Guilherme Freire
O que há de errado com o mundo?
O que há de errado com o mundo?

Você precisa ler esse livro!

Por 
Guilherme Freire
5/26/2022
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O tema de hoje é a obra 1984, de George Orwell. Dado os acontecimentos recentes, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. A culpa não é minha se, analisando a obra, sua narrativa se encaixa no mundo real.

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1984 é uma distopia feita por George Orwell. O autor chegou a lutar do lado da esquerda na Guerra Civil Espanhola, mas viu as atrocidades que seus partidários cometeram contra os anarquistas e entrou em choque.

Diante dos acontecimentos, o autor resolveu expor as ideias de esquerda que levam a esse tipo de autoritarismo, a esse estado de confusão mental. Orwell era muito versado em literatura clássica e utilizou dessa bagagem para construir sua obra.

A principal questão em jogo na obra 1984 é a relação entre a submissão da inteligência e o autoritarismo.

O mundo construído na obra é fascinante, seu protagonista é Winston Smith. Quais elementos compõem esse universo?

  • o Grande Irmão;
  • o reacionário Emmanuel Goldstein;
  • os Ministérios;
  • o Partido;
  • as classes sociais;
  • as teletelas.

O Grande Irmão conta com um culto a sua personalidade. Ele é o “nosso libertador revolucionário, nosso grande líder”, mas ninguém sabe quem ele é. É como se ele fosse um mágico de Oz, apenas uma imagem, um símbolo da revolução para ser amado.

Há um ódio construído contra o inimigo imaginário, Emmanuel Goldstein. Diariamente, acontecem os “minutos do ódio” para odiar essa figura construída do anti-revolucionário.

Ele é a ameaça de uma força reacionária que em algum momento vai chegar e vai atrapalhar a paz e a liberdade que foram construídas. Mesmo que todos sejam controlados a todo momento, Goldstein representa a restrição da liberdade.

A estrutura social conta com um partido interno, um partido externo e os proletários. O partido interno é composto por ideólogos e chefes da revolução, um grupo pequeno que zela pela ortodoxia revolucionária, pela ortodoxia do pensamento ideológico do Estado.

O partido externo são os burocratas que, muitas vezes, nem têm acesso ao partido interno, nem sabem efetivamente o que a cúpula quer, mas gerem a máquina pública, as atividades internas dos ministérios.

E, por fim, o proletariado, as pessoas comuns que estão num ciclo de dopamina alta. Elas vivem consumindo o Gim que o partido oferece, elas não têm acesso a qualquer informação que as leve a refletir sobre a própria vida, não tem participação política real.

Toda a história se passa na Oceania, não no continente, mas numa espécie de establishment do Ocidente anglo-saxônico.

Como o governo controla as pessoas em 1984?

Seu governo é gerido por uma ideologia parecida com um socialismo fabiano. Uma de suas principais políticas é sempre a redução das palavras e de seus significados. Reduzindo a linguagem, as pessoas vão ficando emburrecidas, incapazes de compreender a realidade e, consequentemente, mais fáceis de controlar.

É uma necessidade imperativa deste governo socialista. Com a linguagem pobre, as pessoas são incapazes de expressar a própria realidade e estão à mercê da ideologia, do controle do Grande Irmão.

O líder da revolução tem as teletelas. Um contraponto interessante: no Senhor dos Anéis, existe o Palantir, pelo qual o observador é capaz de enxergar longe, mas, ao mesmo tempo que vê, é visto de volta.

No 1984, as telas ouvem as pessoas e gravam suas conversas. Ao mesmo tempo que são usadas para exibir a programação do partido, elas são um mecanismo de controle da população.

É irônico que, nos dias de hoje, 1984 tenha entrado em domínio público. Nunca foi tão propício ler essa obra. Foi a época que as pessoas achavam que ele só se aplicava à União Soviética, que não poderia ser aplicado ao Ocidente.

Felizmente, as pessoas estão começando a perceber que a aplicação de 1984 é mais ampla.

Qual a função do Ministério da Verdade? Mentir. Eles fazem a “Novilíngua”, ou o “Newspeak”, uma espécie de jornalismo com o elemento de novidade. O ministério sempre tem que apresentar algo novo.

Uma nova forma de falar, sempre atualizada, para romper o contato das pessoas com o passado, para que não consigam compreender como eram as coisas antes da revolução e para que nunca tenham qualquer contato com o legado civilizatório de sua história.

Shakespeare, as catedrais, a alta cultura, nada será encontrado pelos habitantes da Oceania. Mesmo Orwell não sendo religioso ou conservador, ele reconhecia na cultura inglesa um forte legado cultural tradicional.

Para que as pessoas sejam impedidas de viver relações humanas reais, elas são instigadas a sempre se reprimir e a sempre refletir o que estão fazendo para não fugir das diretrizes do partido.

Winston Smith, o protagonista, pertence ao partido externo e, ao longo da história, tem um caso com Júlia. Mas essa relação real tem que ser escondida, ou será suprimida pelo establishment, pelo modo de controle do Grande Irmão.

Assim como o Ministério da Verdade espalha mentiras, o Ministério do Amor espalha o ódio e subverte as pessoas com um terror psicológico. Isto é feito para que as pessoas se afastem da realidade.

Muitos dos mecanismos do partido funcionam pela estimulação contraditória. Os líderes estimulam que as pessoas pensem o absurdo, 2+2=4, mas também 2+2=5. Esta ideia é o “Duplipensamento” que aparece na história.

O partido estimula as pessoas a pensarem coisas contraditórias, absurdas, para controlar seu imaginário e subordiná-las ao regime.

Inverter a realidade, as características naturais, o que é tradicional, basicamente inverter tudo para que as pessoas fiquem mais suscetíveis a serem dominadas.

Estimular o pensamento absurdo é mais uma forma de garantir o controle. É fácil encontrar dissidências à ideologia oficial. Basta pegar as pessoas quando elas estão pensando de maneira coerente.

O pensamento correto, alinhado à realidade, é um crime chamado de “Crime de Pensamento”. A pessoa é criminosa por determinada ideia “errada” que passou em sua cabeça, algo que viola o sistema, o mecanismo de controle revolucionário da estimulação contraditória.

Qualquer pensamento descartável pela ideologia oficial, é jogado no buraco da memória. O passado deve ser sempre suprimido.

Winston Smith vê no proletariado uma esperança. Uma classe que foge do domínio do establishment. Mas essas pessoas são incapazes de qualquer reflexão, elas não têm acesso ao passado para refletir o como fugir desse esquema.

Smith vislumbra nos proletários um caminho, mas compreende sua inviabilidade porque eles estão sendo enganados. O partido estimula prazeres desordenados para mantê-los submissos.

Outro artifício que o partido usa para enganar os proletários é a guerra perpétua. A Oceania constantemente está em guerra, as pessoas aplaudem os resultados dessa guerra.

Para os proletários, fica a ideia de que “ainda bem que o Partido está nessa guerra, estão defendendo nossa liberdade e nos salvando”. Há também a guerra imaginária contra outro inimigo.

O reacionário que está sempre à espreita para acabar com os avanços da revolução. Este adversário é inflado no discurso do partido tanto quanto as vitórias nas guerras imaginárias.

As guerras são algo perene, não é que sejam necessariamente imaginárias, mas são forçadas para poder justificar o esquema de domínio que o Partido tem sobre as pessoas.

As pessoas estão sendo escravizadas, mas sentem que estão sendo libertadas de uma opressão. Elas agradecem ao Grande Irmão por essa libertação.

Para que as pessoas sejam impedidas de viver relações humanas reais, elas são instigadas a sempre se reprimir e a sempre refletir o que estão fazendo para não fugir das diretrizes do partido.

Winston Smith, o protagonista, pertence ao partido externo e, ao longo da história, tem um caso com Júlia. Mas essa relação real tem que ser escondida, ou será suprimida pelo establishment, pelo modo de controle do Grande Irmão.

Assim como o Ministério da Verdade espalha mentiras, o Ministério do Amor espalha o ódio e subverte as pessoas com um terror psicológico. Isto é feito para que as pessoas se afastem da realidade.

Muitos dos mecanismos do partido funcionam pela estimulação contraditória. Os líderes estimulam que as pessoas pensem o absurdo, 2+2=4, mas também 2+2=5. Esta ideia é o “Duplipensamento” que aparece na história.

O partido estimula as pessoas a pensarem coisas contraditórias, absurdas, para controlar seu imaginário e subordiná-las ao regime.

Inverter a realidade, as características naturais, o que é tradicional, basicamente inverter tudo para que as pessoas fiquem mais suscetíveis a serem dominadas.

Estimular o pensamento absurdo é mais uma forma de garantir o controle. É fácil encontrar dissidências à ideologia oficial. Basta pegar as pessoas quando elas estão pensando de maneira coerente.

O pensamento correto, alinhado à realidade, é um crime chamado de “Crime de Pensamento”. A pessoa é criminosa por determinada ideia “errada” que passou em sua cabeça, algo que viola o sistema, o mecanismo de controle revolucionário da estimulação contraditória.

Qualquer pensamento descartável pela ideologia oficial, é jogado no buraco da memória. O passado deve ser sempre suprimido.

Winston Smith vê no proletariado uma esperança. Uma classe que foge do domínio do establishment. Mas essas pessoas são incapazes de qualquer reflexão, elas não têm acesso ao passado para refletir o como fugir desse esquema.

Smith vislumbra nos proletários um caminho, mas compreende sua inviabilidade porque eles estão sendo enganados. O partido estimula prazeres desordenados para mantê-los submissos.

Outro artifício que o partido usa para enganar os proletários é a guerra perpétua. A Oceania constantemente está em guerra, as pessoas aplaudem os resultados dessa guerra.

Para os proletários, fica a ideia de que “ainda bem que o Partido está nessa guerra, estão defendendo nossa liberdade e nos salvando”. Há também a guerra imaginária contra outro inimigo.

O reacionário que está sempre à espreita para acabar com os avanços da revolução. Este adversário é inflado no discurso do partido tanto quanto as vitórias nas guerras imaginárias.

As guerras são algo perene, não é que sejam necessariamente imaginárias, mas são forçadas para poder justificar o esquema de domínio que o Partido tem sobre as pessoas.

As pessoas estão sendo escravizadas, mas sentem que estão sendo libertadas de uma opressão. Elas agradecem ao Grande Irmão por essa libertação.

A saga de Winston Smith

O protagonista Winston Smith começa a perceber que as coisas estão erradas, começa a escrever sobre isso e vai em busca dos dissidentes. Smith busca a irmandade, o nome dado àqueles que se rebelam contra o Partido.

Na sua busca, Smith encontra no seu superior O’Brien, um membro da dissidência. No entanto, o superior apenas fingia ser um rebelde para capturar dissidentes, torturá-los e acabar com qualquer:

  • esperança de rebelião;
  • contato com o passado;
  • contato com a cultura;
  • contato com coisas que apenas o partido interno acessa.

O`Brien é parte dessa engrenagem, não a parte mais alta, mas um membro deste seleto grupo interno. Agora ele vai torturar e punir pessoas como Winston Smith, para que ele possa se conformar.

Conformar-se ao ponto de bater palmas para as vitórias nas guerras da Oceania, bater palmas para o regime e toda a sua ideologia.

Esse é basicamente o outline dessa história. A forma como Orwell descreve o Ministério da Verdade, o Ministério do Amor, como ele mostra a burocracia sufocante, suprimindo a verdade, controlando constantemente as pessoas, nos conduz a uma reflexão.

O quanto as pessoas conseguem ser facilmente manipuladas caso se crie a narrativa correta, caso a linguagem seja mudada. As pessoas vão sendo dominadas e condicionadas a acreditar na narrativa dominante, no 1984.

Como facilmente as pessoas são manipuladas e controladas mentalmente. Este é um legado que George Orwell nos passou e eu só tenho a agradecê-lo por essa estrutura simbólica, essa descrição maravilhosa que encaixa no contexto atual, e agradecer que tenha entrado em domínio público para que mais pessoas leiam neste momento o livro 1984.

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