Guilherme Freire
O que há de errado com o mundo?
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Lições do livro Cartas de um Diabo a seu Aprendiz

Por 
Guilherme Freire
6/16/2022
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Cartas de um diabo a seu aprendiz (The Screwtape Letters) é um livro de C.S. Lewis. Obra muito interessante, escrita em uma perspectiva diferente da que os leitores de Lewis estão acostumados.

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Lições importantes que Cartas de um Diabo a seu Aprendiz oferece

C.S. Lewis normalmente escreve livros sob uma perspectiva cristã, com uma linguagem única. Mas, nesta obra, o narrador é um demônio mais velho escrevendo para um demônio mais novo, de modo a orientá-lo sobre como corromper uma pessoa.

O demônio mais velho se chama Screwtape. Nas traduções para o português seu nome aparece de diferentes formas, como Maldonado e Fitafuso.

O demônio mais novo se chama Wormwood. Na história, Screwtape está ensinando Wormwood a agir como um bom demônio, corrompendo as pessoas e fazendo elas se perderem.

Os conselhos apresentados na obra são práticos. Screwtape ensina o que o seu aprendiz deve incentivar na vítima e do que ele deve afastá-la.

São 31 cartas ao todo, mas algumas edições do livro contam com “O Brinde”. Recomendo muito que todos leiam essa parte em especial, é a que considero uma das melhores partes do The Screwtape Letters.

Ela é uma sequência do livro que o C.S. Lewis escreveu posteriormente. Nesta parte, os demônios estão brindando, falando da história do Ocidente e as reflexões de Lewis neste contexto são muito interessantes.

Nas 31 cartas, Screwtape ensina como Wormwood deve corromper sua vítima. Só que o aprendiz é inexperiente, as tentações que ele envia para seu humano não são as melhores para afastá-lo do “inimigo”.

No caso desta obra, o inimigo é Deus. Esta inversão é algo engraçado na leitura, as pessoas costumam demorar a se acostumar com a mudança na linguagem.

Tolkien, por exemplo, não gostou desse livro por conta da inversão da linguagem. Ele achou um pouco perturbador. O próprio Lewis achou o processo da escrita desprazeroso.

Particularmente, eu acho um exercício maravilhoso a leitura do The Screwtape Letters. Ele leva à reflexão sobre as tentações do dia a dia em muitos pontos da vida.

O livro originalmente começou como uma série que o Lewis escrevia numa gazeta da época. Ele escreveu carta por carta, publicadas individualmente. Depois foram compiladas dando origem ao livro de grande sucesso.

A inexperiência do Wormwood é apresentada constantemente nas cartas. 

Screwtape fica irritado quando Wormwood tenta corromper sua vítima por meio do uso da razão.Ele mostra como é uma burrice esse tipo de abordagem. Se a pessoa é levada a utilizar de sua própria razão, ela irá refletir sobre a própria vida, sobre o mundo e no fim vão chegar a Deus.

O diabo mestre ensina que é necessário incentivar nas pessoas várias visões contraditórias, para que as vítimas fiquem contrapondo as várias contradições, fiquem confusas, e no fim, não refletirão nas últimas consequências de tudo o que falam.

O paciente de Wormwood tem um amigo materialista. Screwtape fala para o aprendiz que esse materialismo é ótimo, que vai afastá-lo da verdade e deixá-lo mais ignorante. Mas, ao mesmo tempo, esta doutrina é pouco perigosa.

Se o paciente pensar demais sobre o quanto Deus não existe, é capaz que ele perceba que Deus existe sim. Isto acontece porque o humano está levando seus raciocínios às últimas consequências.

Para Screwtape, o bom é deixar o humano naquele materialismo mais baixo, bem preso aos prazeres. Com obsessões e tentações mais imediatas.

O ideal é o paciente ficar preso em pensamentos contraditórios, em prazeres imediatos. Tudo isso em nome da tolerância. Todas as coisas contraditórias valem ao mesmo tempo, são verdadeiras. Deste modo, a pessoa vai se perdendo com essas conclusões.

É bem interessante a forma como Lewis coloca essa ideia na obra, isto entra na linha do relativismo moderno.

Wormwood precisa afastar o paciente da piedade. A piedade é uma das principais armas do inimigo. O bom mesmo é que o paciente pense que piedade é coisa de criança, algo sem utilidade para a vida.

A piedade aproxima o homem de Deus. Algo que não é desejável para o protagonista da obra. Os pensamentos do paciente a respeito do Cristianismo devem estar limitados a coisas vazias e genéricas.

Seus pensamentos nunca podem considerar reflexões teológicas profundas, conceitos importantes como o amor ao próximo. O paciente não pode sequer vislumbrar essas ideias.

Tudo isto irá aproximá-lo de Deus. O protagonista não quer isso. O paciente nunca deve se ajoelhar, que ele nunca faça orações e despreze toda piedade.

Com as pessoas ao seu redor, o paciente deve constantemente fixar-se nos defeitos das outras pessoas, aborrecendo-se com suas falhas e irritando-as constantemente.

Ao invés de amar as pessoas e seus defeitos como propõe o inimigo, o paciente tem que se sentir indignado com suas falhas: “como é possível que existam pessoas ruins na Igreja?”

Essa vaidade e soberba são muito boas para o paciente, isto irá afastá-lo de Deus. Quanto mais soberba e mais vaidade, melhor.

Ao mesmo tempo, o paciente deve ser incentivado a procurar doutrinas aguadas, um cristianismo muito mais sentimental, um verdadeiro culto dos sentimentos, ao invés de procurar a comunhão cristã verdadeira, porque isto também irá aproximá-lo de Deus. Os demônios querem afastar o paciente disso.

Todas as pessoas convivem com alguém que as irrita. Screwtape ensina Wormwood a focar os pensamentos da pessoa nesta irritação.

Outro ensinamento que o aprendiz recebe para perder as pessoas é a ideia do ativismo. Se o paciente constantemente está fazendo coisas, sem nunca refletir sobre o que faz, ele nunca chegará às consequências últimas de suas ações.

Ao mesmo tempo, o paciente deve constantemente ter em mente suas qualidades, mas nunca deve ter a chance de exercê-las.

“Se eu fosse construir uma igreja seria a mais linda do mundo”

“Se eu escrevesse um livro, seria o melhor best-seller de todos”

No fim, a pessoa vangloria-se de suas qualidades, mas acaba por não fazer nada, não oferecer nenhum bem.

O potencial do paciente é incrível, mas ele não pode levá-lo adiante. Caso o paciente exerça seu potencial, ele vai começar a fazer o bem e se aproximar de Deus.

Para evitar este problema, é bom que Wormwood sempre incentive no paciente um orgulho de suas possibilidades, sem que estas coisas se transformem de fato em coisas reais.

Se o paciente se obcecar pelo futuro, melhor ainda. Todo o futuro será maravilhoso, o progresso, o comunismo, a nova sociedade.

O aprendiz não pode permitir que seu paciente pense ideias de como será seu futuro, como ele deve se preparar. O melhor é que os pensamentos foquem em um futuro inatingível, inalcançável, abstrato.

Desse modo, o paciente irá amar esse futuro e desprezar o presente. Já o passado, também não pode ser amado, caso este seja amado, o ser humano irá desejar as boas tradições antigas.

Caso se passe no paciente algum amor pelo passado, que seja um amor fútil, até bobo, uma espécie de “ah, queria ter vivido nessa época”. Uma idolatria e idealização do passado, sem realmente abraçar a boa tradição que foi construída nesta época.

Essas são as atitudes que Screwtape ensina a Wormwood. O aprendiz deve incentivar em seu paciente essa relação com o passado e o futuro.

Em contrapartida, Deus quer que as pessoas se preparem para o futuro vivendo vidas dignas, prósperas de virtude na Terra. Isto é uma má ideia para os protagonistas da obra.

O paciente deve amar as ideologias. Ele não pode amar o próximo, ele deve amar abstrações, amar a humanidade, a liberdade, o amor. Qualquer coisa que pareça bonita, mas que não seja concreta.

Em hipótese alguma, o paciente pode amar aquele que está à sua frente. Amar valores universais também é algo muito ruim, isto irá levá-lo a uma reflexão de suas ações e sua vida.

Essas reflexões afastam as pessoas do demônio e aproximam-as do caminho de Deus. Certamente, isto não é desejável para Screwtape e Wormwood.

Na hora de procurar um relacionamento, o paciente tem que ser incentivado a procurar a pior mulher que ele puder. Uma que o atraia justamente pela superficialidade, que não tenha qualquer valor humano profundo.

Esses interesses superficiais também devem ser incentivados no paciente, isto facilitará que ele se atraia por esse tipo de mulher.

No fim do livro, o paciente acaba se apaixonando por uma mulher cristã, isto o afasta dos demônios e o coloca no caminho de Deus. Wormwood, no fim das contas, é um incompetente. Para piorar, o relacionamento leva o paciente para uma vida mais elevada.

Outro ponto que o livro apresenta é o contexto da 2ª Guerra Mundial que Lewis vivia. As guerras são outra ferramenta que os demônios podem usar.

É óbvio, os demônios amam a guerra, as pessoas se matando, as catástrofes, mas tudo isto carrega também um perigo. Ao mesmo tempo que a guerra incita o ódio, a ignorância, mortes, ela pode incitar perigos, como sacrifícios, heroísmo, pensamentos sobre a morte e o sentido da vida.

Tudo isso é muito perigoso, essas coisas podem efetivamente direcionar as pessoas para o caminho de Deus. Como acaba acontecendo com o paciente do Wormwood.

O diabo aprendiz tenta usar a guerra como ferramenta para atrair seu paciente, mas acaba colocando-o no caminho de Deus, o conflito é usado pela Providência.

Quanto mais o paciente for superficial, relativista, melhor. Todos os aspectos da sua vida devem seguir desse modo. Relacionamentos relativistas, abstratos e perdidos num futuro incerto.

Wormwood acaba se dando mal na história, perdendo seu paciente para Deus. Screwtape fica revoltado com ele. A hierarquia do mal funciona a partir do medo, de pressões e chantagens, diferentemente da hierarquia dos Céus que funciona de outro modo.

O paciente começa a se relacionar verdadeiramente com a Igreja, a ter uma visão comunitária profunda, com a busca da verdade e do bem. Coisas que realmente acabam com a missão do Wormwood.

É um belíssimo livro. Depois que a pessoa se acostuma a olhar nessa ordem invertida, ela tira um grande proveito da leitura.

O Banquete

O Banquete, cena escrita posteriormente, é maravilhoso, ele retrata o contexto político ocidental.

No século XIX aconteciam grandes banquetes pagos por barões gananciosos que exploravam o povo para se enriquecer. Só que Deus agiu e incentivou um espírito de solidariedade e acabou com muitas coisas como o trabalho infantil a sobrecarga de trabalho.

Este movimento se deu a partir da Doutrina Social da Igreja. O que foi uma grande derrota para os demônios, mas eles aproveitaram esse fenômeno para incitar outras doutrinas como o comunismo.

O Brinde dos demônios mostra como eles gostam destas doutrinas do século XX, o comunismo e o nazismo. No fundo eles querem que as pessoas se iludam, que os ocidentais creiam firmemente que estão a salvo do comunismo por terem uma cultura diferente.

Assim, aos poucos, é possível corromper sua política com as ideias comunistas. Para os demônios, isto é mais eficaz. A cocção lenta da ideologia é o melhor caminho.

Caso o fogo seja muito quente e o processo de cocção rápido, irá espantar muitas pessoas. Apenas um grupo restrito e mais podre será pego.

Agora, se o fogo está baixo, ao mesmo tempo que está se espalhando uma cultura podre, as pessoas aos poucos vão se tornando mais relativistas, mais ignorantes e mais estúpidas em suas ações.

Um volume muito grande de pessoas vão se corrompendo e sendo tomadas por ideologias. É isso que os demônios estão planejando para perverter o ocidente.

É o espírito democrático que fará perder o Ocidente. A palavra democracia por si só é muito vaga, as pessoas podem entender diversas coisas. A interpretação que os demônios querem é a igualdade absoluta.

De modo que, qualquer coisa boa, que seja um pouco melhor que a média da sociedade, seja vista como algo ruim, que fere a igualdade.

Qualquer coisa mais bela, fere a igualdade. Qualquer coisa que se destaca, fere a igualdade.

A democracia vai ser usada como um pretexto para as pessoas abraçarem o relativismo e a mediocridade, ao mesmo tempo que se sentem extremamente superiores ao outro lado.

O comunismo é muito ruim, realmente muito podre, bons para os demônios, mas ruins para a humanidade. Mas, à medida que as pessoas se sentem melhores que os orientais comunistas, elas vão aos poucos se corrompendo, piorando seu padrão moral.

A principal ferramenta que vai ser usada para isso vai ser o sistema educacional. Fato que o C.S. Lewis já apresentava na obra A Abolição do Homem. A educação vai ser uma ferramenta para levar as pessoas a essa corrupção gradativa sob o pretexto da igualdade.

Muito interessante as reflexões de Lewis nessa parte do Brinde e na obra Cartas de um diabo a seu aprendiz, como um todo. É um livro que vale a leitura.

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