálogo quase pronto: faltam uns travessões, dois contra-argumentos e uma interjeição de dor. É uma explicação sobre a condição e a disposição da alma quando o garçom quer ser engraçadinho. Logo mais o entrego à editora, lapidadinho.

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