Guilherme Freire
O que há de errado com o mundo?
O que há de errado com o mundo?

A crise da masculinidade escancarada em exemplos atuais

Por 
Guilherme Freire
6/1/2022
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Hoje vou falar sobre K-Pop e masculinidade. Antes que alguém se exalte e fale “ah, é só um pânico moral e reacionário sobre a perda da masculinidade”, saiba que não é bem nessa linha que vou conduzir essa reflexão.

Quero fazer uma análise simbólica de um certo tipo de imaginário que circulava na cultura popular no extremo Oriente. Depois, como se mudou essa percepção e como este câmbio chega no Ocidente. De algum modo, essa transformação reflete na nossa cultura e na de outros países.

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Voltando para os anos 80, existe uma série japonesa de mangás, Hokuto no Ken, que conta com o personagem principal Kenshiro. Seu mundo é um local bizarro, grotesco, cheio de ameaças.

Os desejos humanos neste mundo são desgovernados, a luxúria, a ganância das pessoas. É um mundo pós-apocalíptico, uma espécie de Mad-Max.

Kenshiro é uma mistura de Stallone com Mel Gibson do Mad-Max, mais os golpes do Bruce Lee. O protagonista é portador de uma cultura de artes marciais que é representada na história como uma janela para uma tradição.

Kenshiro é uma figura de força, em um cenário caótico, perigoso, ameaçador, onde os desejos desgovernados podem se tornar uma ameaça a qualquer momento, eles estão à espreita.

Diante deste cenário, Kenshiro surge como uma figura sólida, que oferece proteção a uma criança, a uma vila de pessoas indefesas.

O protagonista é até cego, isto é mais um dos símbolos de sua força, mesmo com o problema de visão ele tem que carregar o peso nas costas de lutar contra o mal e conferir proteção aos seus.

Quando falam que os anos 80 tinham um elemento de masculinidade nas histórias, as pessoas tendem a olhar só para elementos externos. O Kenshiro é bombado, mas a questão simbólica principal não é o elemento externo da estética.

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Kenshiro explodindo a cabeça de seus inimigos.

O que está em jogo em sua história são os desejos desgovernados, um problema que precisa ser enfrentado. Isto cria homens maus, ameaçadores, que canalizam sua força para o mau.

Kenshiro os enfrenta, coloca-se contra eles. Ele representa o epíteto:

“Tempos fracos produzem homens fracos; homens fracos produzem tempos difíceis; tempos difíceis produzem homens fortes.”

Kenshiro precisa ser a figura que oferece força para enfrentar os vilões, simbolizando uma esperança para o povo ameaçado de seu mundo.

O desenho é bem bizarro. O protagonista explode as pessoas com seus golpes, é bem dramático. Mas interessante é perceber o imaginário por trás disso.

É o tipo do imaginário presente na cultura ocidental: Rocky Balboa, Mad-Max 2. Estes filmes foram exibidos no Oriente. Hokuto no Ken é justamente um reflexo dessa cultura, misturado com vários outros elementos da cultura japonesa.

Kenshiro é um grande símbolo da masculinidade. Nos anos 80, há muitos outros personagens nessa linha. Mundo caótico, paixões perigosas e o herói vai enfrentar tudo isso.

As cicatrizes são elementos comuns desses personagens, elas simbolizam o herói que enfrentou todos os males e perigos sem medo.

Nos anos 90, a tendência continua. Em minha infância, meu desenho favorito era Dragon Ball, outra série japonesa. Goku, o protagonista, constantemente tem que se fortalecer para enfrentar seus desafios.

Existem defeitos no Dragon Ball, como o Mestre Kame, umas coisas meio ridículas, mas a mensagem principal é eficaz.

Goku treinava constantemente, buscava a todo tempo se superar para vencer os vários desafios que surgiam pelo seu caminho. Tudo isso para proteger pessoas mais fracas.

O protagonista tem um elemento aristocrático, há uma questão de linhagem, Goku pertence a uma raça de guerreiros. Ele carrega um legado por conta disso, mas, ao mesmo tempo, ele diverge desse legado para se tornar um protetor da Terra.

O desenho Dragon Ball tem uma estrutura de vilões interessantes. No Dragon Ball Z, o primeiro vilão é Freeza. Uma figura confusa, obcecada por poder, há também o elemento de luxúria, concupiscência e poder. Uma mistura de irascível com concupiscível.

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Majin Boo, Freeza e Céll, vilões principais de Dragon Ball Z.

O próximo vilão é o Céll. Um cara que é viciado em tecnologia e no consumo das coisas. Ele inclusive consome os outros.

E por fim, o Majin Boo, uma espécie de crianção. Isto é bem interessante. Mesmo na sua forma que mistura o Majin Boo magro e gordo, ele é uma criança que quer transformar as coisas em chocolate.

Ele simboliza uma mistura de magia oculta, com megalomania e a ideia de que tudo isto produz crianças mimadas. Essa é mais ou menos a estrutura do Dragon Ball.

Em contraposição, há os heróis Goku e seu filho, Gohan. Gohan é educado a partir do homeschooling e há um episódio simbólico.

O filho do protagonista vai a uma escola e é tido como um ser de outro planeta. Ele é mais forte, de uma linhagem mais pura que os outros colegas, ele é mais inteligente e fisicamente melhor que os outros colegas.

Gohan também se junta a seu pai na proteção das pessoas. Ele tem sua armadura de combate. Tudo isso representa uma disparidade da realidade do Gohan com a realidade que o circundava na época.

Os anos 90 refletiam a tensão da Queda do Muro de Berlim. Os países ocidentais voltando seus olhares para seus problemas internos.

A cultura do treinar, do ser forte para conferir proteção, ainda paira no mundo de Dragon Ball.

Começa agora o problema e é necessário falar disso. Na minha infância, depois do Dragon Ball, começa a passar o Bob Esponja. A masculinidade já foi completamente tirada da história, os personagens são puramente irônicos.

  • Você realmente sabe o que seus filhos estão assistindo? Veja essa conversa de pais preocupados com os desenhos animados atuais:

O protagonista não se casa na trama, ele e todos os outros personagens são fracos, mas o cerne do problema não é isto. O desenho mostra um protagonista que não tem um propósito.

O Bob Esponja é irônico, o capitalismo é irônico, o restaurante é irônico, todos os personagens também são, não há nenhuma ideia de melhora pessoal no enredo. Nenhuma conquista concreta paira nesse universo.

O mundo de Bob Esponja não demonstra um mundo perigoso à espreita. Parece simplesmente que é um cenário bobo. Isto impacta no imaginário.

Eu assistia Dragon Ball quando era criança, os personagens sangravam, tinham membros decepados, minha mãe que ficava preocupada com isso. No Bob Esponja, isto vai se perdendo.

No Dragon Ball ainda tem uma figura interessante que merece destaque: o Mr. Satan. Ele é um personagem fake, um cara midiático. Sua virtude é algo tal qual como aparece na TV, ele não é a virtude real.

Há a contraposição entre a virtude midiática e a virtude real. Essas reflexões importantes vão se perdendo nas novas animações.

Defeitos como os do Mr. Satan antes eram algo perceptivo. No entanto, com a mudança de mentalidade promovida pelo relativismo, as pessoas deixam de enxergar determinados defeitos pessoais.

Tornam-se incapazes de perceber como seus desejos podem gerar uma desordem e, consequentemente, um caos. Este caos demanda que surja uma força para combatê-lo.

A única ameaça que as pessoas enxergam hoje é uma ideia vaga de autoritarismo. Valores, virtudes e limites também são taxados de autoritarismo. Tudo é seguro, conquanto não haja agressividade.

Os desejos humanos não levam ao caos, não são uma ameaça, não levam a desordem, eles simplesmente devem ser fomentados e levados adiante.

Piorando ainda mais este cenário, surge outro problema que o agrava: a noção de consumismo. Alguns alegam que o fenômeno K-Pop é mero reflexo deste consumismo. Mas, simbolicamente, o problema é muito maior.

As bandas coreanas vendem a ideia de que todos os desejos podem ser satisfeitos consumindo, comprando coisas, que a vida é feliz com estas altas injeções de dopamina.

Tudo isto vai criando um falso universo colorido, onde não existem ameaças. O mundo é permeado por estímulos, como os das redes sociais, as notificações. Quanto mais colorido, mais estímulo e mais dopamina. Tudo isto vai infantilizando as pessoas.

Desse modo, a pessoa não faz a passagem para a vida adulta, não se faz a passagem do menino para o homem.

A estética dos desenhos raramente retrata características reais das pessoas, nelas predomina um certo exagero. No Kenshiro, dificilmente ele irá retratar um pai de família, mesmo assim ele passa uma importante mensagem da importância da força física para cuidar dos seus dependentes.

Nos desenhos atuais, de 2000 em diante, a mensagem que se passa é outra. Tudo que é propriamente masculino vai sendo retirado, porque a masculinidade vai ser vista como uma agressão. O estímulo à delicadeza vai sendo preferido.

Em contraposição a intensidade masculina do passado, vende-se a delicadeza, um cenário de tranquilidade para o consumo. Um aumento do volume do estímulo visual e o fomento da delicadeza. Tudo isto é perceptível na estética do K-Pop.

O K-Pop é um gênero musical coreano, estou comparando-o com desenhos japoneses. Há uma diferença de gênero, mas eles refletem uma estrutura simbólica da estética contemporânea.

Toda a estética contemporânea passou por uma transformação, justamente para refletir a ideia de tranquilidade, conforto e paz. O comportamento dos membros do K-Pop reflete essa transição.

A perda da virilidade é apenas uma das consequências.

Os membros da banda, usam roupas coloridas, tem uma loja de donuts, a ideia do consumo tem uma força muito grande sobre suas vidas. Questões cruciais são ignoradas e prevalece um padrão de consumo.

Este padrão envolve mais e mais o aumento do estímulo visual. Assim, conseguem vender a ideia de culto ao ídolo.

Há segmentos nesse culto, existe o cantor do donut, o do milk-shake, as pessoas têm a possibilidade de escolher um ídolo favorito dentre vários.

A necessidade de proteção para as pessoas abaixou. Isso não significa que o mundo ficou menos perigoso, que a necessidade de força reduziu, isto tudo significa simplesmente que as pessoas não estão mais expressando, desejando ou procurando adquirir forças.

Rocky Balboa continua sendo extremamente necessário. Os russos continuam existindo como vilões da série, este símbolo ainda remete a realidade. O que mudou foi a falta de necessidade de treinar na neve para vencer as adversidades da vida.

Ou seja, aumentou-se o conforto e a tranquilidade no mundo, mas não findou-se a necessidade de ser uma pessoa forte, capaz de proteger e oferecer segurança aos que dependem de você.

O que mudou foi basicamente como acontece a expressão simbólica dessas realidades.

Parece-me óbvio que no Ocidente o K-Pop vai ser muito popular. É um processo natural. Eles expressam o estado do mundo. Vários desenhos refletem este processo.

Steven Universo, Hora de Aventura. Em Hora de Aventura tem um episódio que os personagens trocam de sexo.

No Steven Universo, o protagonista tem um pai com uma vida desordenada, ele tem algo como se fosse três mães, três figuras maternas. Ele usa um escudo e a namorada uma espada. Tudo isto reflete uma ideia de gênero.

Veja como o padrão muda completamente. No novo padrão, que na verdade é uma inversão dos padrões tradicionais, são esses conteúdos que estão formando o imaginário das pessoas.

É importante entender isso: com essa mudança imaginativa, a geração atual e as próximas estão perdendo a capacidade de:

  • buscar uma melhora pessoal;
  • refletir sobre os próprios desejos;
  • discernir o que é o bem;
  • serem pessoas fortes;
  • fugir dos estímulos prejudiciais do mundo moderno.

Tudo isto cresce exponencialmente nas próximas gerações, afetando o modo como raciocinam.

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